sábado, 1 de setembro de 2012
O PRÍNCIPE DAS MARÉS?
Era feriado, um feriado qualquer. A noite estava agradável, convidativa. Saiu em direção a praia, queria caminhar a beira-mar. Precisava pensar na vida. Andava aflito, reflexivo, cheio de preocupações. Estava bem vestido, perfumado. Sempre que fazia seus passeios noturnos, tinha o desejo ilusório de encontrar alguém pelo caminho, alguém especial. Para apenas uma noite ou algo permanente, a ilusão sempre presente.
Percorreu o calçadão. Contemplou os jardins. Viu pessoas bebendo, rindo, abraçando e se beijando nos quiosques. Crianças andando de bicicleta. Gente passeando com seus cães. Adolescentes se agarrando. Sentou-se num banco em frente ao reduto onde rapazes se exercitavam. Observava os belos corpos movimentando-se. Uns saíam, outros chegavam, mas um permanecia.
Naquela noite solitária, estava especialmente melancólico. Os rapazes lindos e musculosos, chamavam sua atenção, mas não a prendia. A cabeça estava longe, um tanto quanto atormentada. A lua estava cheia, branca e brilhante, olhava pra ela e com o coração apertado, pedia que lhe trouxesse algo bom. Admirava o reflexo de sua luz no mar e se sentia bem.
Quando tornou a olhar os rapazes, percebeu que todos já tinham partido, exceto um. Aquele que estava lá, desde que sentou-se no banco, e não saiu, não parou em nenhum momento de exercitar-se. Não conseguia acreditar, mas tinha a impressão de que o rapaz o olhava e sorria pra ele. Era muito bonito e tudo parecia surreal, achou que estava delirando. Via-se extremamente comum, quase sem graça, incapaz de atrair alguém tão atraente.
Teve certeza de que era o alvo do belo rapaz quando este se aproximou e puxou assunto. Seu nome era Carlos. Ficou nervoso com a aproximação, sem jeito. O corpo, o charme e o sex appeal de Carlos o perturbava. Achava que pessoas como ele gostavam só de pessoas que fossem seu próprio reflexo.
Inseguro, falou pouco, mediu as palavras, respondia só o que Carlos lhe perguntava. Então veio o convite para que corressem na areia, sem rumo. Diante do rapaz de bermuda e sem camisa, alegou que não estava vestido apropriadamente pra correr com calça jeans e camisa. Mudou a proposta então, para uma simples caminhada. Ele topou na hora, um deus grego como aquele convidando-o pra caminharem juntos à beira-mar, era mais do que ele havia pedido pra lua.
Então caminharam e conversaram, falaram sobre exercícios físicos, que era o assunto preferido de Carlos e falaram sobre o desejo de se beijarem e passarem aquela noite juntos, mas de repente Carlos cansou de caminhar e resolveu correr. Insistiu mais uma vez com ele que corresse junto, a seu lado, que ia lhe fazer bem, mas ele não quis, estava com preguiça de correr. Prometendo que correria alguns metros e voltaria para reencontrá-lo, Carlos se foi.
Sentia-se presenteado pelos céus ao ver aquele homem atlético, forte e cheio de músculos correndo pela praia, deixando a promessa de que logo voltaria pra lhe proporcionar uma noite cheia de prazer e delícias. Mas, ao ver Carlos desaparecer na escuridão, sem nenhum sinal de volta, seu semblante começou a desvanecer. Andou mais depressa pra ver se o enxergava ao longe, mas não viu mais nada, parecia ter desaparecido como fumaça, como se a escuridão o tivesse tragado.
Ficou parado, incrédulo, olhando pra todos os lados. Algum sinal daquele homem fabuloso tinha que aparecer. Inconformado pensou, como pôde ser tão burro em acreditar que um homem daqueles ia querer algo com ele ou tão tolo de não tê-lo seguido, corrido ao seu lado como ele queria? De qualquer modo estava acabado, aquele breve sonho havia chegado ao fim. O resto eram só conjecturas. Seja o que tivesse sido aquilo, Carlos seria pra sempre o seu "príncipe das marés".
domingo, 26 de agosto de 2012
A VIDA COMO ELA É POR "QUEER AS FOLK"
Foi em uma cena específica na metade do primeiro episódio de Queer As Folk, que me vi irremediavelmente apaixonado pela série. Na cena, os amigos de infância Bryan e Michael conversam no terraço do hospital onde Lindsay, a amiga lésbica de ambos, acaba de dar a luz a Gus, filho de Bryan, concebido por inseminação artificial.
Bryan, diante da vista iluminada de toda Pittsburg acende um cigarro e questiona Michael por não tê-lo impedido de ir adiante com a história de ter um filho. Michael rebate, afirmando que tentaram sim impedi-lo, porém os apelos de Lindsay foram mais convincentes, fazendo-o ceder. Ouve-se os primeiros acordes de "Proud", música desconhecida pra mim até então, na voz de Heather Small, cantora que também não conhecia, mas que me deixa arrepiado por inteiro. Na sequencia, Bryan sempre sarcástico dramatiza a situação e sobe na mureta do terraço, ameaçando se jogar se Michael não puxá-lo. Nervoso, Michael pede que ele desça e pare com a brincadeira. Bryan puxa-o pela mão e o convida pra voar, como os super-heróis das histórias em quadrinhos das quais ele é fã, abraça-o por trás com força e diz que é o super-homem que vai levá-lo pra sobrevoar o mundo e Michael pergunta em tom divertido por que ele tem sempre que ser a Lois Lane. Em seguida vira-se de frente para o amigo, beija-o e parabeniza por ser pai.
Após essa cena, que me fisgou de vez, seguiram-se 83 episódios que tomaram conta das minhas madrugadas insones por três inesquecíveis meses. Todos aqueles personagens tão humanos e marcantes fizeram parte da minha vida e continuarão por muito tempo em minhas ternas lembranças. Bryan, Justin, Michael, Ben, Emmett, Ted, Melanie, Lindsay, Debbie e companhia tornaram-se como amigos íntimos. Como não se envolver com personagens tão carismáticos e histórias tão tocantes? Como não chorar, como não sofrer, não sorrir, não se revoltar, não torcer, não vibrar, não parar pra pensar, não sentir, como não se identificar?
