Rodolfo tentou resistir o quanto pôde, mas a paixão por Yuri estabeleceu-se de forma inevitável em sua vida.
A primeira noite de amor foi intensa e vigorosa, Yuri era um verdadeiro vulcão em erupção, uma força da natureza e despertou em Rodolfo sensações incríveis já à algum tempo quase esquecidas. O cara mais velho, mais experiente e completamente seguro de si, sentia-se agora desarmado, frágil, mas protegido, aninhado nos braços do garoto simples e rude do interior.
Depois daquela noite Rodolfo e Yuri não se desgrudaram mais. Yuri passava mais tempo no apartamento de Rodolfo do que em sua própria casa. Até que um belo dia por ideia de Rodolfo, mudou-se de vez para lá.
De vez em quando Yuri fazia alguns bicos como ajudante de pedreiro para que Rodolfo não pensasse que ele estava se aproveitando das mordomias que ele podia lhe proporcionar. Mas Rodolfo reconhecia o esforço do rapaz e decidiu que era hora de começar a lapidar o diamante bruto que tinha levado pra sua casa.
Rodolfo começou então uma verdadeira maratona. Matriculou o garoto em um cursinho supletivo para que concluísse o ensino médio e também em um curso de inglês e espanhol.
Embora obedecesse tudo o que Rodolfo o orientava a fazer, as vezes Yuri reclamava que aprender duas línguas diferentes ao mesmo tempo era muito complicado, no que Rodolfo sempre argumentava que ele ainda era muito jovem e estava com a cabeça bem fresca para aprender muitas coisas ao mesmo tempo. Yuri era mesmo muito esperto e aprendia tudo bastante rápido e conforme progredia nos estudos Rodolfo começava a repaginar seu visual.
Num certo fim de semana viajaram até a capital, o que deixou Yuri arrepiado de excitação, pois nunca havia saído de sua pequena cidade natal e lá Rodolfo levou-o no salão que costumava frequentar e depois de algumas horas o já belo Yuri começava a transformar-se num princípe. Estava agora com um corte de cabelo moderno, a pele limpa, sedosa, quase cintilante, músculos relaxados, sentiu como se caminhasse em nuvens. Do salão partiram pro shopping. No afã de deixar seu amado com a melhor casca possível, Rodolfo deu-lhe um banho de loja. De roupas e sapatos à acessórios e perfumes Yuri ganhou de tudo do bom e do melhor, Rodolfo não fez economia, sentia-se realizado e satisfeito de ver o homem que estava amando além de lindo, feliz. E Yuri estava não só feliz, mas fascinado e encantado com todo aquele admirável mundo novo que se desvelava bem diante de seus olhos. Encerraram o dia com uma sessão de cinema.
Enquanto jantavam, já no restaurante do hotel, Yuri comentou com Rodolfo um antigo desejo.
- O dia de hoje foi perfeito, acho até que depois da nossa primeira noite juntos foi o melhor dia da minha vida, mas tem mais uma coisa que queria te pedir
- Pede
- Eu queria sair pra dançar numa boate
- Numa boate?
-É, uma balada numa boate. Eu sempre tive vontade mas nunca fui em uma. Só vi em revistas e na TV. Dançar sob aquelas luzes coloridas no meio de um monte de gente bonita, eu sempre quis fazer isso. Me leva vai.
Rodolfo achou graça do desejo de Yuri, algo que ele mesmo já tinha feito tantas vezes e andava sem paciência nenhuma para voltar a fazê-lo. Frequentar baladas era coisa do passado em seus hábitos, mas ele compreendia a curiosidade do namorado que era só um garoto e conhecia quase nada da vida e continuaria sem conhecer se ele próprio não o tivesse introduzido em uma nova vida, mas aquela parte da vida noturna ele queria adiar o máximo possível, por isso apesar do apelo quase ingênuo de Yuri, Rodolfo achou por bem recusar seu pedido.
- Dessa vez é melhor não Yuri.
- Mas por que?
- Porque amanhã a gente pega a estrada cedo de volta pra casa.
- Mas não tem problema. A gente sai agora, ainda tá cedo, fica só um pouquinho, só pra eu ver como é, e amanhã a gente pega a estrada um pouco mais tarde, que tal?
