segunda-feira, 2 de julho de 2012

MÃE

Você veio depois de um ano de afastamento, um ano de saudade, de falta. E você me enlouqueceu! Eu te abracei forte, te apertei, belisquei teu pescoço, amaciei teus seios fartos que eu tanto amo, aspirei teu cheiro de todas as formas que pude, como se fosse o último suspiro. Me aninhei em seu colo, beijei tua pele já marcada pelo tempo e te mordi de leve, sem machucar, mas queria na verdade um pedaço teu, um pedaço físico que ficasse aqui comigo pra sempre. E tudo isso, acredito eu, como uma forma inconsciente de tentar voltar pro teu útero, pro lugar quente e confortável onde ficamos protegidos de tudo e de todos. O lugar onde só uma mãe pode guardar o seu filho, dentro de si.

Ainda assim, você me enlouqueceu! Com seus conselhos repetidos, suas cobranças, seus temores, suas reclamações. Você não parava de falar um segundo. Me deixou exausto, emocionalmente esgotado. Me questionou sobre assuntos que eu já expliquei milhões de vezes e falou sobre coisas que eu já escutei milhões de vezes. E se deprimiu e chorou, se sentiu culpada e me fez sentir culpado. Disse que não conseguia ser feliz longe de mim, depois disse que era uma mulher muito feliz. Tentou me persuadir de continuar morando sozinho. Remexeu nos meus livros, nos meus filmes, nas minhas roupas. Infelizmente ainda não conseguiu entender que a sua felicidade não é a minha e por isso me encheu de palavras com boas intenções que soaram tão desanimadoras.

E quando eu achava que não ia suportar e iria explodir, respirava fundo e fingia que não era comigo. Foram três dias, apenas três dias, e você conseguiu colocar em dia todas as cobranças e conselhos e afins de uma vida inteira. E quando começava a sair fumacinha pelos meus ouvidos você se foi, e antes de partir pensei em que como era bom voltar a normalidade, estar sozinho de novo, em silêncio, mas minutos antes do embarque me agarrei a você e você me pediu desculpas, e senti vontade de chorar. Você não tinha que se desculpar por coisa nenhuma. Então eu me desculpei, por ter feito você pensar que devia se desculpar por alguma coisa. E eu não queria te soltar. Queria que você fosse, mas também queria que você ficasse, e você se foi. Seguiu seu caminho, eu segui o meu. 

De volta a normalidade, pude caminhar livre pela cidade. Dei voltas pelo centro, tomei uma cerveja, senti uma tristeza. Voltei pra casa. Ao entrar no apartamento um vazio, uma falta enorme. Esqueci os conselhos, as cobranças, as críticas, as chantagens emocionais. Só consegui lembrar do cheiro, do calor, do colo, das palavras doces, da pele, do toque, do sorriso, do jeito puro que só você tem e da falta imensa que tudo isso me faz.

quinta-feira, 24 de maio de 2012

DA SÉRIE: OS FILMES DA MINHA VIDA - MINHA MÃE É UMA SEREIA (8)

 Sou daquele tipo que adora um filme profundo, filosófico, que te faz ficar pensando sobre ele horas, dias, meses e as vezes até anos depois que você assiste. Mas também, tenho verdadeira paixão por filmes leves e despretenciosos, que te pegam de surpresa como uma chuva morna de verão e você adora. Dentre estes tenho uma lista imensa, e hoje vou falar de um que sem sombra de dúvidas faz parte das minhas doces recordações: MINHA MÃE É UMA SEREIA.

O filme é de 1990, e o assisti em uma sessão da tarde a muitos e muitos anos atrás. Já faz tanto tempo que ainda não conhecia a carreira musical de Cher e nem era o fã ardoroso que sou hoje, mas já gostava bastante da Winona Ryder, e da pequena Christina Ricci passei a gostar muitíssimo, depois. De qualquer maneira o filme me conquistou pela história em si.