Eu me identifiquei, senti, vivi todas a sensações que essa série pode proporcionar. Me vi um pouco em cada personagem, alguns num grau maior que em outros, mas nunca distante por completo de algum deles. De algum drama ou emoção nunca fiquei completamente imune, por mais banal que pudesse parecer.
As vezes me via tão doce e equilibrado quanto Michael, carregando sua eterna paixão platônica por Bryan, o amigo garanhão. Me derretia por seu olhar de ternura. Mas também me identificava com alguns traços da personalidade de Ted e Emmett. A insegurança do primeiro, sempre em busca de um relacionamento, porém tolhido por sua baixa auto-estima. E a atitude do segundo, sempre vivaz, criativo, impondo sua personalidade meiga e delicada com firmeza e veemência, nem aí pra opinião alheia.
Apesar de bem distante da personalidade de Bryan, me emocionava perceber a lealdade com que tratava os amigos, sempre procurando ajudar de alguma forma, mesmo tentando transparecer nenhuma preocupação com ninguém. No fim era sempre ele o solucionador dos maiores problemas, tornando-o o grande herói da história e redimindo-o de muitas falhas. Promíscuo, hedonista, insensível, cafajeste.
Justin, um pequeno notável, lindo, talentoso, apaixonado e cheio de coragem. Muitas vezes desnecessariamente agressivo, principalmente com a mãe, a compreensiva Jennifer. Os momentos de que mais gostava é quando ele demonstrava não viver só pra Bryan e distribuía atenção e gestos de carinho aos amigos, o que o tornava diferente do homem que amava e por isso um oposto interessante para o senhor Kinney, o complemento perfeito.
E que dizer das mulheres? Quem não queria ter uma Debbie Novotny por perto, como mãe, amiga, vizinha, tia ou simplesmente a atendente da lanchonete? Com seu jeito estriônico e extravagante, por muitas vezes enlouquecedor, mas sempre amável, alegre, otimista, transparente e acolhedora, lutando pelos direitos daqueles a quem ama e até pelos que não conhece? Eu queria.
Quem não queria ter uma mãe doce, afetuosa e compreensiva? Que mesmo assustada e sem entender direito a sexualidade e atitudes do filho adolescente, que começa a se descobrir homossexual, se tornando arredio e agressivo, tenta manter a serenidade e apoiar o filho em seu novo e tortuoso caminho. Quem não queria uma mãe como Jennifer? Eu queria.
Amigas como Lindsay e Mellanie, um casal sólido e seguro, mães de família, responsáveis, apaixonadas, politizadas, refinadas e generosas. Quem não queria amigas assim? Eu queria.
E como não citar a querida Daphne, uma fofa. Amadureceu com o amigo Justin. De garota feinha que perdeu a virgindade com o amigo gay e até se apaixonou por ele, tornou-se uma linda mulher, sempre presente e apoiando-o nos momentos mais importantes. Eu queria uma Daphne pra mim também.
Das cenas e situações mais marcantes é impossível citar todas, mas a dança de Bryan e Justin em sua festa de formatura foi demais, uma cena que sonhei protagonizar em toda minha vida e nunca houve, pelo menos até agora. As interpretações, a trilha sonora, a echarpe de seda branca, meu coração palpitando de emoção, foi tudo perfeito!
A festa de aniversário surpresa que Bryan dá a Michael, convidando uma colega de trabalho dele que acreditava que ele fosse hétero, apenas para desmascará-lo na frente dela, com o intuito de magoá-lo e fazê-lo se afastar de si, após pedido de Debbie para que o deixasse ser feliz com David, o então namorado. Uma atitude bem ao estilo Bryan de ser.
Dois momentos marcantes com Emmett e George, o namorado idoso do primeiro: um, quando Em leva seu "coroa" milionário a Babyllon e o apresenta aos demais amigos. Momento em que George mostra toda a sabedoria de um homem vivido e surpreende os rapazes, que já começavam a fazer comentários debochados, cativando-os. Dois, o ataque do coração de George, causando sua morte, após sexo com Emmett no banheiro de um avião.
Ben revelando a Michael que tem aids minutos antes da primeira transa, que não acontece.
Michael descobrindo ser alvo da paixão platônica de Ted, após remexer em suas coisas e encontrar fotos suas.
Bryan contando ao pai que é gay, e depois disso o velho vai visitá-lo e por acaso conhece o neto.
David e Michael refazendo a cena de "A dama e o vagabundo", em jantar na casa de Debbie, onde os dois vão sugando um fio de espaguete até unirem seus lábios em um beijo.
Todos os amigos unindo-se para juntar dinheiro com a intenção de ajudar Bryan, que vendeu quase tudo que tinha de valor pra pagar uma campanha publicitária que derrubasse o candidato a prefeito homofóbico que ele mesmo ajudou a se candidatar com grande margem de votos. Cena linda e emocionante, onde todos os amigos contribuíram para retribuir ao cara que sempre se sacrifica pelos outros sem deixá-los saber.
Justin escolhendo ficar com Ethan e abandonando Bryan.
Debbie esbofeteando Bryan no velório de Vic.
Bryan contando a Debbie que tem câncer.
Bryan superando as limitações físicas de sua doença e chegando do Canadá a Pittsburg sozinho de bicicleta, apenas com o apoio moral de Michael, sendo recebido por Ben, Debbie e Justin.
A casa de caridade homenageando Vic Grassi, rebatizando-a com seu nome, mais uma obra de Bryan.
Quando Bryan diz "eu te amo" para Justin.
Quando Bryan pede Justin em casamento e mostra a casa que ele comprou pros dois viverem no campo.
Ted confidenciando a Emmett em seu aniversário de 39 anos, que não desejará mais um namorado ou companheiro ao apagar as velas do bolo, porque enquanto ele procurar a pessoa nunca aparecerá e se a pessoa especial nunca aparecer ele ficará bem.
E finalmente a derradeira cena de Bryan dançando no "queijo' da babyllon, sozinho, sem justin, mais uma vez ao som da vibrante e perfeita "Proud".