- Meu querido, eu estou muito cansado, o dia foi exaustivo hoje. Eu sei que você não sente como eu, tá aí cheio de gás, mas eu não tenho mais 19 aninhos. O melhor que a gente tem a fazer agora é ir pro quarto e dormir o sono dos justos. Eu juro, prometo que da próxima vez que viermos pra cá eu te levo na melhor balada da cidade e você vai dançar sob as luzes coloridas a noite inteira.
Terminaram o jantar e se recolheram numa das melhores suítes do hotel. Rodolfo pegou no sono logo e Yuri insone, ficou assistindo filmes no DVD sem legendas para treinar o inglês. Lá pelas tantas, quase pegando no sono, abraçado e com a cabeça recostada ao peito de Rodolfo, Yuri murmurou as últimas palavras antes de cair em sono profundo.
- Eu te amo.
sexta-feira, 13 de maio de 2011
terça-feira, 18 de janeiro de 2011
PAIXÃO TARDIA

Em estado de encantamento, completamente arrebatado. Foi assim que fiquei ao acompanhar a microssérie baseada na obra musical de Chico Buarque Amor em 4 atos. Na verdade nunca fui muito fã de Chico, ao contrário, sempre me incomodou um pouco tanto oba oba em cima de sua figura constantemente apontada como um profundo conhecedor da alma feminina e tal, toda a aura de unanimidade que o envolve e o fato de ele aparecer muito pouco, fortalecendo o rótulo de celebridade inatingível.

Enfim, depois de Amor em 4 atos, fui obrigado a rever meus conceitos sobre Chico e sua obra, me apaixonei, ainda que tardiamente. Impossível não se render a melancolia de O QUE SERÁ e AS VITRINES nos episódios com Aline Moraes (sempre um bálsamo para os olhos) e Vladimir Brichta. Como não mergulhar nas águas profundas de uma paixão atormentada e dolorosa vivida por Carolina Ferraz e Dalton Vigh ao som de MIL PERDÕES? Ou não querer amar intensa e sofregamente como se fosse a última vez, assistindo ao episódio inspirado em ELA FAZ CINEMA e CONSTRUÇÃO, embalados pela doçura sexy de Marjorie Estiano e a inoxidável virilidade de Malvino Salvador?

Aplausos para a sofisticada direção de Roberto Talma, Rede Globo e Chico Buarque que juntos levaram ao ar uma das melhores coisas desse início de ano: Música para os olhos.
domingo, 2 de janeiro de 2011
ANO NOVO, VIDA NOVA?
Na noite da virada, na sacada do nono andar do edifício Madri, pipocam no céu os multicolores e sempre fascinantes fogos de artifício, os dourados e os lilázes são os mais bonitos. Uma taça de espumante na mão e a cada nova explosão uma palpitação diferente e angustiante no peito. Tanta esperança antes da meia-noite do dia 31, e no primeiro minuto de 2011 um medo aterrador, agora o ano novo não é mais apenas um vislumbre, ele existe de fato e chegou a hora de pôr em prática todas as promessas, tentar realizar todos os desejos ou pelo menos parte deles. Sabe-se que 99,99% de as coisas acontecerem depende somente de nós, mas também é necessário o 00,01% de oportunidade pras coisas darem certo e se esse 00,01% não der o ar de sua graça? Pânico total, mas este só dura o tempo de eu lembrar quem sou, nada ou quase nada me detém quando quero algo e em 2011 EU QUERO MUITO, em 2010 também quis mas era apenas uma ideia a amadurecer, agora já está amadurecida e pronta pra ser colhida.
Depois da meia-noite hora de encontrar todo mundo madrugada à fora. Praia, bebidas, abraços, gargalhadas, felicitações, pegação e mais esperança, muitas, toneladas, pra enfrentar com um sorriso no rosto os próximos novos 365 dias.