Uma mãe solteira dos anos 60, exuberante e sexy, não cria raízes em nenhum lugar e sempre que vislumbra um possível problema provocado por sua moderna e ousada forma de viver, entra em seu velho automóvel e parte para uma nova cidade, impedindo assim que as filhas, uma adolescente de 15 anos e uma menina de 10, cultivem amizades e relacionamentos. Com isso, ela está sempre entrando em conflito com a filha mais velha, que não aprova o estilo de vida meio "mochileira" da mãe e um tanto quanto libertário, e justamente para se diferenciar dela cisma que quer ser freira, só que acaba se encantando por um belo capaz que por ironia encanta-se por sua mãe. Já a mais nova é espevitada e vivaz e sonha em ser uma grande nadadora. Juntas, as três formam uma deliciosa família de mulheres com personalidades completamente diferentes, provando que famílias de verdade se amam incondicionalmente.

MINHA MÃE É UMA SEREIA é realmente um encanto, e o elenco é um deleite à parte. Cher está simplesmente deslumbrante, vibrante e mágica. Winona no auge de sua doçura adolescente, divertida e fascinante. E a mascote Christina, adorável e cativante. Um filme pra toda família. Uma pérola preciosa. Uma história pura, que ficou gravada no meu coração.

terça-feira, 22 de maio de 2012

DA SÉRIE: OS FILMES DA MINHA VIDA - FILADELFIA (7)


Em 1993 eu era um pré-adolescente prestes a completar 12 anos. Adorava ir ao cinema com meu pai. Até essa idade tinha assistido todos os filmes d'Os Trapalhões, da Xuxa, os clássicos Disney como O Rei Leão, Alladin, A Bela e a Fera. Até que chegou a hora de meu primeiro filme adulto, e eu comecei com nada mais nada menos que um grande sucesso do cinema, o terno, profundo e dramático FILADELFIA de Jonathan Demme. Eu não podia imaginar,mas depois dessa sessão de cinema eu jamais seria o mesmo. FILADELFIA significou tanto pra mim, em muitos sentidos. Foi o primeiro filme com abordagem gay da minha vida. Foi a primeira vez que vi interpretações de verdade. Foi a primeira vez que me emocionei com seres humanos e não com bichos ou desenhos animados (tudo bem, eu também chorei em Lua de Cristal e Super Xuxa contra o Baixo Astral, mas esses não contam). Foi em FILADELFIA que eu entendi o significado de muita coisa, mas o que eu não consigo esquecer é da emoção do meu pai ao assisti-lo. A emoção dele, pra mim teve muito significado. Significava que o meu pai não era tão preconceituoso quanto eu podia imaginar e que um dia, talvez, ele me aceitasse sem muitas dificuldades. Meu pai era um homem sensível, foi o que me pareceu na época, e foi tão bonito perceber isso.   

FILADELFIA foi um marco não só pela história emocionante e arrebatadora de amor, preconceito e justiça, mas por inúmeros detalhes que tornaram ela grandiosa e merecedora de todos os prêmios que recebeu na época. A trilha sonora foi um show à parte, com Bruce Spreengsteen encabeçando o elenco, que contou ainda com nomes como os de Neil Young dando o golpe de misericórdia com sua melanólica e massacrante "Philadelphia", e a depressiva, porém maravilhosa ópera "La mamma morta". As atuações de Tom Hanks como o advogado Andrew, vítima de discriminação pela aids, que encara com a mais absoluta classe e dignidade sua desesperadora e humilhante situação até o fim e Denzel Washington, que com seu quase homofóbico Joe Miller, representou grande parcela da população que ignora a realidade dos gays e embora não faça nada pra prejudicá-los também não os querem muito perto, mostraram ser astros de primeira grandeza. 

Não posso me esquecer também do meu lindo amante latino, o eterno amor da minha vida, Antonio Banderas, bonito a não mais poder, ainda meio cru, dando os primeiros passos em Hollywood, interpretando Miguel, o namorado de Andrew (devo confessar que mesmo com aids, eu tinha uma inveja dele!!! Com o Banderas do lado eu morreria feliz). 

