Como era belo aquele Ramon! Lembro-me de sua pele branca como leite, as faces rosadas, um corte de cabelo "tigela" mas despenteado sempre. Os olhos de brisa, ou "olhos de ressaca" como diria Machado de Assis. Dentes alvos, sem falhas, perfeitos que armavam aquele tipo de sorriso que te derrete lentamente como manteiga fora da geladeira.
Tinha um ar desligado, como se estivesse sempre fora de órbita, precisando ser chamado a realidade, possivelmente efeito da grande quantidade de maconha que fumava. Não se concentrava nos estudos. Era da turma do fundão. Andava com uns garotos escrotos, mas tinha um bom coração, aparentava ser doce, porém era um tanto quanto transgressor. Um doce transgressor.
Dentre todos os garotos, Ramon era o único que não praticava o bully, isso me encantava ainda mais em sua intrigante personalidade. Tão diferente de Vinícius, seu melhor amigo, praticamente um ogro.
Tantas coisas passavam pela minha cabeça quando pensava em Ramon. Não éramos amigos. Ele não falava comigo, mas alguma coisa em seu olhar dizia que eu podia me aproximar, dizer "olá", me desarmar. E por tantas vezes eu quis falar, cumprimentar, elogiar,mas não saí do lugar, ficava de longe só a observar.
Equivalente a seu charme e beleza feminino, havia Rafaela. Linda, ela provocava inveja nas garotas e arrebatadoras paixões nos garotos. Em mim uma admiração suprema. Em meus devaneios, Ramon e Rafaela eram a síntese da perfeição e formavam o casal mais sensacional de todo o colégio. Queria vê-los juntos, apaixonados, vivendo uma grande e poderosa história de amor. Mas ambos eram muito diferentes. Rafa era princesinha, vaidosa, filhinha de papai. Ramon era irresponsável, lunático, livre. E não, eles não se apaixonaram perdidamente como eu gostaria.
E naquele ano que conheci Ramon, 1997, foi lançado no Brasil ROMEU + JULIETA, a versão de Baz Luhrmann para o clássico de Shakespeare. Uma versão moderna que serviu de inspiração para uma peça da escola dirigida por mim, onde ao escolher Ramon e Rafaela para os papéis principais, teria meu tão sonhando romance avassalador entre os dois.
Todos os envolvidos estavam empolgados com seus respectivos papéis, mas ninguém estava mais nervoso e ansioso do que eu, que além de dirigir também atuaria como o personagem Mercúrio, o melhor amigo de Romeu, que morre tentando defendê-lo e após ser fatalmente ferido, Romeu o agarra em seus braços, soltando um violento grito de revolta e dor, e o carrega no colo numa longa sequencia. Minha expectativa para esse ensaio era tremenda. Imaginar-me nos braços de Ramon era um sonho encantado, que não se realizou.
Após muitas preparações, discussões, palpites e ilusões, o ator principal saiu de cena. Ramon deixou o colégio. Houve rumores de que se afastaria por longo tempo para tratamento numa clínica de usuários de drogas.
Assim, meio James Dean, Ramon sumiu por aí, deixando um rastro de mistério, sedução e transgressão. Deixando em mim uma sensação de alucinação e frustração. Afinal não teria sido tudo uma grande ilusão? Criação da cabeça de um jovem escritor cheio de imaginação? Terá existido mesmo um certo Ramon?
domingo, 12 de agosto de 2012
quarta-feira, 4 de julho de 2012
MILHARES DE SAUDADE
Tenho saudade de tudo! De cada momento, de cada sensação, de cada pequeno detalhe que vivi em todas as vidas que já tive. Tenho saudade de pessoas, de aromas, de sabores, de lugares, de cores e texturas. Tenho saudade de instantes e de tempos. Tenho saudade daquela saudade que um dia acaba, pois essa faz tempo que não sinto, as minhas têm sido intermináveis.
Tenho saudade de ser criança, do Show da Xuxa, da minha inocência. Tenho saudade dos primeiros livros, das primeiras leituras, da senhorinha meiga que morava num prédio ao lado do meu em Porto Alegre e me presenteou com minha primeira coleção dos Contos da Velha Europa. Eram 6 livros, e em cada data comemorativa ela me presenteava com um ou dois, sempre tão doce e carinhosa, acho que devo a ela esse amor pela leitura e consequentemente pela escrita. Ela, aquela senhorinha da rua Miguel Tostes que nem lembro o nome, plantou em mim a primeira sementinha da paixão pelo fabuloso e fascinante mundo das letras. Eu, que ainda nem sabia ler, corria até minha mãe ansiosamente com o livro nas mãos, pedindo pra que ela lesse logo. Então, ela largava as panelas no fogão, sentava em uma cadeira no meio da cozinha. Eu sentava no chão recostado a seus pés, encostava a cabeça em seus joelhos e começávamos uma bela viagem, que durava alguns instantes, que pra mim pareciam horas. Depois ficava remoendo dentro de mim aquelas estórias e suspirando pelos cantos, sonhando acordado. As vezes a contação ocorria na cama ou no sofá da sala, mas são os instantes no chão da cozinha minha recordação mais cálida, e é desses que sinto mais saudade!
Tenho saudade de Vale Tudo e do grande mistério: quem matou Odete Roitman? Tenho saudade do Banco Imobiliário, meu jogo preferido de todos os tempos, e das longas tardes que passava jogando só com meu pai, ou com um grupo enorme de pessoas. Tenho saudade da Queila, minha primeira amiguinha de infância, da primeira série. Depois de adultos nos reencontramos, mas ela já era outra pessoa, nem um pouco sentimental, nem um pouco saudosa da nossa amizade tão bonita. O que me fez sentir mais saudade de quando ela tinha 7 anos e nenhuma vontade de tê-la reencontrado adulta, queria ter guardado pra sempre a imagem da menina tão querida e gentil, mas apesar de, ainda sinto saudade do que fomos um dia. Saudade da professora Antônia, que me ensinou a ler. Saudade do dia em que assisti Super-Xuxa Contra o Baixo Astral na escola e cheguei em casa super empolgado querendo contar todos os detalhes do filme pra minha mãe, enquanto ela esfregava roupa no tanque.