01 de janeiro de 2011, acordo as 15:00, um banho bem demorado, comidinha leve, roupa bacana pra festa de logo mais à noite. Casa lotada, gente bonita saindo pelo ladrão, música dance, cerveja, ice, água. Roupa encharcada de suor. Um sorriso é trocado no bar, um drink me é oferecido e gentilmente recusado, mais tarde um beijo no escuro. Drags, go-go boys, gritos ensandecidos. Deixo a festa as 05:00 da manhã e depois de quase um ano sem frequentar casas noturnas chego a mesma conclusão: tudo continua igual, exceto o drink oferecido, que tantas vezes vi nos filmes e devaneei que um dia aconteceria comigo, demorou mas aconteceu, a primeira novidade de 2011, talvez nem tudo continue igual ou será que sou eu que estou diferente?
Depois da meia-noite hora de encontrar todo mundo madrugada à fora. Praia, bebidas, abraços, gargalhadas, felicitações, pegação e mais esperança, muitas, toneladas, pra enfrentar com um sorriso no rosto os próximos novos 365 dias.
01 de janeiro de 2011, acordo as 15:00, um banho bem demorado, comidinha leve, roupa bacana pra festa de logo mais à noite. Casa lotada, gente bonita saindo pelo ladrão, música dance, cerveja, ice, água. Roupa encharcada de suor. Um sorriso é trocado no bar, um drink me é oferecido e gentilmente recusado, mais tarde um beijo no escuro. Drags, go-go boys, gritos ensandecidos. Deixo a festa as 05:00 da manhã e depois de quase um ano sem frequentar casas noturnas chego a mesma conclusão: tudo continua igual, exceto o drink oferecido, que tantas vezes vi nos filmes e devaneei que um dia aconteceria comigo, demorou mas aconteceu, a primeira novidade de 2011, talvez nem tudo continue igual ou será que sou eu que estou diferente?
terça-feira, 14 de dezembro de 2010
LIBERDADE PARA AS BORBOLETAS - PARTE 1
Fazia pouco mais de um mês que Rodolfo tinha sido transferido da multinacional que trabalhava em São Paulo, para gerenciar uma filial recém inaugurada numa pequena cidade litorânea a alguns quilômetros de distância da capital.
Rodolfo estava numa fase tranquila e estável, exceto pela pequena crise dos trinta que se abateu sobre ele tão logo acabara de completar trinta e cinco anos. Isso ocorrera poucas semanas antes da transferência de emprego, de cidade, de vida. De repente sua vida deu um giro de 360 graus, mudou tudo e Rodolfo encarou as coisas de peito aberto, como uma nova oportunidade de recomeçar. Embora nunca tivesse se imaginado vivendo longe da paulicéia desvairada Rodolfo pensou que seria bom. Apesar da distância dos amigos e da vida social intensa que deixaria pra trás, também estaria deixando algumas tristezas e desilusões, como um longo relacionamento que havia acabado da maneira mais desastrosa possível e do qual ele ainda não havia se recuperado completamente, e para uma plena recuperação nada melhor que uma mudança radical. Novos ares, novas pessoas, a vida bem pertinho do mar, uma rotina novinha em folha. Rodolfo achou toda aquela história de promoção e transferência providencial.
Assim que se intalou no novo endereço, Rodolfo trocou as superlotadas academias de São Paulo por saudáveis caminhadas na areia da praia, onde de vez em quando podia parar para comtemplar o mar, as gaivotas, sentir a brisa no rosto e entre uma alongada e outra refletir sobre a brusca mudança em sua vida, em como tinha se tornado pacata e o quanto era agradável, apesar de em alguns momentos sentir um pouco de tédio, afinal desde que se entendia por gente ele era um homem urbano e cosmopolita até o último fio de cabelo, e se adaptar a pasmaceira de uma cidade com pouco mais de 50.000 habitantes não era assim tão fácil, mas estava indo bem.
Foi então que numa dessas caminhadas Rodolfo percebeu alguém numa bicicleta que parecia segui-lo à distância enquanto fazia seus exercícios na areia. Da primeira vez ignorou, na segunda ficou intrigado, na terceira encarou o homem tão furiosamente que este resolveu se aproximar e desfazer qualquer mal entendido. Rodolfo ficou receoso, não sabia o que pensar enquanto o rapaz caminhava em sua direção arrastando a bicicleta velha e enferrujada. Podia ser um delinquente, um psicopata ou quem sabe alguém interessado nele, de todas as opções a última era a que lhe causava mais arrepios. Preferia ser assaltado em plena luz do dia a beira-mar do que se envolver com alguém naquele momento de sua vida, mas fosse o que fosse o mistério estava pra acabar naquele instante.
