sábado, 15 de agosto de 2009
segunda-feira, 10 de agosto de 2009
LIVRO
Acabo de ler Para sempre teu, Caio F., um delicioso e melancólico livro de cartas, conversas e memórias do escritor gaúcho, morto de aids em 1996, Caio Fernando Abreu. Escrito pela jornalista, grande amiga e companheira de Caio, Paula Dip, o livro é uma emocionante e envolvente viagem pela vida curta e intensa do escritor.
Ácido, irônico e extremamente dramático, Caio se aprofundava nas coisas e sentimentos mais simples da vida até sangrar, ele e o leitor de suas crônicas e contos tão corrosivos e reais. Caio deixava o nervo exposto e lutou com todas as forças até a última gota para sentir-se feliz e pleno antes de partir.
Pra mim, Caio foi como uma espécie de Cazuza -de quem era amigo- da literatura. Para quem não o conhece, acho que essa seria a melhor definição rápida sobre a vida e obra dele.
O livro com pouco mais de 500 páginas acaba e você nem sente, pelo menos eu não senti.
Recomendo o livro e as obras de Caio para quem gosta de contos e literatura de muitíssima qualidade e pra quem se interessa em conhecer um pouco mais a vida de artistas geniais e atormentados, que nos lavam a alma cantando, atuando ou escrevendo sobre tudo aquilo que não conseguimos verbalizar.
Só pra dar água na boca, reproduzo abaixo o trecho de uma carta escrita por Caio para a amiga Paula em uma temporada que ele viveu em Paris. Reparem se não é uma delícia:
Paris, 15 de abril de 1994.
"...Viver é bom demais, dear Deep. E veloz, meio gincana, ás vezes. Pegue tudo a que você tem direito, e nós temos direito a absolutamente tudo de bom. Porque há sangue em Ruanda, em Sarajevo, e outra vez na Palestina, há adolescentes mendigos lindíssimos pedindo esmolas pelos metrôs de Paris e estudantes em fúria pelas ruas - por tudo que há de mau no mundo, nós merecemos o máximo do bom. Sem culpa. On y va!
Ando mais bambi do que jamais, me dou pequenos presentinhos, faço tudo o que tenho vontade: me gratifico o tempo todo. E não existe outra cidade como Paris para você gratificar-se. Há alamedas inteiras de cerejeiras floridas, você passa por baixo e entra numa espécie de túnel pink - veadíssimo, voilá, ma troppo bello! -, há vitrines indianas, japonesas, javanesas, balinesas, para você se deter e ficar olhando a prata, as esmeraldas, as sedas. Descobri uma boutique só de sedas em Saint-Germain, outro dia passei uma hora inteira metido lá dentro, só tocando e sentindo, uma espécie de tesão na ponta dos dedos. Wow!
Que frenesí dos sentidos Paris me dá, Paula Dip.
Pedalices à parte, tout ça marche trés, trés bien. Os livros são um sucesso! Ganhei meia página a cores no L'Express, a Veja (com ética) daqui, uma foto em P&B com texto elogioso numa revista chic chamada Les Inrockuptibles, o programa de tv foi ótimo (eu estava numa simpatia devastadora), fui convidado para outro - Cercle de Minuit, um outro Jô daqui - no dia 25. Outro dia um menino me parou na rua do Louvre e me pediu um autógrafo. Eu, a Laika: "Mas porquoi moi?" Ele tinha visto o programa de tv, comprou Dulce V., adorou, deu para os amigos (o livro, mas talvez não só...). Eh bien, dei o autógrafo. Aí perguntei o nome dele. Ele respondeu "Damour". Eu: "Pardon?" Damour, não é que o garoto me deu um cartão, é pintor - chamava-se mesmo Damour? Há sinais pelas esquinas, dou autógrafos para o Amor na rua do Louvre e se alguém vier me falar mal da vida nestes dias que correm, eu juro que lhe parto a cara..."
A carta é longa, mas isso foi só pra dar um gostinho. Agora se depois de ler esse trecho você não tiver sentido pelo menos uma pontinha de vontade de conhecer Paris ou voltar, se já esteve lá, não leia o livro, você não vai sentir nada em nenhuma página.
Ácido, irônico e extremamente dramático, Caio se aprofundava nas coisas e sentimentos mais simples da vida até sangrar, ele e o leitor de suas crônicas e contos tão corrosivos e reais. Caio deixava o nervo exposto e lutou com todas as forças até a última gota para sentir-se feliz e pleno antes de partir.
Pra mim, Caio foi como uma espécie de Cazuza -de quem era amigo- da literatura. Para quem não o conhece, acho que essa seria a melhor definição rápida sobre a vida e obra dele.
O livro com pouco mais de 500 páginas acaba e você nem sente, pelo menos eu não senti.
Recomendo o livro e as obras de Caio para quem gosta de contos e literatura de muitíssima qualidade e pra quem se interessa em conhecer um pouco mais a vida de artistas geniais e atormentados, que nos lavam a alma cantando, atuando ou escrevendo sobre tudo aquilo que não conseguimos verbalizar.
Só pra dar água na boca, reproduzo abaixo o trecho de uma carta escrita por Caio para a amiga Paula em uma temporada que ele viveu em Paris. Reparem se não é uma delícia:
Paris, 15 de abril de 1994.