Chorei e ainda choro, por todas as lições que aprendi com Queer As Folk. Choro porque reflito cada dia que acordo pra uma nova vida, em cada pensamento, cada palavra, cada emoção que essa série provoca na gente. Choro porque ainda estou digerindo esse mar de sentimentos. Choro porque fui arrebatado. Choro porque amei. Porque me entreguei. Choro porque amadureci, assim como Bryan, e amadurecer dói. Choro porque Queer As Folk é vida. A vida como ela é...
domingo, 12 de agosto de 2012
UM CERTO RAMON
Como era belo aquele Ramon! Lembro-me de sua pele branca como leite, as faces rosadas, um corte de cabelo "tigela" mas despenteado sempre. Os olhos de brisa, ou "olhos de ressaca" como diria Machado de Assis. Dentes alvos, sem falhas, perfeitos que armavam aquele tipo de sorriso que te derrete lentamente como manteiga fora da geladeira.
Tinha um ar desligado, como se estivesse sempre fora de órbita, precisando ser chamado a realidade, possivelmente efeito da grande quantidade de maconha que fumava. Não se concentrava nos estudos. Era da turma do fundão. Andava com uns garotos escrotos, mas tinha um bom coração, aparentava ser doce, porém era um tanto quanto transgressor. Um doce transgressor.
Dentre todos os garotos, Ramon era o único que não praticava o bully, isso me encantava ainda mais em sua intrigante personalidade. Tão diferente de Vinícius, seu melhor amigo, praticamente um ogro.
Tantas coisas passavam pela minha cabeça quando pensava em Ramon. Não éramos amigos. Ele não falava comigo, mas alguma coisa em seu olhar dizia que eu podia me aproximar, dizer "olá", me desarmar. E por tantas vezes eu quis falar, cumprimentar, elogiar,mas não saí do lugar, ficava de longe só a observar.
Equivalente a seu charme e beleza feminino, havia Rafaela. Linda, ela provocava inveja nas garotas e arrebatadoras paixões nos garotos. Em mim uma admiração suprema. Em meus devaneios, Ramon e Rafaela eram a síntese da perfeição e formavam o casal mais sensacional de todo o colégio. Queria vê-los juntos, apaixonados, vivendo uma grande e poderosa história de amor. Mas ambos eram muito diferentes. Rafa era princesinha, vaidosa, filhinha de papai. Ramon era irresponsável, lunático, livre. E não, eles não se apaixonaram perdidamente como eu gostaria.
E naquele ano que conheci Ramon, 1997, foi lançado no Brasil ROMEU + JULIETA, a versão de Baz Luhrmann para o clássico de Shakespeare. Uma versão moderna que serviu de inspiração para uma peça da escola dirigida por mim, onde ao escolher Ramon e Rafaela para os papéis principais, teria meu tão sonhando romance avassalador entre os dois.
Todos os envolvidos estavam empolgados com seus respectivos papéis, mas ninguém estava mais nervoso e ansioso do que eu, que além de dirigir também atuaria como o personagem Mercúrio, o melhor amigo de Romeu, que morre tentando defendê-lo e após ser fatalmente ferido, Romeu o agarra em seus braços, soltando um violento grito de revolta e dor, e o carrega no colo numa longa sequencia. Minha expectativa para esse ensaio era tremenda. Imaginar-me nos braços de Ramon era um sonho encantado, que não se realizou.
Após muitas preparações, discussões, palpites e ilusões, o ator principal saiu de cena. Ramon deixou o colégio. Houve rumores de que se afastaria por longo tempo para tratamento numa clínica de usuários de drogas.
Assim, meio James Dean, Ramon sumiu por aí, deixando um rastro de mistério, sedução e transgressão. Deixando em mim uma sensação de alucinação e frustração. Afinal não teria sido tudo uma grande ilusão? Criação da cabeça de um jovem escritor cheio de imaginação? Terá existido mesmo um certo Ramon?
Tinha um ar desligado, como se estivesse sempre fora de órbita, precisando ser chamado a realidade, possivelmente efeito da grande quantidade de maconha que fumava. Não se concentrava nos estudos. Era da turma do fundão. Andava com uns garotos escrotos, mas tinha um bom coração, aparentava ser doce, porém era um tanto quanto transgressor. Um doce transgressor.
Dentre todos os garotos, Ramon era o único que não praticava o bully, isso me encantava ainda mais em sua intrigante personalidade. Tão diferente de Vinícius, seu melhor amigo, praticamente um ogro.
Tantas coisas passavam pela minha cabeça quando pensava em Ramon. Não éramos amigos. Ele não falava comigo, mas alguma coisa em seu olhar dizia que eu podia me aproximar, dizer "olá", me desarmar. E por tantas vezes eu quis falar, cumprimentar, elogiar,mas não saí do lugar, ficava de longe só a observar.
Equivalente a seu charme e beleza feminino, havia Rafaela. Linda, ela provocava inveja nas garotas e arrebatadoras paixões nos garotos. Em mim uma admiração suprema. Em meus devaneios, Ramon e Rafaela eram a síntese da perfeição e formavam o casal mais sensacional de todo o colégio. Queria vê-los juntos, apaixonados, vivendo uma grande e poderosa história de amor. Mas ambos eram muito diferentes. Rafa era princesinha, vaidosa, filhinha de papai. Ramon era irresponsável, lunático, livre. E não, eles não se apaixonaram perdidamente como eu gostaria.
E naquele ano que conheci Ramon, 1997, foi lançado no Brasil ROMEU + JULIETA, a versão de Baz Luhrmann para o clássico de Shakespeare. Uma versão moderna que serviu de inspiração para uma peça da escola dirigida por mim, onde ao escolher Ramon e Rafaela para os papéis principais, teria meu tão sonhando romance avassalador entre os dois.
Todos os envolvidos estavam empolgados com seus respectivos papéis, mas ninguém estava mais nervoso e ansioso do que eu, que além de dirigir também atuaria como o personagem Mercúrio, o melhor amigo de Romeu, que morre tentando defendê-lo e após ser fatalmente ferido, Romeu o agarra em seus braços, soltando um violento grito de revolta e dor, e o carrega no colo numa longa sequencia. Minha expectativa para esse ensaio era tremenda. Imaginar-me nos braços de Ramon era um sonho encantado, que não se realizou.
Após muitas preparações, discussões, palpites e ilusões, o ator principal saiu de cena. Ramon deixou o colégio. Houve rumores de que se afastaria por longo tempo para tratamento numa clínica de usuários de drogas.