O rapaz que aparentava ser bem jovem vestia um abrigo surrado, tênis velhos e boné de campanha eleitoral, apesar da aparência desleixada tinha um rosto bonito, Rodolfo reparou bem nisso, assim como nos profundos olhos verdes do rapaz, que meio tímido apresentou-se, disse que se chamava Yuri e que tinha reparado que Rodolfo era novo na cidade e queria conhecê-lo melhor, mas ficou sem jeito de chegar de cara e passou a observá-lo durante suas caminhandas. Notando que o rapaz era inofensivo e um tanto quanto ingênuo Rodolfo não quis ser rude, mas foi direto. Pediu que o garoto não o seguisse mais porque se sentia desconfortável e que não estava interessado em conhecer pessoas naquele momento. Decidiu correr o mais depressa que pôde de Yuri, deixando-o ali parado com ar perplexo e decepcionado.
Com o passar dos dias Rodolfo não conseguia tirar Yuri da cabeça, o rapaz havia parado de observá-lo durante seus exercícios na praia desde o dia em que tentou aquela frustrada aproximação e Rodolfo percebeu que sentia falta dos furtivos e distantes olhares do simplório rapaz. Até que num final de tarde qualquer, enquanto voltava caminhando pra casa após mais um dia de trabalho, Rodolfo foi surpreendido por Yuri aproximando-se sorrateiramente com sua inseparável bicicleta. O garoto o cumprimentou timidamente perguntando-lhe se ainda se lembrava dele. Rodolfo quase não conseguiu disfarçar um discreto sorriso, estava contente em vê-lo de novo, e desta vez foi mais receptivo ao rapaz. Conversaram um pouco até que decidiram tomar alguma coisa. Sentaram num bar e entre uma cerveja e outra conversaram amenidades. Enquanto Yuri falava com seu jeito rude e simples, Rodolfo percebia ali um diamante bruto pronto pra ser lapidado. Ficaram longas horas na mesa do bar e conforme a conversa avançava Yuri contava com muita naturalidade e nenhum aparente ressentimento a vida difícil que vivia ao lado mãe relapsa que nunca se preocupou muito com seus estudos e seu bem-estar. Apesar da maneira rústica e desleixada com que falava, como se aquilo não o afetasse, Rodolfo não conseguia deixar de se enternecer com a história triste daquele garoto de dezenove anos, de belo rosto que poderia ter grandes oportunidades se bem direcionado.
As horas passaram voando e ao ver que o bar começava a fechar as portas Rodolfo tomou a iniciativa de pagar a conta e se retirar. Na saída Yuri ofereceu-se para ir com Rodolfo até seu apartamento, mas este recusou prontamente a possibilidade. Prometeu a seu mais novo amigo que em outra oportunidade o convidaria para ouvir umas músicas e tomar um vinho em seu apartamento, mas não seria naquele dia. Yuri insistiu mais um pouco, mas Rodolfo foi firme em sua postura. Sabia muito bem o que o garoto queria e naquele momento isto ainda estava fora de cogitação. Nos últimos meses, Rodolfo não tinha nenhum interesse por sexo sua libido andava bem em baixa desde pouco antes do fim de seu último relacionamento, o que o fazia pensar que este seria um dos motivos da separação que lhe deixou marcas profundas de dor e tristeza.
Despediram-se então com um suave aperto de mão e foram para lados opostos. Sozinho no quarto à meia-luz, refestelado em sua enorme king-size Rodolfo pensava em Yuri e todas as possibilidades que ele poderia trazer a sua vida. Sentiu um desejo incontrolável de ajudá-lo, de transformá-lo, só não poderia se apaixonar de jeito nenhum,era o que repetia em seus pensamentos.