Tenho saudade da casa de dois andares da Tomázia, que pra mim parecia uma mansão de novela das 8, passei bons momentos da minha infância ali, brincando de Barbie com a Fernanda Lino, deixando meu pai de cabelo em pé. Tenho saudade da Ísis, minha melhor amiga da terceira e quarta séries. Saudade da biblioteca da Escola Tamandaré, onde passava os melhores momentos dentro do colégio. Saudade da empada da cantina da d. Amália, nunca mais comi uma empada igual. Saudade da professora Josi, estagiária da terceira série, filha da d. Amália, jovem e linda, doce, jamais conseguirei esquecer aqueles olhos verdes brilhantes e seu jeito de princesa que me encantavam. Saudade das aulas de Educação Física da quinta série e do professor Miguel, ah o professor Miguel!
Tenho saudade da copa de 1994 e das ruas de Santos lotadas pra comemorar o tetra. Tenho saudade daquelas férias, quando conheci o Alex e vivi um delírio de amor, chorando pela impossibilidade do mesmo ao som de Maria Bethânia cantando "Você". Saudade da fazenda no interior de Minas Gerais, onde tomei leite tirado direto da vaca, morninho e espumoso, sentado em cima da cerca. Saudade do banho de rio. Saudade do Renato e de tudo o que a gente viveu.
Tenho saudade das sessões de cinema com meu pai, que despertou minha paixão pela sétima arte. Filmes como Lobo, Filadelfia e A Época da Inocência marcaram minha pré-adolescência. Tenho saudade de Aracaju, dos amigos e do amor que lá encontrei, das situações que vivi, quase todas de uma emoção incomparável. Saudade do jeito doido e solitário da Carmem, sempre meio perdida, sem rumo na vida, mas cheia de graça e alegria, sempre pronta a arrancar uma gargalhada de alguém. Que saudade eu sinto dela! Ser-humano incrível! Impossível descrever em palavras o prazer e a energia de se estar perto dela. Saudade da Cristiane e do Francisco. Saudade da Riso, que fazia juz ao nome, sempre divertida. Saudade dos meus eternamente amados Alexandre e suas festas incríveis; Pablo e uma misteriosa sinergia que nos ligava, que só consegui entender mais tarde quando já estávamos afastados; Edvan e seu humor ácido; Daniela e sua arte da dança; Cléber e seu jeito compreensivo; Samuel, um amor impossível e finalmente Diana e Suzana com seus corações imensos agregando sempre mais e mais pessoas ao nosso maravilhoso clã. Saudade de todos os momentos que dividimos, em qualquer lugar, em qualquer circunstância, na rua, na chuva, na fazenda ou numa casinha de sapé. Saudade da minha prima Roberta e da época que éramos irmãos, dos segredos confidenciados e dos amores alcovitados.
Tenho saudade dos meus primeiros rascunhos, quando escrever era apenas uma brincadeira e não uma paixão abrasiva e irreversível. Tenho saudade de Londrina. Do apartamentinho simples, mas aconchegante na rua Raposo Tavares. Saudade das descobertas que fiz lá. Da sexualidade aflorando lentamente com sabor de proibido. Saudade do Parque Igapó, do Moringão, do Super Muffato. Saudade dos melhores anos no colegial na Escola Professor Vicente Rijo. Saudade das situações vividas com Kássima. Da descoberta de uma amizade profunda e pura com Nadege, amizade que me proporcionou os melhores momentos da minha vida. Momentos de deliciosas bobagens sem fim, de carinhos e afagos, de confidencias, lágrimas e abraços. Saudade das peças na escola, da semana cultural, da politizada Larissa com seus papos intelectuais. E o que dizer da exuberante Vívian, com sua sede de viver até a última gota? Tenho saudade do dia em que me levou no Valentino depois do aniversário da Nadege em maio de 2001, e me apresentou pra um monte de gente interessante, e eu super tímido e ao mesmo tempo fascinado com aquele mundo novo que se abria diante de meus olhos. Saudade da tua atitude, da tua coragem, do teu jeito de viver sem se importar com o que os outros pensavam e sem medo de ser feliz. Saudade de você repetindo pra mim o tempo todo sua frase favorita: "se joga e acredita..." Parece que tô ouvindo você falando agora e soltando uma gargalhada alta em seguida. Que saudade dessa sensação, do som da tua gargalhada!
Tenho saudade das ligações pro disque amizade, onde me meti em situações engraçadas e as vezes constrangedoras, mas também conheci o Mike, que estava no Brasil, vindo da Inglaterra pra passar uns dias com a família. E nos encontramos na Biblioteca Pública, depois passeamos pelo parque e tomamos suco de fruta natural, o meu era de pêssego, o dele não lembro. Sinto saudade da Luzia, minha grande amiga Luzia, grande em todos os sentidos. Saudade dos nossos filmes, dos nossos churrascos, das nossas partidas de buraco até altas horas da madrugada. Saudade do seu sarcasmo mordaz e ironia irresistível, seu ar de deboche, seu humor impagável. Saudade da sua comida, seu tempero maravilhoso, em especial aquele inesquecível salmão com alcaparras. Saudade do bolo prestígio que eu fazia e que era obrigatório nos nossos finais de semana, acompanhado de uma boa xícara de café, bem forte, bem quente e quase amargo. Saudade de sentir que você me entendia só com o olhar. Saudade da nossa anarquia. Tenho saudade da Cláudia e suas piadas sujas, de seu jeito pacificador, de sua esperteza e de suas massagens incríveis! Saudade do jeitinho bobo e ingênuo da Martinha.
Tenho saudade dos dois dias que fiquei trancado no quarto lendo O Terceiro Travesseiro ao som de Adriana Calcanhoto, chorando baldes e sonhando com um amor igual ao do livro. Saudade de passar as noites na janela do meu quarto, esperando por algo que me tiraria daquela vida claustrofóbica, eu era feliz e não sabia. Sinto saudade da Vânia, sempre tão charmosa com seus cortes de cabelo curtinhos e modernos, sua fome de liberdade e seus quitutes deliciosos. Tenho saudade das filhas dela também, Amanda e Fernanda Zambrin. De falar um monte de besteiras, das nossas brincadeiras de mímica, das reuniões sociais e dos romances tumultuados.
Sinto saudade de Porto Alegre e das coisas especiais que vivi por lá. Saudade do reveillón de 2003 com Marcelo e Léo. Saudade das histórias loucas e engraçadas da Maristela. Saudade do Rafael e do Eduardo e de nossos programas a três, saudade de ouvir Elis Regina com eles. Tenho saudade da orla de Ipanema, do dia em que fui com meu pai jantar num restaurante com música ao vivo e o cara cantou "Lenha" do Zeca Baleiro e "É isso aí" de Seu Jorge e Ana Carolina, um momento tão simples que me deixou tão feliz. Tenho saudade de ler a Zero Hora de domingo e encontrar na última página do caderno Donna a crônica dominical da Martha Medeiros, a escritora do meu coração! Saudade de assistir a gauchada linda, com suas garrafas térmicas e cuias de chimarrão, passeando pelo Parque da Redenção. Saudade da Mara e do Paulo que me proporcionaram meses de uma adorável convivência, sempre honestos, humildes e generosos. Sempre maravilhosos!