Assim, meio James Dean, Ramon sumiu por aí, deixando um rastro de mistério, sedução e transgressão. Deixando em mim uma sensação de alucinação e frustração. Afinal não teria sido tudo uma grande ilusão? Criação da cabeça de um jovem escritor cheio de imaginação? Terá existido mesmo um certo Ramon?
quarta-feira, 4 de julho de 2012
MILHARES DE SAUDADE
Tenho saudade de tudo! De cada momento, de cada sensação, de cada pequeno detalhe que vivi em todas as vidas que já tive. Tenho saudade de pessoas, de aromas, de sabores, de lugares, de cores e texturas. Tenho saudade de instantes e de tempos. Tenho saudade daquela saudade que um dia acaba, pois essa faz tempo que não sinto, as minhas têm sido intermináveis.
Tenho saudade de ser criança, do Show da Xuxa, da minha inocência. Tenho saudade dos primeiros livros, das primeiras leituras, da senhorinha meiga que morava num prédio ao lado do meu em Porto Alegre e me presenteou com minha primeira coleção dos Contos da Velha Europa. Eram 6 livros, e em cada data comemorativa ela me presenteava com um ou dois, sempre tão doce e carinhosa, acho que devo a ela esse amor pela leitura e consequentemente pela escrita. Ela, aquela senhorinha da rua Miguel Tostes que nem lembro o nome, plantou em mim a primeira sementinha da paixão pelo fabuloso e fascinante mundo das letras. Eu, que ainda nem sabia ler, corria até minha mãe ansiosamente com o livro nas mãos, pedindo pra que ela lesse logo. Então, ela largava as panelas no fogão, sentava em uma cadeira no meio da cozinha. Eu sentava no chão recostado a seus pés, encostava a cabeça em seus joelhos e começávamos uma bela viagem, que durava alguns instantes, que pra mim pareciam horas. Depois ficava remoendo dentro de mim aquelas estórias e suspirando pelos cantos, sonhando acordado. As vezes a contação ocorria na cama ou no sofá da sala, mas são os instantes no chão da cozinha minha recordação mais cálida, e é desses que sinto mais saudade!
Tenho saudade de Vale Tudo e do grande mistério: quem matou Odete Roitman? Tenho saudade do Banco Imobiliário, meu jogo preferido de todos os tempos, e das longas tardes que passava jogando só com meu pai, ou com um grupo enorme de pessoas. Tenho saudade da Queila, minha primeira amiguinha de infância, da primeira série. Depois de adultos nos reencontramos, mas ela já era outra pessoa, nem um pouco sentimental, nem um pouco saudosa da nossa amizade tão bonita. O que me fez sentir mais saudade de quando ela tinha 7 anos e nenhuma vontade de tê-la reencontrado adulta, queria ter guardado pra sempre a imagem da menina tão querida e gentil, mas apesar de, ainda sinto saudade do que fomos um dia. Saudade da professora Antônia, que me ensinou a ler. Saudade do dia em que assisti Super-Xuxa Contra o Baixo Astral na escola e cheguei em casa super empolgado querendo contar todos os detalhes do filme pra minha mãe, enquanto ela esfregava roupa no tanque.
Tenho saudade da casa de dois andares da Tomázia, que pra mim parecia uma mansão de novela das 8, passei bons momentos da minha infância ali, brincando de Barbie com a Fernanda Lino, deixando meu pai de cabelo em pé. Tenho saudade da Ísis, minha melhor amiga da terceira e quarta séries. Saudade da biblioteca da Escola Tamandaré, onde passava os melhores momentos dentro do colégio. Saudade da empada da cantina da d. Amália, nunca mais comi uma empada igual. Saudade da professora Josi, estagiária da terceira série, filha da d. Amália, jovem e linda, doce, jamais conseguirei esquecer aqueles olhos verdes brilhantes e seu jeito de princesa que me encantavam. Saudade das aulas de Educação Física da quinta série e do professor Miguel, ah o professor Miguel!
Tenho saudade da copa de 1994 e das ruas de Santos lotadas pra comemorar o tetra. Tenho saudade daquelas férias, quando conheci o Alex e vivi um delírio de amor, chorando pela impossibilidade do mesmo ao som de Maria Bethânia cantando "Você". Saudade da fazenda no interior de Minas Gerais, onde tomei leite tirado direto da vaca, morninho e espumoso, sentado em cima da cerca. Saudade do banho de rio. Saudade do Renato e de tudo o que a gente viveu.
Tenho saudade das sessões de cinema com meu pai, que despertou minha paixão pela sétima arte. Filmes como Lobo, Filadelfia e A Época da Inocência marcaram minha pré-adolescência. Tenho saudade de Aracaju, dos amigos e do amor que lá encontrei, das situações que vivi, quase todas de uma emoção incomparável. Saudade do jeito doido e solitário da Carmem, sempre meio perdida, sem rumo na vida, mas cheia de graça e alegria, sempre pronta a arrancar uma gargalhada de alguém. Que saudade eu sinto dela! Ser-humano incrível! Impossível descrever em palavras o prazer e a energia de se estar perto dela. Saudade da Cristiane e do Francisco. Saudade da Riso, que fazia juz ao nome, sempre divertida. Saudade dos meus eternamente amados Alexandre e suas festas incríveis; Pablo e uma misteriosa sinergia que nos ligava, que só consegui entender mais tarde quando já estávamos afastados; Edvan e seu humor ácido; Daniela e sua arte da dança; Cléber e seu jeito compreensivo; Samuel, um amor impossível e finalmente Diana e Suzana com seus corações imensos agregando sempre mais e mais pessoas ao nosso maravilhoso clã. Saudade de todos os momentos que dividimos, em qualquer lugar, em qualquer circunstância, na rua, na chuva, na fazenda ou numa casinha de sapé. Saudade da minha prima Roberta e da época que éramos irmãos, dos segredos confidenciados e dos amores alcovitados.