Rodolfo estava numa fase tranquila e estável, exceto pela pequena crise dos trinta que se abateu sobre ele tão logo acabara de completar trinta e cinco anos. Isso ocorrera poucas semanas antes da transferência de emprego, de cidade, de vida. De repente sua vida deu um giro de 360 graus, mudou tudo e Rodolfo encarou as coisas de peito aberto, como uma nova oportunidade de recomeçar. Embora nunca tivesse se imaginado vivendo longe da paulicéia desvairada Rodolfo pensou que seria bom. Apesar da distância dos amigos e da vida social intensa que deixaria pra trás, também estaria deixando algumas tristezas e desilusões, como um longo relacionamento que havia acabado da maneira mais desastrosa possível e do qual ele ainda não havia se recuperado completamente, e para uma plena recuperação nada melhor que uma mudança radical. Novos ares, novas pessoas, a vida bem pertinho do mar, uma rotina novinha em folha. Rodolfo achou toda aquela história de promoção e transferência providencial.
Assim que se intalou no novo endereço, Rodolfo trocou as superlotadas academias de São Paulo por saudáveis caminhadas na areia da praia, onde de vez em quando podia parar para comtemplar o mar, as gaivotas, sentir a brisa no rosto e entre uma alongada e outra refletir sobre a brusca mudança em sua vida, em como tinha se tornado pacata e o quanto era agradável, apesar de em alguns momentos sentir um pouco de tédio, afinal desde que se entendia por gente ele era um homem urbano e cosmopolita até o último fio de cabelo, e se adaptar a pasmaceira de uma cidade com pouco mais de 50.000 habitantes não era assim tão fácil, mas estava indo bem.
Foi então que numa dessas caminhadas Rodolfo percebeu alguém numa bicicleta que parecia segui-lo à distância enquanto fazia seus exercícios na areia. Da primeira vez ignorou, na segunda ficou intrigado, na terceira encarou o homem tão furiosamente que este resolveu se aproximar e desfazer qualquer mal entendido. Rodolfo ficou receoso, não sabia o que pensar enquanto o rapaz caminhava em sua direção arrastando a bicicleta velha e enferrujada. Podia ser um delinquente, um psicopata ou quem sabe alguém interessado nele, de todas as opções a última era a que lhe causava mais arrepios. Preferia ser assaltado em plena luz do dia a beira-mar do que se envolver com alguém naquele momento de sua vida, mas fosse o que fosse o mistério estava pra acabar naquele instante.
O rapaz que aparentava ser bem jovem vestia um abrigo surrado, tênis velhos e boné de campanha eleitoral, apesar da aparência desleixada tinha um rosto bonito, Rodolfo reparou bem nisso, assim como nos profundos olhos verdes do rapaz, que meio tímido apresentou-se, disse que se chamava Yuri e que tinha reparado que Rodolfo era novo na cidade e queria conhecê-lo melhor, mas ficou sem jeito de chegar de cara e passou a observá-lo durante suas caminhandas. Notando que o rapaz era inofensivo e um tanto quanto ingênuo Rodolfo não quis ser rude, mas foi direto. Pediu que o garoto não o seguisse mais porque se sentia desconfortável e que não estava interessado em conhecer pessoas naquele momento. Decidiu correr o mais depressa que pôde de Yuri, deixando-o ali parado com ar perplexo e decepcionado.
Com o passar dos dias Rodolfo não conseguia tirar Yuri da cabeça, o rapaz havia parado de observá-lo durante seus exercícios na praia desde o dia em que tentou aquela frustrada aproximação e Rodolfo percebeu que sentia falta dos furtivos e distantes olhares do simplório rapaz. Até que num final de tarde qualquer, enquanto voltava caminhando pra casa após mais um dia de trabalho, Rodolfo foi surpreendido por Yuri aproximando-se sorrateiramente com sua inseparável bicicleta. O garoto o cumprimentou timidamente perguntando-lhe se ainda se lembrava dele. Rodolfo quase não conseguiu disfarçar um discreto sorriso, estava contente em vê-lo de novo, e desta vez foi mais receptivo ao rapaz. Conversaram um pouco até que decidiram tomar alguma coisa. Sentaram num bar e entre uma cerveja e outra conversaram amenidades. Enquanto Yuri falava com seu jeito rude e simples, Rodolfo percebia ali um diamante bruto pronto pra ser lapidado. Ficaram longas horas na mesa do bar e conforme a conversa avançava Yuri contava com muita naturalidade e nenhum aparente ressentimento a vida difícil que vivia ao lado mãe relapsa que nunca se preocupou muito com seus estudos e seu bem-estar. Apesar da maneira rústica e desleixada com que falava, como se aquilo não o afetasse, Rodolfo não conseguia deixar de se enternecer com a história triste daquele garoto de dezenove anos, de belo rosto que poderia ter grandes oportunidades se bem direcionado.