Sinto saudade do Ricardo e do amor imenso que me fez sentir. Um amor mais uma vez não correspondido, mas com ele vivi uma estória digna dos melhores folhetins, com direito a crises de ciúme, brigas, triângulo amoroso, revelações bombásticas, beijos prometidos, encontros inesperados, lágrimas e separações. Saudade de sentir aquele frio na barriga.
Tenho saudade do ano de 2008, quando conheci Murilo e compartilhamos tanta coisa bacana juntos: baladas, conversas, jantares, passeios, planos e sonhos. Saudade da Rita, da cafeteria Media Luna, dos filmes incríveis que assisti naquele ano: Um Beijo Roubado, Do Outro Lado, O Signo da Cidade, Batman - O Cavaleiro das Trevas. Saudade da novela A Favorita, Flora e Donatella. Saudade de Bianca e Lauren, da Bruna e nossos papos descontraídos ao som de um jazz.
Tenho saudade de minha primeira vez em São Paulo, tudo tinha um sabor diferente do que tem agora. Saudade de Capão da Canoa. Das caminhadas pela praia deserta em pleno inverno, do voo das gaivotas sob minha cabeça. Saudade do dia em que vi Daniel Machado pela primeira vez, e soube imediatamente que seríamos grandes amigos. Saudade do instante de fascínio causado por Vagner ao avistá-lo a distância. Muita saudade da Luísa, do Robson, da Jenni e de uma época em que éramos inseparáveis!
Sinto saudade de quase tudo e continuarei sentindo, até o fim!!!
Tenho saudade de ser criança, do Show da Xuxa, da minha inocência. Tenho saudade dos primeiros livros, das primeiras leituras, da senhorinha meiga que morava num prédio ao lado do meu em Porto Alegre e me presenteou com minha primeira coleção dos Contos da Velha Europa. Eram 6 livros, e em cada data comemorativa ela me presenteava com um ou dois, sempre tão doce e carinhosa, acho que devo a ela esse amor pela leitura e consequentemente pela escrita. Ela, aquela senhorinha da rua Miguel Tostes que nem lembro o nome, plantou em mim a primeira sementinha da paixão pelo fabuloso e fascinante mundo das letras. Eu, que ainda nem sabia ler, corria até minha mãe ansiosamente com o livro nas mãos, pedindo pra que ela lesse logo. Então, ela largava as panelas no fogão, sentava em uma cadeira no meio da cozinha. Eu sentava no chão recostado a seus pés, encostava a cabeça em seus joelhos e começávamos uma bela viagem, que durava alguns instantes, que pra mim pareciam horas. Depois ficava remoendo dentro de mim aquelas estórias e suspirando pelos cantos, sonhando acordado. As vezes a contação ocorria na cama ou no sofá da sala, mas são os instantes no chão da cozinha minha recordação mais cálida, e é desses que sinto mais saudade!
Tenho saudade de Vale Tudo e do grande mistério: quem matou Odete Roitman? Tenho saudade do Banco Imobiliário, meu jogo preferido de todos os tempos, e das longas tardes que passava jogando só com meu pai, ou com um grupo enorme de pessoas. Tenho saudade da Queila, minha primeira amiguinha de infância, da primeira série. Depois de adultos nos reencontramos, mas ela já era outra pessoa, nem um pouco sentimental, nem um pouco saudosa da nossa amizade tão bonita. O que me fez sentir mais saudade de quando ela tinha 7 anos e nenhuma vontade de tê-la reencontrado adulta, queria ter guardado pra sempre a imagem da menina tão querida e gentil, mas apesar de, ainda sinto saudade do que fomos um dia. Saudade da professora Antônia, que me ensinou a ler. Saudade do dia em que assisti Super-Xuxa Contra o Baixo Astral na escola e cheguei em casa super empolgado querendo contar todos os detalhes do filme pra minha mãe, enquanto ela esfregava roupa no tanque.
Tenho saudade da casa de dois andares da Tomázia, que pra mim parecia uma mansão de novela das 8, passei bons momentos da minha infância ali, brincando de Barbie com a Fernanda Lino, deixando meu pai de cabelo em pé. Tenho saudade da Ísis, minha melhor amiga da terceira e quarta séries. Saudade da biblioteca da Escola Tamandaré, onde passava os melhores momentos dentro do colégio. Saudade da empada da cantina da d. Amália, nunca mais comi uma empada igual. Saudade da professora Josi, estagiária da terceira série, filha da d. Amália, jovem e linda, doce, jamais conseguirei esquecer aqueles olhos verdes brilhantes e seu jeito de princesa que me encantavam. Saudade das aulas de Educação Física da quinta série e do professor Miguel, ah o professor Miguel!
Tenho saudade da copa de 1994 e das ruas de Santos lotadas pra comemorar o tetra. Tenho saudade daquelas férias, quando conheci o Alex e vivi um delírio de amor, chorando pela impossibilidade do mesmo ao som de Maria Bethânia cantando "Você". Saudade da fazenda no interior de Minas Gerais, onde tomei leite tirado direto da vaca, morninho e espumoso, sentado em cima da cerca. Saudade do banho de rio. Saudade do Renato e de tudo o que a gente viveu.
Tenho saudade das sessões de cinema com meu pai, que despertou minha paixão pela sétima arte. Filmes como Lobo, Filadelfia e A Época da Inocência marcaram minha pré-adolescência. Tenho saudade de Aracaju, dos amigos e do amor que lá encontrei, das situações que vivi, quase todas de uma emoção incomparável. Saudade do jeito doido e solitário da Carmem, sempre meio perdida, sem rumo na vida, mas cheia de graça e alegria, sempre pronta a arrancar uma gargalhada de alguém. Que saudade eu sinto dela! Ser-humano incrível! Impossível descrever em palavras o prazer e a energia de se estar perto dela. Saudade da Cristiane e do Francisco. Saudade da Riso, que fazia juz ao nome, sempre divertida. Saudade dos meus eternamente amados Alexandre e suas festas incríveis; Pablo e uma misteriosa sinergia que nos ligava, que só consegui entender mais tarde quando já estávamos afastados; Edvan e seu humor ácido; Daniela e sua arte da dança; Cléber e seu jeito compreensivo; Samuel, um amor impossível e finalmente Diana e Suzana com seus corações imensos agregando sempre mais e mais pessoas ao nosso maravilhoso clã. Saudade de todos os momentos que dividimos, em qualquer lugar, em qualquer circunstância, na rua, na chuva, na fazenda ou numa casinha de sapé. Saudade da minha prima Roberta e da época que éramos irmãos, dos segredos confidenciados e dos amores alcovitados.