Tenho saudade dos meus primeiros rascunhos, quando escrever era apenas uma brincadeira e não uma paixão abrasiva e irreversível. Tenho saudade de Londrina. Do apartamentinho simples, mas aconchegante na rua Raposo Tavares. Saudade das descobertas que fiz lá. Da sexualidade aflorando lentamente com sabor de proibido. Saudade do Parque Igapó, do Moringão, do Super Muffato. Saudade dos melhores anos no colegial na Escola Professor Vicente Rijo. Saudade das situações vividas com Kássima. Da descoberta de uma amizade profunda e pura com Nadege, amizade que me proporcionou os melhores momentos da minha vida. Momentos de deliciosas bobagens sem fim, de carinhos e afagos, de confidencias, lágrimas e abraços. Saudade das peças na escola, da semana cultural, da politizada Larissa com seus papos intelectuais. E o que dizer da exuberante Vívian, com sua sede de viver até a última gota? Tenho saudade do dia em que me levou no Valentino depois do aniversário da Nadege em maio de 2001, e me apresentou pra um monte de gente interessante, e eu super tímido e ao mesmo tempo fascinado com aquele mundo novo que se abria diante de meus olhos. Saudade da tua atitude, da tua coragem, do teu jeito de viver sem se importar com o que os outros pensavam e sem medo de ser feliz. Saudade de você repetindo pra mim o tempo todo sua frase favorita: "se joga e acredita..." Parece que tô ouvindo você falando agora e soltando uma gargalhada alta em seguida. Que saudade dessa sensação, do som da tua gargalhada!
Tenho saudade das ligações pro disque amizade, onde me meti em situações engraçadas e as vezes constrangedoras, mas também conheci o Mike, que estava no Brasil, vindo da Inglaterra pra passar uns dias com a família. E nos encontramos na Biblioteca Pública, depois passeamos pelo parque e tomamos suco de fruta natural, o meu era de pêssego, o dele não lembro. Sinto saudade da Luzia, minha grande amiga Luzia, grande em todos os sentidos. Saudade dos nossos filmes, dos nossos churrascos, das nossas partidas de buraco até altas horas da madrugada. Saudade do seu sarcasmo mordaz e ironia irresistível, seu ar de deboche, seu humor impagável. Saudade da sua comida, seu tempero maravilhoso, em especial aquele inesquecível salmão com alcaparras. Saudade do bolo prestígio que eu fazia e que era obrigatório nos nossos finais de semana, acompanhado de uma boa xícara de café, bem forte, bem quente e quase amargo. Saudade de sentir que você me entendia só com o olhar. Saudade da nossa anarquia. Tenho saudade da Cláudia e suas piadas sujas, de seu jeito pacificador, de sua esperteza e de suas massagens incríveis! Saudade do jeitinho bobo e ingênuo da Martinha.
Tenho saudade dos dois dias que fiquei trancado no quarto lendo O Terceiro Travesseiro ao som de Adriana Calcanhoto, chorando baldes e sonhando com um amor igual ao do livro. Saudade de passar as noites na janela do meu quarto, esperando por algo que me tiraria daquela vida claustrofóbica, eu era feliz e não sabia. Sinto saudade da Vânia, sempre tão charmosa com seus cortes de cabelo curtinhos e modernos, sua fome de liberdade e seus quitutes deliciosos. Tenho saudade das filhas dela também, Amanda e Fernanda Zambrin. De falar um monte de besteiras, das nossas brincadeiras de mímica, das reuniões sociais e dos romances tumultuados.
Sinto saudade de Porto Alegre e das coisas especiais que vivi por lá. Saudade do reveillón de 2003 com Marcelo e Léo. Saudade das histórias loucas e engraçadas da Maristela. Saudade do Rafael e do Eduardo e de nossos programas a três, saudade de ouvir Elis Regina com eles. Tenho saudade da orla de Ipanema, do dia em que fui com meu pai jantar num restaurante com música ao vivo e o cara cantou "Lenha" do Zeca Baleiro e "É isso aí" de Seu Jorge e Ana Carolina, um momento tão simples que me deixou tão feliz. Tenho saudade de ler a Zero Hora de domingo e encontrar na última página do caderno Donna a crônica dominical da Martha Medeiros, a escritora do meu coração! Saudade de assistir a gauchada linda, com suas garrafas térmicas e cuias de chimarrão, passeando pelo Parque da Redenção. Saudade da Mara e do Paulo que me proporcionaram meses de uma adorável convivência, sempre honestos, humildes e generosos. Sempre maravilhosos!
Sinto saudade do Ricardo e do amor imenso que me fez sentir. Um amor mais uma vez não correspondido, mas com ele vivi uma estória digna dos melhores folhetins, com direito a crises de ciúme, brigas, triângulo amoroso, revelações bombásticas, beijos prometidos, encontros inesperados, lágrimas e separações. Saudade de sentir aquele frio na barriga.
Tenho saudade do ano de 2008, quando conheci Murilo e compartilhamos tanta coisa bacana juntos: baladas, conversas, jantares, passeios, planos e sonhos. Saudade da Rita, da cafeteria Media Luna, dos filmes incríveis que assisti naquele ano: Um Beijo Roubado, Do Outro Lado, O Signo da Cidade, Batman - O Cavaleiro das Trevas. Saudade da novela A Favorita, Flora e Donatella. Saudade de Bianca e Lauren, da Bruna e nossos papos descontraídos ao som de um jazz.
Tenho saudade de minha primeira vez em São Paulo, tudo tinha um sabor diferente do que tem agora. Saudade de Capão da Canoa. Das caminhadas pela praia deserta em pleno inverno, do voo das gaivotas sob minha cabeça. Saudade do dia em que vi Daniel Machado pela primeira vez, e soube imediatamente que seríamos grandes amigos. Saudade do instante de fascínio causado por Vagner ao avistá-lo a distância. Muita saudade da Luísa, do Robson, da Jenni e de uma época em que éramos inseparáveis!
Sinto saudade de quase tudo e continuarei sentindo, até o fim!!!