As horas passaram voando e ao ver que o bar começava a fechar as portas Rodolfo tomou a iniciativa de pagar a conta e se retirar. Na saída Yuri ofereceu-se para ir com Rodolfo até seu apartamento, mas este recusou prontamente a possibilidade. Prometeu a seu mais novo amigo que em outra oportunidade o convidaria para ouvir umas músicas e tomar um vinho em seu apartamento, mas não seria naquele dia. Yuri insistiu mais um pouco, mas Rodolfo foi firme em sua postura. Sabia muito bem o que o garoto queria e naquele momento isto ainda estava fora de cogitação. Nos últimos meses, Rodolfo não tinha nenhum interesse por sexo sua libido andava bem em baixa desde pouco antes do fim de seu último relacionamento, o que o fazia pensar que este seria um dos motivos da separação que lhe deixou marcas profundas de dor e tristeza.
Despediram-se então com um suave aperto de mão e foram para lados opostos. Sozinho no quarto à meia-luz, refestelado em sua enorme king-size Rodolfo pensava em Yuri e todas as possibilidades que ele poderia trazer a sua vida. Sentiu um desejo incontrolável de ajudá-lo, de transformá-lo, só não poderia se apaixonar de jeito nenhum,era o que repetia em seus pensamentos.
terça-feira, 30 de novembro de 2010
CORES VERDADEIRAS
Música é essencial pra vida, pra minha pelo menos, e quando a música é boa de verdade o tempo passa, surgem novas versões e interpretações, mas a emoção que nos provoca permanece intacta. Esse é o caso de True Colors, canção dos anos 80 composta e gravada pela minha amada e ícone pop Cyndi Lauper.
Escutei True Colors pela primeira vez na voz de Phil Collins, já na sua segunda versão, no final dos anos 90 e me apaixonei por aquela interpretação masculina e sedutora. Mas quando descobri, pouco tempo depois a legítima dona das tais cores verdadeiras fui irremediavelmente arrebatado por toda a força e delicadeza da diva absoluta de uma época.
Agora, mais de 20 anos depois de sua versão original, True Colors volta com alguns toques de modernidade mas tão emocionante quanto antes. Uma inacreditável e surpreendente Alessandra Maestrini assume os vocais e consegue mais uma vez tocar no ponto exato da emoção, provando que quando as cores são verdadeiras os sentimentos são imortais.
Link do vídeo com Alessandra Maestrini:http://www.youtube.com/watch?v=8w1eszbtg5g
sábado, 2 de outubro de 2010
SOUFLÊ DE QUEIJO
por Luís Fernando Veríssimo
Jorge conta a Marta que convidou seu novo chefe para jantar.
- Eu falei do meu souflê de queijo e ele se interessou.
- Você falou no seu souflê de queijo assim, sem mais nem menos?
- Não. Não lembro qual era o assunto. Nós estávamos numa reunião e, de repente se falou em souflês.
- Que estranho, não é uma firma de corretagem? Vocês falam muito em souflês nas reuniões?
- Não interessa. O fato é que ele vem jantar aqui. Aceitou na hora.
- Quando?
- Amanhã.
Na noite seguinte:
- Você vai usar esse vestido?
- Por quê?
- Usa aquele teu preto, o decotado.
- Ó, Jorge! Quié isso?
- Você fica muito bem naquele vestido, e eu quero que ele veja como a minha mulher é bonita.
- Você quer que ele veja os meus peitos, é isso?
- Não, Marta. É pra, sei lá. Combinar com o jantar. Com as velas, com o souflê...
- Este vestido está bom.
- Marta. Por favor.
- Não sei que diferença vão fazer os meus peitos.