O filme ainda teve o mérito de falar de aids numa época em que a doença era sinônimo de morte certa e ninguém tinha muita informação correta sobre ela. Além de um belo filme, foi extremamente esclarecedor, um retrato tocante de tolerância.

Cenas que ficaram congeladas na minha memória: Andrew e Miguel dançando juntinhos num baile, fardados com um uniforme branco - cena linda que me fez desejar ardentemente viver um momento igual, sonho com ele até hoje. Andrew escutando "La mamma morta", e no calor da emoção ele canta e chora copiosamente ao som da ópera de Maria Callas, um desabafo em meio ao turbilhão de sentimentos pelo qual passa. Uma das cenas do tribunal em que Andrew se exalta e cai convulsionado no chão já bastante debilitado, arrepiante. E por fim a derradeira sequência, a do velório, ao som de Philadelphia com Neil Young, impossível segurar as lágrimas, uma das cenas mais tristes e lindas do cinema pra mim. No final o mar, e Andrew criança, dando tchauzinho pra câmera. Fim! 

domingo, 29 de abril de 2012

O HOMEM DE 40 ANOS

Matéria publicada na revista H MAGAZINE de fevereiro/março de 2012 pelo colunista João Luiz Vieira

O homem que eu sempre quis ser ou ter perto de mim apareceu no fim de uma noite de ressaca. Não exatamente por causa de qualquer substância alienante ou reconfortante e, sim, depois de horas atravessadas por desilusões e olhares enviesados. Momentos depois de descobrir que novamente havia apostado no personagem errado. Pisquei para fora quando deveria mergulhar dentro de mim.

Uma das maiores e melhores surpresas na vida de um rapaz distraído é dar-se conta, mesmo ressacado e talvez por isso mesmo, que o que ele tanto procurava na vizinhança estava ali no quadrado de sua cama, enroscado nos lençóis, inserido nele como se em posição de coito. O homem que eu sempre quis ser ou ter perto era eu mesmo. Tinha 40 anos.

Sempre digo que as décadas são como placas tectônicas que, vez ou outra, pedem rearranjos. Como se terremoto provocasse, mudam de posição, remexem nas certezas, destroem falsos patamares e, o melhor, desmascaram novos horizontes. Também digo que para cada década há um verbo conjugado. Quando adolescemos buscamos. Reconhecimento, carreira, aprovação, corpo definido, voz bem colocada, batalhão de corpos à disposição, litros de esperma esparramados por aí.

Quando chegamos aos 30 anos, precisamos. Da certeza que escolhemos a profissão certa , de amigos legítimos, de despejar o esperma no lugar certo, de amar e de traduzir o que é amor, de um patrimônio, financeiro ou emocional, mínimo que seja. Precisamos já de um passado nítido. Queremos enfim pisar firme.

Aos 40 anos, decidimos. É a hora de reciclar, triturar, excluir, mais até do que acrescentar. É o momento de reengenharia quântica. Dar um tempo nas buscas, de rever o que precisamos de fato. Do que preciso, do que não preciso, do que ainda é meu, do que é nada. Não chega a ser um outono, mas se pode dizer que é um outro verão, mais ameno, que ainda queima, mas não tosta a pele. Até porque já sabemos que não vale a pena se queimar tanto por pouco. Queremos, enfim, sedimentar o que pisamos.

Ainda não cheguei aos 50 anos, nem sei se chegarei, ninguém nunca sabe. Você pode até querer, pode apostar, mas não pode garantir que chega. Não é nítido como o passado que o tatua. Isso para dizer que o cinquentenário, tecnicamente mais da metade do que podemos viver aqui no Brasil, deve ser o tempo do verbo plainar. Quando as inquietações, as expectativas, as adesões diminuem. É hora de o homem que eu não conheço, nem planejei ser, encontrar com o que já fui e quis ter. Juntos, esses dois caras formatam o que Gilberto Gil, o músico, chama de silêncio. Para ele, juventude é ruído, maturidade é silêncio.