Tenho saudade de ser criança, do Show da Xuxa, da minha inocência. Tenho saudade dos primeiros livros, das primeiras leituras, da senhorinha meiga que morava num prédio ao lado do meu em Porto Alegre e me presenteou com minha primeira coleção dos Contos da Velha Europa. Eram 6 livros, e em cada data comemorativa ela me presenteava com um ou dois, sempre tão doce e carinhosa, acho que devo a ela esse amor pela leitura e consequentemente pela escrita. Ela, aquela senhorinha da rua Miguel Tostes que nem lembro o nome, plantou em mim a primeira sementinha da paixão pelo fabuloso e fascinante mundo das letras. Eu, que ainda nem sabia ler, corria até minha mãe ansiosamente com o livro nas mãos, pedindo pra que ela lesse logo. Então, ela largava as panelas no fogão, sentava em uma cadeira no meio da cozinha. Eu sentava no chão recostado a seus pés, encostava a cabeça em seus joelhos e começávamos uma bela viagem, que durava alguns instantes, que pra mim pareciam horas. Depois ficava remoendo dentro de mim aquelas estórias e suspirando pelos cantos, sonhando acordado. As vezes a contação ocorria na cama ou no sofá da sala, mas são os instantes no chão da cozinha minha recordação mais cálida, e é desses que sinto mais saudade!
Tenho saudade de Vale Tudo e do grande mistério: quem matou Odete Roitman? Tenho saudade do Banco Imobiliário, meu jogo preferido de todos os tempos, e das longas tardes que passava jogando só com meu pai, ou com um grupo enorme de pessoas. Tenho saudade da Queila, minha primeira amiguinha de infância, da primeira série. Depois de adultos nos reencontramos, mas ela já era outra pessoa, nem um pouco sentimental, nem um pouco saudosa da nossa amizade tão bonita. O que me fez sentir mais saudade de quando ela tinha 7 anos e nenhuma vontade de tê-la reencontrado adulta, queria ter guardado pra sempre a imagem da menina tão querida e gentil, mas apesar de, ainda sinto saudade do que fomos um dia. Saudade da professora Antônia, que me ensinou a ler. Saudade do dia em que assisti Super-Xuxa Contra o Baixo Astral na escola e cheguei em casa super empolgado querendo contar todos os detalhes do filme pra minha mãe, enquanto ela esfregava roupa no tanque.
Tenho saudade da casa de dois andares da Tomázia, que pra mim parecia uma mansão de novela das 8, passei bons momentos da minha infância ali, brincando de Barbie com a Fernanda Lino, deixando meu pai de cabelo em pé. Tenho saudade da Ísis, minha melhor amiga da terceira e quarta séries. Saudade da biblioteca da Escola Tamandaré, onde passava os melhores momentos dentro do colégio. Saudade da empada da cantina da d. Amália, nunca mais comi uma empada igual. Saudade da professora Josi, estagiária da terceira série, filha da d. Amália, jovem e linda, doce, jamais conseguirei esquecer aqueles olhos verdes brilhantes e seu jeito de princesa que me encantavam. Saudade das aulas de Educação Física da quinta série e do professor Miguel, ah o professor Miguel!
Tenho saudade da copa de 1994 e das ruas de Santos lotadas pra comemorar o tetra. Tenho saudade daquelas férias, quando conheci o Alex e vivi um delírio de amor, chorando pela impossibilidade do mesmo ao som de Maria Bethânia cantando "Você". Saudade da fazenda no interior de Minas Gerais, onde tomei leite tirado direto da vaca, morninho e espumoso, sentado em cima da cerca. Saudade do banho de rio. Saudade do Renato e de tudo o que a gente viveu.
Tenho saudade das sessões de cinema com meu pai, que despertou minha paixão pela sétima arte. Filmes como Lobo, Filadelfia e A Época da Inocência marcaram minha pré-adolescência. Tenho saudade de Aracaju, dos amigos e do amor que lá encontrei, das situações que vivi, quase todas de uma emoção incomparável. Saudade do jeito doido e solitário da Carmem, sempre meio perdida, sem rumo na vida, mas cheia de graça e alegria, sempre pronta a arrancar uma gargalhada de alguém. Que saudade eu sinto dela! Ser-humano incrível! Impossível descrever em palavras o prazer e a energia de se estar perto dela. Saudade da Cristiane e do Francisco. Saudade da Riso, que fazia juz ao nome, sempre divertida. Saudade dos meus eternamente amados Alexandre e suas festas incríveis; Pablo e uma misteriosa sinergia que nos ligava, que só consegui entender mais tarde quando já estávamos afastados; Edvan e seu humor ácido; Daniela e sua arte da dança; Cléber e seu jeito compreensivo; Samuel, um amor impossível e finalmente Diana e Suzana com seus corações imensos agregando sempre mais e mais pessoas ao nosso maravilhoso clã. Saudade de todos os momentos que dividimos, em qualquer lugar, em qualquer circunstância, na rua, na chuva, na fazenda ou numa casinha de sapé. Saudade da minha prima Roberta e da época que éramos irmãos, dos segredos confidenciados e dos amores alcovitados.
Tenho saudade dos meus primeiros rascunhos, quando escrever era apenas uma brincadeira e não uma paixão abrasiva e irreversível. Tenho saudade de Londrina. Do apartamentinho simples, mas aconchegante na rua Raposo Tavares. Saudade das descobertas que fiz lá. Da sexualidade aflorando lentamente com sabor de proibido. Saudade do Parque Igapó, do Moringão, do Super Muffato. Saudade dos melhores anos no colegial na Escola Professor Vicente Rijo. Saudade das situações vividas com Kássima. Da descoberta de uma amizade profunda e pura com Nadege, amizade que me proporcionou os melhores momentos da minha vida. Momentos de deliciosas bobagens sem fim, de carinhos e afagos, de confidencias, lágrimas e abraços. Saudade das peças na escola, da semana cultural, da politizada Larissa com seus papos intelectuais. E o que dizer da exuberante Vívian, com sua sede de viver até a última gota? Tenho saudade do dia em que me levou no Valentino depois do aniversário da Nadege em maio de 2001, e me apresentou pra um monte de gente interessante, e eu super tímido e ao mesmo tempo fascinado com aquele mundo novo que se abria diante de meus olhos. Saudade da tua atitude, da tua coragem, do teu jeito de viver sem se importar com o que os outros pensavam e sem medo de ser feliz. Saudade de você repetindo pra mim o tempo todo sua frase favorita: "se joga e acredita..." Parece que tô ouvindo você falando agora e soltando uma gargalhada alta em seguida. Que saudade dessa sensação, do som da tua gargalhada!