Jorge, depois de um suspiro de impaciência:
- Marta, acho que você não se deu conta da importância desse jantar. Pra mim. Pra nós. Ele é o novo chefe. Está num período de avaliação da equipe. Tem gente que vai pra rua. Ele é quem decide. Está entendendo? Eu posso ir pra rua.
- Se ele não gostar do seu souflê?
- Não, Marta! Mas ele aceitar vir provar meu souflê é um sinal de que quer me conhecer melhor. Podemos ficar amigos. Esse jantar pode decidir a nossa vida, Marta. Preciso que você faça a sua parte.
- Mostrando os peitos...
- E não só isso.
- Não só isso, Jorge?!
- Marta, chegou a hora de saber o que você está disposta a fazer por mim. Pela minha carreira. Pelo nosso futuro. Por nós.
- Como assim?
- Você sabe que eu tenho que ficar na cozinha quando o souflê estiver ficando quase pronto. Os últimos minutos são cruciais para um souflê de queijo não passar do ponto. E você vai ficar sozinha com ele na sala. Marta...
- Jorge, você é que está passando do ponto.
- Marta, isso não é hora de pensar em fidelidade, em moral, em mais nada. É hora de pensar no meu emprego e na nossa renda. É hora de você pensar nas prestações do seu cartão de crédito, Marta!
- Mas...
- Vá botar o vestido decotado!
Chega o novo chefe para jantar.
- Marta, este é o Ciro. Ciro, esta é a Marta, minha mulher.
É evidente a surpresa na cara de Ciro
- Sua mulher?
- É.
- Eu não sabia que você era casado.
- Sou, sou. E bem casado.
- Prazer - diz Ciro, estendendo uma mão lânguida para Marta apertar. A decepção substituiu a surpresa no seu rosto.
Mais tarde, na cozinha, onde entrou para buscar o gelo, Marta comenta com Jorge, que acaba de colocar o souflê no forno:
- Acho que ele está a fim é de você, Jorge.
- Nem brincando, Marta.
- Chegou a hora de saber o que você está disposto a fazer pela sua carreira. Pelo nosso futuro. Por nós, Jorge.
Jorge conta a Marta que convidou seu novo chefe para jantar.
- Eu falei do meu souflê de queijo e ele se interessou.
- Você falou no seu souflê de queijo assim, sem mais nem menos?
- Não. Não lembro qual era o assunto. Nós estávamos numa reunião e, de repente se falou em souflês.
- Que estranho, não é uma firma de corretagem? Vocês falam muito em souflês nas reuniões?
- Não interessa. O fato é que ele vem jantar aqui. Aceitou na hora.
- Quando?
- Amanhã.
Na noite seguinte:
- Você vai usar esse vestido?
- Por quê?
- Usa aquele teu preto, o decotado.
- Ó, Jorge! Quié isso?
- Você fica muito bem naquele vestido, e eu quero que ele veja como a minha mulher é bonita.
- Você quer que ele veja os meus peitos, é isso?
- Não, Marta. É pra, sei lá. Combinar com o jantar. Com as velas, com o souflê...
- Este vestido está bom.
- Marta. Por favor.
- Não sei que diferença vão fazer os meus peitos.
Jorge, depois de um suspiro de impaciência:
- Marta, acho que você não se deu conta da importância desse jantar. Pra mim. Pra nós. Ele é o novo chefe. Está num período de avaliação da equipe. Tem gente que vai pra rua. Ele é quem decide. Está entendendo? Eu posso ir pra rua.
- Se ele não gostar do seu souflê?
- Não, Marta! Mas ele aceitar vir provar meu souflê é um sinal de que quer me conhecer melhor. Podemos ficar amigos. Esse jantar pode decidir a nossa vida, Marta. Preciso que você faça a sua parte.
- Mostrando os peitos...
- E não só isso.
- Não só isso, Jorge?!
- Marta, chegou a hora de saber o que você está disposta a fazer por mim. Pela minha carreira. Pelo nosso futuro. Por nós.
- Como assim?
- Você sabe que eu tenho que ficar na cozinha quando o souflê estiver ficando quase pronto. Os últimos minutos são cruciais para um souflê de queijo não passar do ponto. E você vai ficar sozinha com ele na sala. Marta...