Ou não.

domingo, 22 de abril de 2012

FABRIQUE A SUA ALEGRIA

Texto escrito por Denise Fraga, publicado na edição de março da revista LOLA MAGAZINE 

 

O que faz nosso olho brilhar? Qual é o ingrediente exato que faz o rosto de alguém se iluminar? Como atriz uma das coisas mais enigmáticas, para mim, é essa luz, esse brilho. Há muitos terrenos inatingíveis para um ator na expressão. Atores choram, por exemplo, mas é muito difícil ver um ator soluçar, aquela contração muscular que nos arrebata quando a emoção vai além da conta. Também nunca vi um ator corar tecnicamente. Com a ajuda da respiração, ficamos até vermelhos de raiva, mas corar, aquela quentura que sentimos subir repentinamente para nossas orelhas, realmente é coisa que não conseguimos fabricar. Tampouco somos capazes de empalidecer de susto, por exemplo. São manifestações físicas ligadas à emoção que realmente fogem ao nosso alcance. Brilho nos olhos é um pouco assim. Fazemos cenas entusiasmadas, com os olhos marejados até, mas este rosto cheio de luz que vemos alguém estampar no meio de um entusiasmo verdadeiro, aquele tônus da pele que parece melhorar à entrada de uma pessoa querida ou quando nos vem uma grande ideia à cabeça, é realmente um dos mais sofisticados e delicados estados humanos.

No outro dia, fomos à festa de aniversário da empresa de uns amigos, onde vimos um vídeo com imagens do casal de 15 anos atrás, quando começaram a trabalhar juntos. As cenas estavam editadas junto com imagens recentes - hoje eles são dois empresários muito bem sucedidos. Fora as naturais marcas do tempo, havia uma diferença crucial no rosto de ambos. No rosto antigo deles, havia brilho, fé, incerteza cintilante. Não exibiam só juventude, mas um grande entusiasmo pelo que estava por vir. Talvez tenham alcançado objetivos até maiores do que os imaginados por aqueles olhos brilhantes, mas agora, com a estrada percorrida, exibiam olhos mais opacos e nitidamente vacilantes de preocupação. Tinham conseguido tudo o que queriam. O que perderam? Saí da festa com aquele contraste na cabeça. O que perdemos ao ganhar?

Sempre digo que tenho a melhor profissão do mundo. Os atores vivem emprestado, percorrem vários universos, viajam no tempo, choram sem sofrer, morrem e se levantam, matam e não vão para a cadeia. É uma profissão sensacional. E, mesmo tendo a melhor profissão do mundo, a que briguei com Deus e o mundo para exercer, de vez em quando sou surpreendida por um desânimo na hora de ir pro teatro, vejam só. Até mesmo eu, que sou atriz. Imagine a atendente de telemarketing com aquela penca de gente desligando o telefone na cara dela. Citei as atendentes de telemarketing porque sempre penso nelas quando fico com preguiça. É uma técnica: penso nelas e logo, logo me encho de entusiasmo. Outra técnica muito boa para espantar a preguiça é me imaginar de mãos dadas comigo mesma com 7 aninhos. Ajoelho e digo no meu ouvido: "Olha só Denisinha, você é atriz, você trabalha no teatro, paga suas contas contando histórias, esculpe nuvens...". Isso me anima, realmente. Mas o que quero dizer é que sendo atriz ou atendente de telemarketing, em maior ou menor grau, todos nós somos assaltados de vez em quando pelo desânimo. Viver não é bolinho, e vamos combinar, complicamos demais a nossa existência. Terminamos os dias com a eterna sensação de coisas por fazer porque ninguém dá conta de tudo que foi inventado nos últimos anos. Não basta ser, precisamos superser. Estamos disponíveis, plugadas, antenadas, fazendo um monte de coisas e, por incrível que pareça, muito poucas são capazes de fazer nossos olhos brilharem. Tenho a sensação de que nossa trajetória nesta vida é dentro de um rio onde, até a metade da nossa existência, podemos somente nos deixar flutuar e sermos levadas. À certa altura, precisamos nadar contra a corrente, porque o prazer de flutuar já não nos basta. Queremos mais, já conhecemos, vamos ficar exigentes e cada vez menos coisas nos trarão brilho nos olhos. Se simplesmente nos deixamos levar, vamos ficando um pouco reclamonas da falta de sal das coisas, os homens vão ficando no sofá, o controle remoto ajuda, o facebook também... Tenho uma amiga que fala que não tem jeito: mulher fica chata e homem fica bobo. Não sou tão radical assim, mas acho mesmo que temos que nadar contra a correnteza, ir contra o peso dos dias, experimentar se livrar de si, se desrespeitar um pouco, se reinventar e se surpreender. 