Tenho saudade dos meus primeiros rascunhos, quando escrever era apenas uma brincadeira e não uma paixão abrasiva e irreversível. Tenho saudade de Londrina. Do apartamentinho simples, mas aconchegante na rua Raposo Tavares. Saudade das descobertas que fiz lá. Da sexualidade aflorando lentamente com sabor de proibido. Saudade do Parque Igapó, do Moringão, do Super Muffato. Saudade dos melhores anos no colegial na Escola Professor Vicente Rijo. Saudade das situações vividas com Kássima. Da descoberta de uma amizade profunda e pura com Nadege, amizade que me proporcionou os melhores momentos da minha vida. Momentos de deliciosas bobagens sem fim, de carinhos e afagos, de confidencias, lágrimas e abraços. Saudade das peças na escola, da semana cultural, da politizada Larissa com seus papos intelectuais. E o que dizer da exuberante Vívian, com sua sede de viver até a última gota? Tenho saudade do dia em que me levou no Valentino depois do aniversário da Nadege em maio de 2001, e me apresentou pra um monte de gente interessante, e eu super tímido e ao mesmo tempo fascinado com aquele mundo novo que se abria diante de meus olhos. Saudade da tua atitude, da tua coragem, do teu jeito de viver sem se importar com o que os outros pensavam e sem medo de ser feliz. Saudade de você repetindo pra mim o tempo todo sua frase favorita: "se joga e acredita..." Parece que tô ouvindo você falando agora e soltando uma gargalhada alta em seguida. Que saudade dessa sensação, do som da tua gargalhada!
Tenho saudade das ligações pro disque amizade, onde me meti em situações engraçadas e as vezes constrangedoras, mas também conheci o Mike, que estava no Brasil, vindo da Inglaterra pra passar uns dias com a família. E nos encontramos na Biblioteca Pública, depois passeamos pelo parque e tomamos suco de fruta natural, o meu era de pêssego, o dele não lembro. Sinto saudade da Luzia, minha grande amiga Luzia, grande em todos os sentidos. Saudade dos nossos filmes, dos nossos churrascos, das nossas partidas de buraco até altas horas da madrugada. Saudade do seu sarcasmo mordaz e ironia irresistível, seu ar de deboche, seu humor impagável. Saudade da sua comida, seu tempero maravilhoso, em especial aquele inesquecível salmão com alcaparras. Saudade do bolo prestígio que eu fazia e que era obrigatório nos nossos finais de semana, acompanhado de uma boa xícara de café, bem forte, bem quente e quase amargo. Saudade de sentir que você me entendia só com o olhar. Saudade da nossa anarquia. Tenho saudade da Cláudia e suas piadas sujas, de seu jeito pacificador, de sua esperteza e de suas massagens incríveis! Saudade do jeitinho bobo e ingênuo da Martinha.
Tenho saudade dos dois dias que fiquei trancado no quarto lendo O Terceiro Travesseiro ao som de Adriana Calcanhoto, chorando baldes e sonhando com um amor igual ao do livro. Saudade de passar as noites na janela do meu quarto, esperando por algo que me tiraria daquela vida claustrofóbica, eu era feliz e não sabia. Sinto saudade da Vânia, sempre tão charmosa com seus cortes de cabelo curtinhos e modernos, sua fome de liberdade e seus quitutes deliciosos. Tenho saudade das filhas dela também, Amanda e Fernanda Zambrin. De falar um monte de besteiras, das nossas brincadeiras de mímica, das reuniões sociais e dos romances tumultuados.
Sinto saudade de Porto Alegre e das coisas especiais que vivi por lá. Saudade do reveillón de 2003 com Marcelo e Léo. Saudade das histórias loucas e engraçadas da Maristela. Saudade do Rafael e do Eduardo e de nossos programas a três, saudade de ouvir Elis Regina com eles. Tenho saudade da orla de Ipanema, do dia em que fui com meu pai jantar num restaurante com música ao vivo e o cara cantou "Lenha" do Zeca Baleiro e "É isso aí" de Seu Jorge e Ana Carolina, um momento tão simples que me deixou tão feliz. Tenho saudade de ler a Zero Hora de domingo e encontrar na última página do caderno Donna a crônica dominical da Martha Medeiros, a escritora do meu coração! Saudade de assistir a gauchada linda, com suas garrafas térmicas e cuias de chimarrão, passeando pelo Parque da Redenção. Saudade da Mara e do Paulo que me proporcionaram meses de uma adorável convivência, sempre honestos, humildes e generosos. Sempre maravilhosos!
Sinto saudade do Ricardo e do amor imenso que me fez sentir. Um amor mais uma vez não correspondido, mas com ele vivi uma estória digna dos melhores folhetins, com direito a crises de ciúme, brigas, triângulo amoroso, revelações bombásticas, beijos prometidos, encontros inesperados, lágrimas e separações. Saudade de sentir aquele frio na barriga.
Tenho saudade do ano de 2008, quando conheci Murilo e compartilhamos tanta coisa bacana juntos: baladas, conversas, jantares, passeios, planos e sonhos. Saudade da Rita, da cafeteria Media Luna, dos filmes incríveis que assisti naquele ano: Um Beijo Roubado, Do Outro Lado, O Signo da Cidade, Batman - O Cavaleiro das Trevas. Saudade da novela A Favorita, Flora e Donatella. Saudade de Bianca e Lauren, da Bruna e nossos papos descontraídos ao som de um jazz.
Tenho saudade de minha primeira vez em São Paulo, tudo tinha um sabor diferente do que tem agora. Saudade de Capão da Canoa. Das caminhadas pela praia deserta em pleno inverno, do voo das gaivotas sob minha cabeça. Saudade do dia em que vi Daniel Machado pela primeira vez, e soube imediatamente que seríamos grandes amigos. Saudade do instante de fascínio causado por Vagner ao avistá-lo a distância. Muita saudade da Luísa, do Robson, da Jenni e de uma época em que éramos inseparáveis!