"...Viver é bom demais, dear Deep. E veloz, meio gincana, ás vezes. Pegue tudo a que você tem direito, e nós temos direito a absolutamente tudo de bom. Porque há sangue em Ruanda, em Sarajevo, e outra vez na Palestina, há adolescentes mendigos lindíssimos pedindo esmolas pelos metrôs de Paris e estudantes em fúria pelas ruas - por tudo que há de mau no mundo, nós merecemos o máximo do bom. Sem culpa. On y va!
Ando mais bambi do que jamais, me dou pequenos presentinhos, faço tudo o que tenho vontade: me gratifico o tempo todo. E não existe outra cidade como Paris para você gratificar-se. Há alamedas inteiras de cerejeiras floridas, você passa por baixo e entra numa espécie de túnel pink - veadíssimo, voilá, ma troppo bello! -, há vitrines indianas, japonesas, javanesas, balinesas, para você se deter e ficar olhando a prata, as esmeraldas, as sedas. Descobri uma boutique só de sedas em Saint-Germain, outro dia passei uma hora inteira metido lá dentro, só tocando e sentindo, uma espécie de tesão na ponta dos dedos. Wow!
Que frenesí dos sentidos Paris me dá, Paula Dip.
Pedalices à parte, tout ça marche trés, trés bien. Os livros são um sucesso! Ganhei meia página a cores no L'Express, a Veja (com ética) daqui, uma foto em P&B com texto elogioso numa revista chic chamada Les Inrockuptibles, o programa de tv foi ótimo (eu estava numa simpatia devastadora), fui convidado para outro - Cercle de Minuit, um outro Jô daqui - no dia 25. Outro dia um menino me parou na rua do Louvre e me pediu um autógrafo. Eu, a Laika: "Mas porquoi moi?" Ele tinha visto o programa de tv, comprou Dulce V., adorou, deu para os amigos (o livro, mas talvez não só...). Eh bien, dei o autógrafo. Aí perguntei o nome dele. Ele respondeu "Damour". Eu: "Pardon?" Damour, não é que o garoto me deu um cartão, é pintor - chamava-se mesmo Damour? Há sinais pelas esquinas, dou autógrafos para o Amor na rua do Louvre e se alguém vier me falar mal da vida nestes dias que correm, eu juro que lhe parto a cara..."
A carta é longa, mas isso foi só pra dar um gostinho. Agora se depois de ler esse trecho você não tiver sentido pelo menos uma pontinha de vontade de conhecer Paris ou voltar, se já esteve lá, não leia o livro, você não vai sentir nada em nenhuma página.
domingo, 9 de agosto de 2009
domingo, 2 de agosto de 2009
DOMINGO NO PARQUE...
Pessoas namorando
Pessoas abraçando
Pessoas caminhando
Pessoas tocando violão
Pessoas pedalando
Pessoas andando de skate
Pessoas se alongando
Pessoas relaxando
Pessoas refletindo
Pessoas falando japonês
Pessoas estudando inglês
Pessoas tomando água de coco
Pessoas comtemplando
Pessoas lendo
Pessoas comendo
Pessoas sorrindo
Pessoas sérias
Pessoas pensando
Pessoas correndo
Pessoas cantando
Pessoas jogando bola
Pessoas procurando
Pessoas conversando
Pessoas patinando
Pessoas admirando os cisnes negros
Pessoas acompanhadas
Pessoas solitárias
Pessoas amando
Pessoas respirando
Pessoas escrevendo uma poesia chamada VIDA...
CITAÇÃO
"Às vezes a vida fica insuportável. Em vez de cometer suicídio, eu entro num cinema. Tenho uma enorme paixão pelo cinema. Quando estou escrevendo sempre penso: onde está a câmera? Quem olha esta cena? Qual é o ângulo desta visão?"
Caio Fernando Abreu
Faço minhas as suas palavras, Caio.
terça-feira, 28 de julho de 2009
BEIJE-ME
Beije-me com volúpia e com passividade
Beije-me com silêncio e com fogos de artifício
Beije-me com doçura e com uma certa acidez
Beije-me com verdade e com uma dose de dissimulação
Beije-me com vontade e com uma pitada de desprezo
Beije-me com sorrisos e com lágrimas
Beije-me com vergonha e com descaramento
Beije-me com os lábios e com os olhos
Beije-me com descência e com obscenidade
Beije-me com chocolate e com hortelã
Beije-me selvagem e manso
Beije-me com dor e com alívio
Beije-me com glamour e com simplicidade
Beije-me com loucura e com sanidade
Beije-me com alegria e com tristeza
Beije-me com ilusão e com desesperança
Beije-me seco e molhado
Beije-me apaixonado
Beije-me tranquilo e animado
Beije-me com calmaria e com folia
Beije-me sóbrio e alucinado
Beije-me com muito e com pouco
Beije-me suave e com sufoco
Beije-me gentil e esculachado
Beije-me com o céu estrelado
Beije-me com o coração e com as mãos
Beije-me de perto e de longe
Beije-me com flores e com espinhos
Beije-me com raiva e com carinho
Beije-me com frio e com calor
Beije-me como quiser e como for
Só não me beije sem amor
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