Nadar contra a correnteza inclui reeducar o olhar. Tentar ver as coisas para as quais já olhamos muito tempo sem ver. A pessoa amada por exemplo. Adoro ir a uma festa com meu marido, uma hora qualquer me distanciar dele e ficar olhando para aquele cara bacana conversando com as outras pessoas rindo e bebendo. Me afasto para vê-lo de novo. Precisamos nadar contra a correnteza da mesmice e do tédio. Diariamente. Não nos deixar arrastar pela rotina do que precisa ser feito, é melhor que se faça, mas não é lá muito prazeroso. A vida é tão múltipla, que mesmo completamente emaranhadas em nossas agendas impossíveis, podemos nos oferecer coisas simples e novas, como chegar à rodoviária num sábado e decidir passar o fim de semana explorando a cidade desconhecida para onde está indo o primeiro ônibus. Loucura? Talvez. Prefiro chamar de exercício de disponibilidade. No mínimo teremos uma boa história pra contar.

Noutro dia, fui ao cinema e um anúncio perguntava: "Qual foi a última vez que você fez uma coisa pela primeira vez?". Decidi me perguntar isso de vez em quando. Tente achar alguma coisa que você adoraria fazer e nunca fez. Voar de asa delta, ir a um baile funk, ver um casamento cigano, um show em praça pública, deitar no asfalto quente, assistir a uma ópera, levar uma torta na cara, jogar ovos na parede, usar uma roupa completamente diferente, cantar num karaokê, andar de bicicleta pela cidade, fazer um piquenique, uma massagem indiana, reunir a turma da faculdade etc. Por que quando viajamos achamos  graça em descobrir uma praça qualquer e não somos capazes de fabricar olhos estrangeiros para cantos desconhecidos de nossa própria cidade? É mais fácil colocar o motivo para o entusiasmo longe do nosso alcance e continuar reclamando. Tenho amigas que apostam todas as fichas do brilho dos olhos no amor, na busca do par ideal. Acho mesmo que um bom companheiro ajuda muito o olho a brilhar, mas, se uma das coisas mais sedutoras em alguém é exatamente o brilho nos olhos, não dá para ficar esperando com os olhos opacos. Já dizia um amigo meu: "A vida é bonita porque é variável". Portanto, precisamos diversificar as possibilidades de felicidade. Não é fácil. Parece que não vai dar certo. Mas há que se reinventar. Fazer esforço para fabricar alegria. Abandonamos a alegria à sua própria sorte, queremos que brote sozinha, sem uma ajudinha sequer. Nossa indústria de cansaço e tédio trabalha a todo vapor e não achamos legítimo fabricar alegria? Às vezes parece ridículo, patético até. Mas experimente. Sugira uma simples brincadeira de mímica naquele tedioso e formal almoço de família. Pode até demorar a pegar, mas, se você insistir, corre o risco de virar o Cabo das Tormentas e ver aquele sofá sonolento começar a vibrar com cintilantes meninos escondidos em tios rabugentos. Maturidade traz sabedoria, mas também traz tédio e preconceito. Tem que tomar cuidado e abrir a janela pra ventilar. Requer esforço e criatividade. Não se fabrica felicidade, mas podemos dar mais chances de existência à alegria.

segunda-feira, 30 de janeiro de 2012

A ENTREVISTA


Que não sou fã de futebol muita gente sabe. Que não gosto do Neymar, apesar de achar ele uma gracinha, pouca gente sabe. Que o cara é um super jogador, ultra talentoso e blá blá blá o país inteiro já sabe. Como profissional, suas qualidades até então, são incontestáveis. Justifico minha implicância no fato dele ser marrento pra caramba, quase beirando a antipatia. Em nada lembra o jeito simples e bonachão de Ronaldo, a simpatia avassaladora de Robinho ou a educação refinada de Kaká. Só para citar alguns grandes jogadores que começaram tão jovens quanto ele.