- Jorge, você é que está passando do ponto.
- Marta, isso não é hora de pensar em fidelidade, em moral, em mais nada. É hora de pensar no meu emprego e na nossa renda. É hora de você pensar nas prestações do seu cartão de crédito, Marta!
- Mas...
- Vá botar o vestido decotado!
Chega o novo chefe para jantar.
- Marta, este é o Ciro. Ciro, esta é a Marta, minha mulher.
É evidente a surpresa na cara de Ciro
- Sua mulher?
- É.
- Eu não sabia que você era casado.
- Sou, sou. E bem casado.
- Prazer - diz Ciro, estendendo uma mão lânguida para Marta apertar. A decepção substituiu a surpresa no seu rosto.
Mais tarde, na cozinha, onde entrou para buscar o gelo, Marta comenta com Jorge, que acaba de colocar o souflê no forno:
- Acho que ele está a fim é de você, Jorge.
- Nem brincando, Marta.
- Chegou a hora de saber o que você está disposto a fazer pela sua carreira. Pelo nosso futuro. Por nós, Jorge.
quarta-feira, 11 de agosto de 2010
NÃO É UMA HISTÓRIA DE AMOR?

O filme 500 DIAS COM ELA começa com o seguinte aviso: "Esta não é uma história de amor." Afirmação da qual discordo completamente.
O filme narra a relação nada convencional entre Tom e Summer. Os dois são jovens, bonitos e cheios de vida. Tom se apaixona perdidamente por Summer, Summer não se apaixona. Eles se envolvem, fazem amor, passam momentos especiais juntos. Mas o que para Tom é um romance arrebatador, para Summer não passa de uma agradável amizade colorida. E assim o filme apresenta-se como uma não história de amor, justamente pelo fato da mocinha não corresponder ao amor do rapaz, que sofre feito um condenado por não ter seu sentimento correspondido.
Eis aí uma grande contradição, pois o filme é sim uma história de amor. Uma triste e aflitiva história de amor não correspondido, uma via de mão única, como são todos os amores não correspondidos.
É a história do amor de Tom, um amor forte, puro, sincero, doloroso, marcante e não recíproco, como tantos amores que sentimos pela vida à fora.
É injusto dizer a alguém que amou profundamente outra pessoa, que ela não viveu uma história de amor porque a outra pessoa não a amava. Histórias de amor não são necessáriamente aquelas vividas por duas pessoas que se amam com a mesma intensidade. Histórias de amor não podem ser rotuladas.
Tudo isso é pra dizer que já faz um tempo que assisti esse filme e o equívocado aviso inicial me deixou contrariado, pois tenho uma extensa lista de amores platônicos e vivi todos eles com toda a intensidade que cada um merecia. Amores que me fizeram chorar, sonhar, suspirar, que me inspiraram, que fizeram meu coração pulsar mais acelerado, que me fizeram tremer, me deixaram com borboletas no estômago e me tornaram mais humano.
Não me relacionei fisicamente com muitas pessoas, mas posso afirmar sem hesitação que não amei todos os que beijei e não beijei todos os que amei. Diferente de Tom que ainda se perdeu em gozos nos braços de sua amada, nenhum de meus avassaladores amores foi consumado, e por isso, talvez, tenha sofrido menos que ele, ou será o contrário?
Não importa. O importante em toda essa história, é que nós, os que amamos sem ser amados, que não tivemos nossos amores correspondidos, que afundamos a cara no travesseiro em prantos ouvindo MPB e sofremos o diabo, não podemos ter nossas histórias de amor menosprezadas.
No final das contas, ao menos a contraditória sentença no início do filme rendeu um post que não haveria se a frase fosse mais coerente, como: "Esta é uma história de amor não correspondido." Mas talvez o filme perdesse boa parte de seu charme. Enfim, divagações, mas se você ainda não viu o filme já sabe, talvez deteste a linda mocinha, pode achá-la uma boa bisca ou uma grandissíssima filha-da-puta, mas com certeza vai se identificar horrores porque amor não correspondido não há quem não tenha sentido.
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