Tenho saudade das ligações pro disque amizade, onde me meti em situações engraçadas e as vezes constrangedoras, mas também conheci o Mike, que estava no Brasil, vindo da Inglaterra pra passar uns dias com a família. E nos encontramos na Biblioteca Pública, depois passeamos pelo parque e tomamos suco de fruta natural, o meu era de pêssego, o dele não lembro. Sinto saudade da Luzia, minha grande amiga Luzia, grande em todos os sentidos. Saudade dos nossos filmes, dos nossos churrascos, das nossas partidas de buraco até altas horas da madrugada. Saudade do seu sarcasmo mordaz e ironia irresistível, seu ar de deboche, seu humor impagável. Saudade da sua comida, seu tempero maravilhoso, em especial aquele inesquecível salmão com alcaparras. Saudade do bolo prestígio que eu fazia e que era obrigatório nos nossos finais de semana, acompanhado de uma boa xícara de café, bem forte, bem quente e quase amargo. Saudade de sentir que você me entendia só com o olhar. Saudade da nossa anarquia. Tenho saudade da Cláudia e suas piadas sujas, de seu jeito pacificador, de sua esperteza e de suas massagens incríveis! Saudade do jeitinho bobo e ingênuo da Martinha.
Tenho saudade dos dois dias que fiquei trancado no quarto lendo O Terceiro Travesseiro ao som de Adriana Calcanhoto, chorando baldes e sonhando com um amor igual ao do livro. Saudade de passar as noites na janela do meu quarto, esperando por algo que me tiraria daquela vida claustrofóbica, eu era feliz e não sabia. Sinto saudade da Vânia, sempre tão charmosa com seus cortes de cabelo curtinhos e modernos, sua fome de liberdade e seus quitutes deliciosos. Tenho saudade das filhas dela também, Amanda e Fernanda Zambrin. De falar um monte de besteiras, das nossas brincadeiras de mímica, das reuniões sociais e dos romances tumultuados.
Sinto saudade de Porto Alegre e das coisas especiais que vivi por lá. Saudade do reveillón de 2003 com Marcelo e Léo. Saudade das histórias loucas e engraçadas da Maristela. Saudade do Rafael e do Eduardo e de nossos programas a três, saudade de ouvir Elis Regina com eles. Tenho saudade da orla de Ipanema, do dia em que fui com meu pai jantar num restaurante com música ao vivo e o cara cantou "Lenha" do Zeca Baleiro e "É isso aí" de Seu Jorge e Ana Carolina, um momento tão simples que me deixou tão feliz. Tenho saudade de ler a Zero Hora de domingo e encontrar na última página do caderno Donna a crônica dominical da Martha Medeiros, a escritora do meu coração! Saudade de assistir a gauchada linda, com suas garrafas térmicas e cuias de chimarrão, passeando pelo Parque da Redenção. Saudade da Mara e do Paulo que me proporcionaram meses de uma adorável convivência, sempre honestos, humildes e generosos. Sempre maravilhosos!
Sinto saudade do Ricardo e do amor imenso que me fez sentir. Um amor mais uma vez não correspondido, mas com ele vivi uma estória digna dos melhores folhetins, com direito a crises de ciúme, brigas, triângulo amoroso, revelações bombásticas, beijos prometidos, encontros inesperados, lágrimas e separações. Saudade de sentir aquele frio na barriga.
Tenho saudade do ano de 2008, quando conheci Murilo e compartilhamos tanta coisa bacana juntos: baladas, conversas, jantares, passeios, planos e sonhos. Saudade da Rita, da cafeteria Media Luna, dos filmes incríveis que assisti naquele ano: Um Beijo Roubado, Do Outro Lado, O Signo da Cidade, Batman - O Cavaleiro das Trevas. Saudade da novela A Favorita, Flora e Donatella. Saudade de Bianca e Lauren, da Bruna e nossos papos descontraídos ao som de um jazz.
Tenho saudade de minha primeira vez em São Paulo, tudo tinha um sabor diferente do que tem agora. Saudade de Capão da Canoa. Das caminhadas pela praia deserta em pleno inverno, do voo das gaivotas sob minha cabeça. Saudade do dia em que vi Daniel Machado pela primeira vez, e soube imediatamente que seríamos grandes amigos. Saudade do instante de fascínio causado por Vagner ao avistá-lo a distância. Muita saudade da Luísa, do Robson, da Jenni e de uma época em que éramos inseparáveis!
Sinto saudade de quase tudo e continuarei sentindo, até o fim!!!
segunda-feira, 2 de julho de 2012
MÃE
Você veio depois de um ano de afastamento, um ano de saudade, de falta. E você me enlouqueceu! Eu te abracei forte, te apertei, belisquei teu pescoço, amaciei teus seios fartos que eu tanto amo, aspirei teu cheiro de todas as formas que pude, como se fosse o último suspiro. Me aninhei em seu colo, beijei tua pele já marcada pelo tempo e te mordi de leve, sem machucar, mas queria na verdade um pedaço teu, um pedaço físico que ficasse aqui comigo pra sempre. E tudo isso, acredito eu, como uma forma inconsciente de tentar voltar pro teu útero, pro lugar quente e confortável onde ficamos protegidos de tudo e de todos. O lugar onde só uma mãe pode guardar o seu filho, dentro de si.
Ainda assim, você me enlouqueceu! Com seus conselhos repetidos, suas cobranças, seus temores, suas reclamações. Você não parava de falar um segundo. Me deixou exausto, emocionalmente esgotado. Me questionou sobre assuntos que eu já expliquei milhões de vezes e falou sobre coisas que eu já escutei milhões de vezes. E se deprimiu e chorou, se sentiu culpada e me fez sentir culpado. Disse que não conseguia ser feliz longe de mim, depois disse que era uma mulher muito feliz. Tentou me persuadir de continuar morando sozinho. Remexeu nos meus livros, nos meus filmes, nas minhas roupas. Infelizmente ainda não conseguiu entender que a sua felicidade não é a minha e por isso me encheu de palavras com boas intenções que soaram tão desanimadoras.
E quando eu achava que não ia suportar e iria explodir, respirava fundo e fingia que não era comigo. Foram três dias, apenas três dias, e você conseguiu colocar em dia todas as cobranças e conselhos e afins de uma vida inteira. E quando começava a sair fumacinha pelos meus ouvidos você se foi, e antes de partir pensei em que como era bom voltar a normalidade, estar sozinho de novo, em silêncio, mas minutos antes do embarque me agarrei a você e você me pediu desculpas, e senti vontade de chorar. Você não tinha que se desculpar por coisa nenhuma. Então eu me desculpei, por ter feito você pensar que devia se desculpar por alguma coisa. E eu não queria te soltar. Queria que você fosse, mas também queria que você ficasse, e você se foi. Seguiu seu caminho, eu segui o meu.