Sinto saudade de quase tudo e continuarei sentindo, até o fim!!!
segunda-feira, 2 de julho de 2012
MÃE
Você veio depois de um ano de afastamento, um ano de saudade, de falta. E você me enlouqueceu! Eu te abracei forte, te apertei, belisquei teu pescoço, amaciei teus seios fartos que eu tanto amo, aspirei teu cheiro de todas as formas que pude, como se fosse o último suspiro. Me aninhei em seu colo, beijei tua pele já marcada pelo tempo e te mordi de leve, sem machucar, mas queria na verdade um pedaço teu, um pedaço físico que ficasse aqui comigo pra sempre. E tudo isso, acredito eu, como uma forma inconsciente de tentar voltar pro teu útero, pro lugar quente e confortável onde ficamos protegidos de tudo e de todos. O lugar onde só uma mãe pode guardar o seu filho, dentro de si.
Ainda assim, você me enlouqueceu! Com seus conselhos repetidos, suas cobranças, seus temores, suas reclamações. Você não parava de falar um segundo. Me deixou exausto, emocionalmente esgotado. Me questionou sobre assuntos que eu já expliquei milhões de vezes e falou sobre coisas que eu já escutei milhões de vezes. E se deprimiu e chorou, se sentiu culpada e me fez sentir culpado. Disse que não conseguia ser feliz longe de mim, depois disse que era uma mulher muito feliz. Tentou me persuadir de continuar morando sozinho. Remexeu nos meus livros, nos meus filmes, nas minhas roupas. Infelizmente ainda não conseguiu entender que a sua felicidade não é a minha e por isso me encheu de palavras com boas intenções que soaram tão desanimadoras.
E quando eu achava que não ia suportar e iria explodir, respirava fundo e fingia que não era comigo. Foram três dias, apenas três dias, e você conseguiu colocar em dia todas as cobranças e conselhos e afins de uma vida inteira. E quando começava a sair fumacinha pelos meus ouvidos você se foi, e antes de partir pensei em que como era bom voltar a normalidade, estar sozinho de novo, em silêncio, mas minutos antes do embarque me agarrei a você e você me pediu desculpas, e senti vontade de chorar. Você não tinha que se desculpar por coisa nenhuma. Então eu me desculpei, por ter feito você pensar que devia se desculpar por alguma coisa. E eu não queria te soltar. Queria que você fosse, mas também queria que você ficasse, e você se foi. Seguiu seu caminho, eu segui o meu.
De volta a normalidade, pude caminhar livre pela cidade. Dei voltas pelo centro, tomei uma cerveja, senti uma tristeza. Voltei pra casa. Ao entrar no apartamento um vazio, uma falta enorme. Esqueci os conselhos, as cobranças, as críticas, as chantagens emocionais. Só consegui lembrar do cheiro, do calor, do colo, das palavras doces, da pele, do toque, do sorriso, do jeito puro que só você tem e da falta imensa que tudo isso me faz.
Ainda assim, você me enlouqueceu! Com seus conselhos repetidos, suas cobranças, seus temores, suas reclamações. Você não parava de falar um segundo. Me deixou exausto, emocionalmente esgotado. Me questionou sobre assuntos que eu já expliquei milhões de vezes e falou sobre coisas que eu já escutei milhões de vezes. E se deprimiu e chorou, se sentiu culpada e me fez sentir culpado. Disse que não conseguia ser feliz longe de mim, depois disse que era uma mulher muito feliz. Tentou me persuadir de continuar morando sozinho. Remexeu nos meus livros, nos meus filmes, nas minhas roupas. Infelizmente ainda não conseguiu entender que a sua felicidade não é a minha e por isso me encheu de palavras com boas intenções que soaram tão desanimadoras.
E quando eu achava que não ia suportar e iria explodir, respirava fundo e fingia que não era comigo. Foram três dias, apenas três dias, e você conseguiu colocar em dia todas as cobranças e conselhos e afins de uma vida inteira. E quando começava a sair fumacinha pelos meus ouvidos você se foi, e antes de partir pensei em que como era bom voltar a normalidade, estar sozinho de novo, em silêncio, mas minutos antes do embarque me agarrei a você e você me pediu desculpas, e senti vontade de chorar. Você não tinha que se desculpar por coisa nenhuma. Então eu me desculpei, por ter feito você pensar que devia se desculpar por alguma coisa. E eu não queria te soltar. Queria que você fosse, mas também queria que você ficasse, e você se foi. Seguiu seu caminho, eu segui o meu.
De volta a normalidade, pude caminhar livre pela cidade. Dei voltas pelo centro, tomei uma cerveja, senti uma tristeza. Voltei pra casa. Ao entrar no apartamento um vazio, uma falta enorme. Esqueci os conselhos, as cobranças, as críticas, as chantagens emocionais. Só consegui lembrar do cheiro, do calor, do colo, das palavras doces, da pele, do toque, do sorriso, do jeito puro que só você tem e da falta imensa que tudo isso me faz.
quinta-feira, 24 de maio de 2012
DA SÉRIE: OS FILMES DA MINHA VIDA - MINHA MÃE É UMA SEREIA (8)
Sou daquele tipo que adora um filme profundo, filosófico, que te faz ficar pensando sobre ele horas, dias, meses e as vezes até anos depois que você assiste. Mas também, tenho verdadeira paixão por filmes leves e despretenciosos, que te pegam de surpresa como uma chuva morna de verão e você adora. Dentre estes tenho uma lista imensa, e hoje vou falar de um que sem sombra de dúvidas faz parte das minhas doces recordações: MINHA MÃE É UMA SEREIA.
O filme é de 1990, e o assisti em uma sessão da tarde a muitos e muitos anos atrás. Já faz tanto tempo que ainda não conhecia a carreira musical de Cher e nem era o fã ardoroso que sou hoje, mas já gostava bastante da Winona Ryder, e da pequena Christina Ricci passei a gostar muitíssimo, depois. De qualquer maneira o filme me conquistou pela história em si.
Uma mãe solteira dos anos 60, exuberante e sexy, não cria raízes em nenhum lugar e sempre que vislumbra um possível problema provocado por sua moderna e ousada forma de viver, entra em seu velho automóvel e parte para uma nova cidade, impedindo assim que as filhas, uma adolescente de 15 anos e uma menina de 10, cultivem amizades e relacionamentos. Com isso, ela está sempre entrando em conflito com a filha mais velha, que não aprova o estilo de vida meio "mochileira" da mãe e um tanto quanto libertário, e justamente para se diferenciar dela cisma que quer ser freira, só que acaba se encantando por um belo capaz que por ironia encanta-se por sua mãe. Já a mais nova é espevitada e vivaz e sonha em ser uma grande nadadora. Juntas, as três formam uma deliciosa família de mulheres com personalidades completamente diferentes, provando que famílias de verdade se amam incondicionalmente.