Então, estava eu zapeando pelos canais de minha tv, que não é a cabo, no final da noite de um domingo, após chegar cansado do trabalho, desejando alguma coisa leve e interessante, missão praticamente impossível considerando o dia, o horário e as míseras opções de canais. Até que me deparo com um programa da Rede Tv chamado É Notícia. Na bancada um jornalista, que não conheço, entrevista Neymar. Parei e me detive na entrevista, que parecia poder ser interessante. Também quis me dar a chance de desfazer a péssima impressão que tenho do garoto, ou reforçá-la.

Durante a meia hora que se seguiu, consegui sentir pena do entrevistador, que guerreiro, tentou tirar leite de pedra até a última pergunta. E vergonha alheia por Neymar, que a cada pergunta se mostrava inseguro, desarticulado, sem argumentos. Um poço de falta de cultura e informação.

O anfitrião, conduziu belissimamente seu programa, fazendo ao convidado, sempre de forma simpática, os mais diversos tipos de pergunta. De política
á racismo, de cinema à homofobia, Neymar perdeu uma ótima oportunidade de mostrar que não é só um pirralho de 19 anos imbecilizado, que a única coisa que sabe fazer direito é jogar futebol, ainda que isso pareça suficiente para muitas pessoas.

A seguir uma pequena amostra do nível intelectual do garoto prodígio:

PERGUNTA: O que você acha do sexo antes do casamento?
RESPOSTA: Eu sou evangélico e acho que tem que ser feito com a pessoa que se ama.

Oi? Como assim? Evangélico não é o Kaká que casou virgem? Será que Neymar amava tanto assim a menina de 17 anos que ele engravidou, a coisa de um ano atrás, e antes da criança nascer já tinha dado um pé na garota?

P: O que você acha do aborto? A mulher que aborta merece ser presa?
R: Sou contra o aborto. Se a mulher merece ser presa ou não eu não sei, mas sou contra.

P: Você já pensou em se envolver na política daqui a alguns anos como Romário?
R: Não.

P: O que você acha da Dilma?
R: Desejo muita sorte pra ela.

P: E do Lula?
R: Um guerreiro, batalhador.

P: Do Barack Obama?
R: Orgulho negro.

P: O que você pensa sobre a legalização da maconha?
R: (Gaguejando) Eu não concordo porque faz mal.

P: Jogador deve fazer propaganda de cerveja?
R: (Inseguro) Tudo bem, desde que ele não beba.

P: Qual sua opinião sobre a homofobia?
R: (Gaguejando e inseguro) É muito triste mal tratar alguém por uma escolha que ela fez. Se é uma escolha e não influencia, não acho certo.

P: Um filme...
R: Tem vários. Eu gosto de comédia.

P: Cita um preferido...
R: !!! Gosto muito de um seriado chamado Two And A Half Men (o entrevistador perguntou filme, mas ele não lembrou nenhum, coitado!)

P: Um diretor de cinema...
R: Steven Spielberg e Jorge Fernando.

Jorge Fernando é um ótimo diretor de televisão, mas filmes dirigiu pouquíssimos e está longe de ser o melhor do cinema nacional. Essa pergunta parece que foi pra tirar um sarro do menino, nem eu acreditei quando ela foi feita, imagina a cara dele. Querer que boleiro entenda de direção de cinema é um pouco demais.

P: Cantor preferido?
R: Thiaguinho, Péricles, Alexandre Pires, Gustavo Lima, Luan Santana... (só a nata da música brasileira quá quá quá!!!)

P: Cantora?
R: Ivete Sangalo e Claudia Leite (soltei um grito quando ele citou a última, Claudia Leite é de lascar!!!)