MINHA MÃE É UMA SEREIA é realmente um encanto, e o elenco é um deleite à parte. Cher está simplesmente deslumbrante, vibrante e mágica. Winona no auge de sua doçura adolescente, divertida e fascinante. E a mascote Christina, adorável e cativante. Um filme pra toda família. Uma pérola preciosa. Uma história pura, que ficou gravada no meu coração.
O filme é de 1990, e o assisti em uma sessão da tarde a muitos e muitos anos atrás. Já faz tanto tempo que ainda não conhecia a carreira musical de Cher e nem era o fã ardoroso que sou hoje, mas já gostava bastante da Winona Ryder, e da pequena Christina Ricci passei a gostar muitíssimo, depois. De qualquer maneira o filme me conquistou pela história em si.
Uma mãe solteira dos anos 60, exuberante e sexy, não cria raízes em nenhum lugar e sempre que vislumbra um possível problema provocado por sua moderna e ousada forma de viver, entra em seu velho automóvel e parte para uma nova cidade, impedindo assim que as filhas, uma adolescente de 15 anos e uma menina de 10, cultivem amizades e relacionamentos. Com isso, ela está sempre entrando em conflito com a filha mais velha, que não aprova o estilo de vida meio "mochileira" da mãe e um tanto quanto libertário, e justamente para se diferenciar dela cisma que quer ser freira, só que acaba se encantando por um belo capaz que por ironia encanta-se por sua mãe. Já a mais nova é espevitada e vivaz e sonha em ser uma grande nadadora. Juntas, as três formam uma deliciosa família de mulheres com personalidades completamente diferentes, provando que famílias de verdade se amam incondicionalmente.
MINHA MÃE É UMA SEREIA é realmente um encanto, e o elenco é um deleite à parte. Cher está simplesmente deslumbrante, vibrante e mágica. Winona no auge de sua doçura adolescente, divertida e fascinante. E a mascote Christina, adorável e cativante. Um filme pra toda família. Uma pérola preciosa. Uma história pura, que ficou gravada no meu coração.
terça-feira, 22 de maio de 2012
DA SÉRIE: OS FILMES DA MINHA VIDA - FILADELFIA (7)
Em 1993 eu era um pré-adolescente prestes a completar 12 anos. Adorava ir ao cinema com meu pai. Até essa idade tinha assistido todos os filmes d'Os Trapalhões, da Xuxa, os clássicos Disney como O Rei Leão, Alladin, A Bela e a Fera. Até que chegou a hora de meu primeiro filme adulto, e eu comecei com nada mais nada menos que um grande sucesso do cinema, o terno, profundo e dramático FILADELFIA de Jonathan Demme. Eu não podia imaginar,mas depois dessa sessão de cinema eu jamais seria o mesmo. FILADELFIA significou tanto pra mim, em muitos sentidos. Foi o primeiro filme com abordagem gay da minha vida. Foi a primeira vez que vi interpretações de verdade. Foi a primeira vez que me emocionei com seres humanos e não com bichos ou desenhos animados (tudo bem, eu também chorei em Lua de Cristal e Super Xuxa contra o Baixo Astral, mas esses não contam). Foi em FILADELFIA que eu entendi o significado de muita coisa, mas o que eu não consigo esquecer é da emoção do meu pai ao assisti-lo. A emoção dele, pra mim teve muito significado. Significava que o meu pai não era tão preconceituoso quanto eu podia imaginar e que um dia, talvez, ele me aceitasse sem muitas dificuldades. Meu pai era um homem sensível, foi o que me pareceu na época, e foi tão bonito perceber isso.
FILADELFIA foi um marco não só pela história emocionante e arrebatadora de amor, preconceito e justiça, mas por inúmeros detalhes que tornaram ela grandiosa e merecedora de todos os prêmios que recebeu na época. A trilha sonora foi um show à parte, com Bruce Spreengsteen encabeçando o elenco, que contou ainda com nomes como os de Neil Young dando o golpe de misericórdia com sua melanólica e massacrante "Philadelphia", e a depressiva, porém maravilhosa ópera "La mamma morta". As atuações de Tom Hanks como o advogado Andrew, vítima de discriminação pela aids, que encara com a mais absoluta classe e dignidade sua desesperadora e humilhante situação até o fim e Denzel Washington, que com seu quase homofóbico Joe Miller, representou grande parcela da população que ignora a realidade dos gays e embora não faça nada pra prejudicá-los também não os querem muito perto, mostraram ser astros de primeira grandeza.
Não posso me esquecer também do meu lindo amante latino, o eterno amor da minha vida, Antonio Banderas, bonito a não mais poder, ainda meio cru, dando os primeiros passos em Hollywood, interpretando Miguel, o namorado de Andrew (devo confessar que mesmo com aids, eu tinha uma inveja dele!!! Com o Banderas do lado eu morreria feliz).
O filme ainda teve o mérito de falar de aids numa época em que a doença era sinônimo de morte certa e ninguém tinha muita informação correta sobre ela. Além de um belo filme, foi extremamente esclarecedor, um retrato tocante de tolerância.
Cenas que ficaram congeladas na minha memória: Andrew e Miguel dançando juntinhos num baile, fardados com um uniforme branco - cena linda que me fez desejar ardentemente viver um momento igual, sonho com ele até hoje. Andrew escutando "La mamma morta", e no calor da emoção ele canta e chora copiosamente ao som da ópera de Maria Callas, um desabafo em meio ao turbilhão de sentimentos pelo qual passa. Uma das cenas do tribunal em que Andrew se exalta e cai convulsionado no chão já bastante debilitado, arrepiante. E por fim a derradeira sequência, a do velório, ao som de Philadelphia com Neil Young, impossível segurar as lágrimas, uma das cenas mais tristes e lindas do cinema pra mim. No final o mar, e Andrew criança, dando tchauzinho pra câmera. Fim!
domingo, 29 de abril de 2012
O HOMEM DE 40 ANOS
Matéria publicada na revista H MAGAZINE de fevereiro/março de 2012 pelo colunista João Luiz Vieira
O homem que eu sempre quis ser ou ter perto de mim apareceu no fim de uma noite de ressaca. Não exatamente por causa de qualquer substância alienante ou reconfortante e, sim, depois de horas atravessadas por desilusões e olhares enviesados. Momentos depois de descobrir que novamente havia apostado no personagem errado. Pisquei para fora quando deveria mergulhar dentro de mim.
Uma das maiores e melhores surpresas na vida de um rapaz distraído é dar-se conta, mesmo ressacado e talvez por isso mesmo, que o que ele tanto procurava na vizinhança estava ali no quadrado de sua cama, enroscado nos lençóis, inserido nele como se em posição de coito. O homem que eu sempre quis ser ou ter perto era eu mesmo. Tinha 40 anos.
Sempre digo que as décadas são como placas tectônicas que, vez ou outra, pedem rearranjos. Como se terremoto provocasse, mudam de posição, remexem nas certezas, destroem falsos patamares e, o melhor, desmascaram novos horizontes. Também digo que para cada década há um verbo conjugado. Quando adolescemos buscamos. Reconhecimento, carreira, aprovação, corpo definido, voz bem colocada, batalhão de corpos à disposição, litros de esperma esparramados por aí.
Quando chegamos aos 30 anos, precisamos. Da certeza que escolhemos a profissão certa , de amigos legítimos, de despejar o esperma no lugar certo, de amar e de traduzir o que é amor, de um patrimônio, financeiro ou emocional, mínimo que seja. Precisamos já de um passado nítido. Queremos enfim pisar firme.
Aos 40 anos, decidimos. É a hora de reciclar, triturar, excluir, mais até do que acrescentar. É o momento de reengenharia quântica. Dar um tempo nas buscas, de rever o que precisamos de fato. Do que preciso, do que não preciso, do que ainda é meu, do que é nada. Não chega a ser um outono, mas se pode dizer que é um outro verão, mais ameno, que ainda queima, mas não tosta a pele. Até porque já sabemos que não vale a pena se queimar tanto por pouco. Queremos, enfim, sedimentar o que pisamos.
Ainda não cheguei aos 50 anos, nem sei se chegarei, ninguém nunca sabe. Você pode até querer, pode apostar, mas não pode garantir que chega. Não é nítido como o passado que o tatua. Isso para dizer que o cinquentenário, tecnicamente mais da metade do que podemos viver aqui no Brasil, deve ser o tempo do verbo plainar. Quando as inquietações, as expectativas, as adesões diminuem. É hora de o homem que eu não conheço, nem planejei ser, encontrar com o que já fui e quis ter. Juntos, esses dois caras formatam o que Gilberto Gil, o músico, chama de silêncio. Para ele, juventude é ruído, maturidade é silêncio.
Ou não.
O homem que eu sempre quis ser ou ter perto de mim apareceu no fim de uma noite de ressaca. Não exatamente por causa de qualquer substância alienante ou reconfortante e, sim, depois de horas atravessadas por desilusões e olhares enviesados. Momentos depois de descobrir que novamente havia apostado no personagem errado. Pisquei para fora quando deveria mergulhar dentro de mim.
Uma das maiores e melhores surpresas na vida de um rapaz distraído é dar-se conta, mesmo ressacado e talvez por isso mesmo, que o que ele tanto procurava na vizinhança estava ali no quadrado de sua cama, enroscado nos lençóis, inserido nele como se em posição de coito. O homem que eu sempre quis ser ou ter perto era eu mesmo. Tinha 40 anos.
Sempre digo que as décadas são como placas tectônicas que, vez ou outra, pedem rearranjos. Como se terremoto provocasse, mudam de posição, remexem nas certezas, destroem falsos patamares e, o melhor, desmascaram novos horizontes. Também digo que para cada década há um verbo conjugado. Quando adolescemos buscamos. Reconhecimento, carreira, aprovação, corpo definido, voz bem colocada, batalhão de corpos à disposição, litros de esperma esparramados por aí.
Quando chegamos aos 30 anos, precisamos. Da certeza que escolhemos a profissão certa , de amigos legítimos, de despejar o esperma no lugar certo, de amar e de traduzir o que é amor, de um patrimônio, financeiro ou emocional, mínimo que seja. Precisamos já de um passado nítido. Queremos enfim pisar firme.
Aos 40 anos, decidimos. É a hora de reciclar, triturar, excluir, mais até do que acrescentar. É o momento de reengenharia quântica. Dar um tempo nas buscas, de rever o que precisamos de fato. Do que preciso, do que não preciso, do que ainda é meu, do que é nada. Não chega a ser um outono, mas se pode dizer que é um outro verão, mais ameno, que ainda queima, mas não tosta a pele. Até porque já sabemos que não vale a pena se queimar tanto por pouco. Queremos, enfim, sedimentar o que pisamos.
Ainda não cheguei aos 50 anos, nem sei se chegarei, ninguém nunca sabe. Você pode até querer, pode apostar, mas não pode garantir que chega. Não é nítido como o passado que o tatua. Isso para dizer que o cinquentenário, tecnicamente mais da metade do que podemos viver aqui no Brasil, deve ser o tempo do verbo plainar. Quando as inquietações, as expectativas, as adesões diminuem. É hora de o homem que eu não conheço, nem planejei ser, encontrar com o que já fui e quis ter. Juntos, esses dois caras formatam o que Gilberto Gil, o músico, chama de silêncio. Para ele, juventude é ruído, maturidade é silêncio.
Ou não.
domingo, 22 de abril de 2012
FABRIQUE A SUA ALEGRIA
Texto escrito por Denise Fraga, publicado na edição de março da revista LOLA MAGAZINE
O que faz nosso olho brilhar? Qual é o ingrediente exato que faz o rosto de alguém se iluminar? Como atriz uma das coisas mais enigmáticas, para mim, é essa luz, esse brilho. Há muitos terrenos inatingíveis para um ator na expressão. Atores choram, por exemplo, mas é muito difícil ver um ator soluçar, aquela contração muscular que nos arrebata quando a emoção vai além da conta. Também nunca vi um ator corar tecnicamente. Com a ajuda da respiração, ficamos até vermelhos de raiva, mas corar, aquela quentura que sentimos subir repentinamente para nossas orelhas, realmente é coisa que não conseguimos fabricar. Tampouco somos capazes de empalidecer de susto, por exemplo. São manifestações físicas ligadas à emoção que realmente fogem ao nosso alcance. Brilho nos olhos é um pouco assim. Fazemos cenas entusiasmadas, com os olhos marejados até, mas este rosto cheio de luz que vemos alguém estampar no meio de um entusiasmo verdadeiro, aquele tônus da pele que parece melhorar à entrada de uma pessoa querida ou quando nos vem uma grande ideia à cabeça, é realmente um dos mais sofisticados e delicados estados humanos.