P: Um livro...
R: 'Transformando Suor Em Ouro' do Bernardinho (quem é Bernardinho? ah lembrei, o técnico de volley)
Deve ter sido o único livro que ele leu na vida, se é que leu mesmo.

Resuma da ópera: palmas para Kennedy Alencar (esse é o nome do bravo apresentador do programa) e vaias para Neymar, que cortou um dobrado pra não parecer mais tapado do que realmente é ao ser questionado sobre assuntos que sinceramente pra sua rica carreira não fazem muita diferença.

Concluo enfim, que Neymar é mesmo só um pirralho de 19 anos, que está ficando milionário com o futebol, porém muito, muito, muito pobre de espírito.

sábado, 28 de janeiro de 2012

BODAS DE CERA


Hoje o "Borboletas na Janela" completa 4 anos de existência. Naquele verão de 2008 muitas coisas passavam pela minha cabeça, mas nenhuma delas era morar em São Paulo, onde moro hoje. Meus pais tinham um casamento sólido, mais de 30 anos de vida em comum, hoje estão separados a mais de 3 anos.

A trilha sonora da minha vida naqueles dias era o segundo álbum solo de Paula Toller, "Só Nós", o cd não saía do meu aparelho de som. "O que é que eu sou?", "Meu amor se mudou pra lua", "Você me ganhou de presente", "Tudo se perdeu", "Barcelona 16" e "Glass" na voz suave e sofisticada de Paula me transportava pra um mundo distante daquele que estava ao meu redor e me deixava mais conectado com o mundo glamouroso e fascinante que sempre esteve dentro de mim.

Borboletas saíam de seu casulo lentamente, sem saber muito bem que direção tomar. Queriam alçar grandes voos, colorir a vida das pessoas, pousar em lugares especiais, ver e viver a beleza da vida. E foi assim, descrevendo angústias, contando devaneios, inventando histórias, misturando ficção e realidade que libertei as borboletas de dentro de mim pra espalhar minha emoção a quem quisesse delirar junto comigo.

Em quatro anos, este blog me transformou num escritor convicto. Você é aquilo que você ama ser e fazer, mesmo que não seja reconhecido, mesmo que não seja remunerado, mesmo que não seja graduado. Entendi isso definitivamente com minhas borboletas na janela, que pousaram pra falar de amor em "Tudo o que você não disse", "Um amor puro", "A bailarina envidraçada e o malabarista prateado" e "Liberdade para as borboletas". De cinema em "Direito de sofrer", "Dica de filme", "3 filmes", "Não é uma história de amor?" , " Da série: Os filmes da minha vida" e "Esquecer". De comportamento em "Elegantes ou interessantes", "Charme e beleza", "Perguntinha detestável" e "A gordura de Luciano". De solidão em "Bolhas de sabão", "Todos nós a esmo", "A solidão, esse castigo" e "Cheesekake de frutas vermelhas". De amizade em " Coca-cola com limão e gelo", " Aos meus amigos", "Mais um ano que se vai" e "Carta para Daniel". De poesia em "Beije-me", "Imaginação", "Domingo no parque" e "Do amor platônico". De música em "3 músicas", "Coletânea particular" e "Do luxo ao lixo musical". De literatura em "Dois livros e um filme", "De Maysa a Oscar Wilde" e "Últimas leituras". De sensações em "Monstro", "Um pequeno segredo", "A festa perfeita" e "Perfumes de mim".

Nesses quatro anos o blog "Borboletas na Janela" me fez rir e chorar, me deu orgulho, porque foi concebido e criado com todo o afeto do mundo. Cada pensamento, cada palavra, cada vírgula, organizada e escrita com maior cuidado, pra que fosse bonita e admirada por todos que queiram apreciá-la, como se faz com um filho muito amado.

Aqui derramo todo meu sentimento, porque sou do tempo da palavra. Aprendi a fazer com que as palavras deslizassem sobre o meu corpo lentamente, como pétalas caindo no outono.

Parabéns "Borboletas na Janela" pelas bodas de cera. Parabéns a mim também, porque quando você nasceu eu renasci.