No outro dia, fomos à festa de aniversário da empresa de uns amigos, onde vimos um vídeo com imagens do casal de 15 anos atrás, quando começaram a trabalhar juntos. As cenas estavam editadas junto com imagens recentes - hoje eles são dois empresários muito bem sucedidos. Fora as naturais marcas do tempo, havia uma diferença crucial no rosto de ambos. No rosto antigo deles, havia brilho, fé, incerteza cintilante. Não exibiam só juventude, mas um grande entusiasmo pelo que estava por vir. Talvez tenham alcançado objetivos até maiores do que os imaginados por aqueles olhos brilhantes, mas agora, com a estrada percorrida, exibiam olhos mais opacos e nitidamente vacilantes de preocupação. Tinham conseguido tudo o que queriam. O que perderam? Saí da festa com aquele contraste na cabeça. O que perdemos ao ganhar?
Sempre digo que tenho a melhor profissão do mundo. Os atores vivem emprestado, percorrem vários universos, viajam no tempo, choram sem sofrer, morrem e se levantam, matam e não vão para a cadeia. É uma profissão sensacional. E, mesmo tendo a melhor profissão do mundo, a que briguei com Deus e o mundo para exercer, de vez em quando sou surpreendida por um desânimo na hora de ir pro teatro, vejam só. Até mesmo eu, que sou atriz. Imagine a atendente de telemarketing com aquela penca de gente desligando o telefone na cara dela. Citei as atendentes de telemarketing porque sempre penso nelas quando fico com preguiça. É uma técnica: penso nelas e logo, logo me encho de entusiasmo. Outra técnica muito boa para espantar a preguiça é me imaginar de mãos dadas comigo mesma com 7 aninhos. Ajoelho e digo no meu ouvido: "Olha só Denisinha, você é atriz, você trabalha no teatro, paga suas contas contando histórias, esculpe nuvens...". Isso me anima, realmente. Mas o que quero dizer é que sendo atriz ou atendente de telemarketing, em maior ou menor grau, todos nós somos assaltados de vez em quando pelo desânimo. Viver não é bolinho, e vamos combinar, complicamos demais a nossa existência. Terminamos os dias com a eterna sensação de coisas por fazer porque ninguém dá conta de tudo que foi inventado nos últimos anos. Não basta ser, precisamos superser. Estamos disponíveis, plugadas, antenadas, fazendo um monte de coisas e, por incrível que pareça, muito poucas são capazes de fazer nossos olhos brilharem. Tenho a sensação de que nossa trajetória nesta vida é dentro de um rio onde, até a metade da nossa existência, podemos somente nos deixar flutuar e sermos levadas. À certa altura, precisamos nadar contra a corrente, porque o prazer de flutuar já não nos basta. Queremos mais, já conhecemos, vamos ficar exigentes e cada vez menos coisas nos trarão brilho nos olhos. Se simplesmente nos deixamos levar, vamos ficando um pouco reclamonas da falta de sal das coisas, os homens vão ficando no sofá, o controle remoto ajuda, o facebook também... Tenho uma amiga que fala que não tem jeito: mulher fica chata e homem fica bobo. Não sou tão radical assim, mas acho mesmo que temos que nadar contra a correnteza, ir contra o peso dos dias, experimentar se livrar de si, se desrespeitar um pouco, se reinventar e se surpreender.
Nadar contra a correnteza inclui reeducar o olhar. Tentar ver as coisas para as quais já olhamos muito tempo sem ver. A pessoa amada por exemplo. Adoro ir a uma festa com meu marido, uma hora qualquer me distanciar dele e ficar olhando para aquele cara bacana conversando com as outras pessoas rindo e bebendo. Me afasto para vê-lo de novo. Precisamos nadar contra a correnteza da mesmice e do tédio. Diariamente. Não nos deixar arrastar pela rotina do que precisa ser feito, é melhor que se faça, mas não é lá muito prazeroso. A vida é tão múltipla, que mesmo completamente emaranhadas em nossas agendas impossíveis, podemos nos oferecer coisas simples e novas, como chegar à rodoviária num sábado e decidir passar o fim de semana explorando a cidade desconhecida para onde está indo o primeiro ônibus. Loucura? Talvez. Prefiro chamar de exercício de disponibilidade. No mínimo teremos uma boa história pra contar.
Noutro dia, fui ao cinema e um anúncio perguntava: "Qual foi a última vez que você fez uma coisa pela primeira vez?". Decidi me perguntar isso de vez em quando. Tente achar alguma coisa que você adoraria fazer e nunca fez. Voar de asa delta, ir a um baile funk, ver um casamento cigano, um show em praça pública, deitar no asfalto quente, assistir a uma ópera, levar uma torta na cara, jogar ovos na parede, usar uma roupa completamente diferente, cantar num karaokê, andar de bicicleta pela cidade, fazer um piquenique, uma massagem indiana, reunir a turma da faculdade etc. Por que quando viajamos achamos graça em descobrir uma praça qualquer e não somos capazes de fabricar olhos estrangeiros para cantos desconhecidos de nossa própria cidade? É mais fácil colocar o motivo para o entusiasmo longe do nosso alcance e continuar reclamando. Tenho amigas que apostam todas as fichas do brilho dos olhos no amor, na busca do par ideal. Acho mesmo que um bom companheiro ajuda muito o olho a brilhar, mas, se uma das coisas mais sedutoras em alguém é exatamente o brilho nos olhos, não dá para ficar esperando com os olhos opacos. Já dizia um amigo meu: "A vida é bonita porque é variável". Portanto, precisamos diversificar as possibilidades de felicidade. Não é fácil. Parece que não vai dar certo. Mas há que se reinventar. Fazer esforço para fabricar alegria. Abandonamos a alegria à sua própria sorte, queremos que brote sozinha, sem uma ajudinha sequer. Nossa indústria de cansaço e tédio trabalha a todo vapor e não achamos legítimo fabricar alegria? Às vezes parece ridículo, patético até. Mas experimente. Sugira uma simples brincadeira de mímica naquele tedioso e formal almoço de família. Pode até demorar a pegar, mas, se você insistir, corre o risco de virar o Cabo das Tormentas e ver aquele sofá sonolento começar a vibrar com cintilantes meninos escondidos em tios rabugentos. Maturidade traz sabedoria, mas também traz tédio e preconceito. Tem que tomar cuidado e abrir a janela pra ventilar. Requer esforço e criatividade. Não se fabrica felicidade, mas podemos dar mais chances de existência à alegria.
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