De volta a normalidade, pude caminhar livre pela cidade. Dei voltas pelo centro, tomei uma cerveja, senti uma tristeza. Voltei pra casa. Ao entrar no apartamento um vazio, uma falta enorme. Esqueci os conselhos, as cobranças, as críticas, as chantagens emocionais. Só consegui lembrar do cheiro, do calor, do colo, das palavras doces, da pele, do toque, do sorriso, do jeito puro que só você tem e da falta imensa que tudo isso me faz.
Ainda assim, você me enlouqueceu! Com seus conselhos repetidos, suas cobranças, seus temores, suas reclamações. Você não parava de falar um segundo. Me deixou exausto, emocionalmente esgotado. Me questionou sobre assuntos que eu já expliquei milhões de vezes e falou sobre coisas que eu já escutei milhões de vezes. E se deprimiu e chorou, se sentiu culpada e me fez sentir culpado. Disse que não conseguia ser feliz longe de mim, depois disse que era uma mulher muito feliz. Tentou me persuadir de continuar morando sozinho. Remexeu nos meus livros, nos meus filmes, nas minhas roupas. Infelizmente ainda não conseguiu entender que a sua felicidade não é a minha e por isso me encheu de palavras com boas intenções que soaram tão desanimadoras.
E quando eu achava que não ia suportar e iria explodir, respirava fundo e fingia que não era comigo. Foram três dias, apenas três dias, e você conseguiu colocar em dia todas as cobranças e conselhos e afins de uma vida inteira. E quando começava a sair fumacinha pelos meus ouvidos você se foi, e antes de partir pensei em que como era bom voltar a normalidade, estar sozinho de novo, em silêncio, mas minutos antes do embarque me agarrei a você e você me pediu desculpas, e senti vontade de chorar. Você não tinha que se desculpar por coisa nenhuma. Então eu me desculpei, por ter feito você pensar que devia se desculpar por alguma coisa. E eu não queria te soltar. Queria que você fosse, mas também queria que você ficasse, e você se foi. Seguiu seu caminho, eu segui o meu.
De volta a normalidade, pude caminhar livre pela cidade. Dei voltas pelo centro, tomei uma cerveja, senti uma tristeza. Voltei pra casa. Ao entrar no apartamento um vazio, uma falta enorme. Esqueci os conselhos, as cobranças, as críticas, as chantagens emocionais. Só consegui lembrar do cheiro, do calor, do colo, das palavras doces, da pele, do toque, do sorriso, do jeito puro que só você tem e da falta imensa que tudo isso me faz.
quinta-feira, 24 de maio de 2012
DA SÉRIE: OS FILMES DA MINHA VIDA - MINHA MÃE É UMA SEREIA (8)
Sou daquele tipo que adora um filme profundo, filosófico, que te faz ficar pensando sobre ele horas, dias, meses e as vezes até anos depois que você assiste. Mas também, tenho verdadeira paixão por filmes leves e despretenciosos, que te pegam de surpresa como uma chuva morna de verão e você adora. Dentre estes tenho uma lista imensa, e hoje vou falar de um que sem sombra de dúvidas faz parte das minhas doces recordações: MINHA MÃE É UMA SEREIA.
O filme é de 1990, e o assisti em uma sessão da tarde a muitos e muitos anos atrás. Já faz tanto tempo que ainda não conhecia a carreira musical de Cher e nem era o fã ardoroso que sou hoje, mas já gostava bastante da Winona Ryder, e da pequena Christina Ricci passei a gostar muitíssimo, depois. De qualquer maneira o filme me conquistou pela história em si.
Uma mãe solteira dos anos 60, exuberante e sexy, não cria raízes em nenhum lugar e sempre que vislumbra um possível problema provocado por sua moderna e ousada forma de viver, entra em seu velho automóvel e parte para uma nova cidade, impedindo assim que as filhas, uma adolescente de 15 anos e uma menina de 10, cultivem amizades e relacionamentos. Com isso, ela está sempre entrando em conflito com a filha mais velha, que não aprova o estilo de vida meio "mochileira" da mãe e um tanto quanto libertário, e justamente para se diferenciar dela cisma que quer ser freira, só que acaba se encantando por um belo capaz que por ironia encanta-se por sua mãe. Já a mais nova é espevitada e vivaz e sonha em ser uma grande nadadora. Juntas, as três formam uma deliciosa família de mulheres com personalidades completamente diferentes, provando que famílias de verdade se amam incondicionalmente.
MINHA MÃE É UMA SEREIA é realmente um encanto, e o elenco é um deleite à parte. Cher está simplesmente deslumbrante, vibrante e mágica. Winona no auge de sua doçura adolescente, divertida e fascinante. E a mascote Christina, adorável e cativante. Um filme pra toda família. Uma pérola preciosa. Uma história pura, que ficou gravada no meu coração.
O filme é de 1990, e o assisti em uma sessão da tarde a muitos e muitos anos atrás. Já faz tanto tempo que ainda não conhecia a carreira musical de Cher e nem era o fã ardoroso que sou hoje, mas já gostava bastante da Winona Ryder, e da pequena Christina Ricci passei a gostar muitíssimo, depois. De qualquer maneira o filme me conquistou pela história em si.
Uma mãe solteira dos anos 60, exuberante e sexy, não cria raízes em nenhum lugar e sempre que vislumbra um possível problema provocado por sua moderna e ousada forma de viver, entra em seu velho automóvel e parte para uma nova cidade, impedindo assim que as filhas, uma adolescente de 15 anos e uma menina de 10, cultivem amizades e relacionamentos. Com isso, ela está sempre entrando em conflito com a filha mais velha, que não aprova o estilo de vida meio "mochileira" da mãe e um tanto quanto libertário, e justamente para se diferenciar dela cisma que quer ser freira, só que acaba se encantando por um belo capaz que por ironia encanta-se por sua mãe. Já a mais nova é espevitada e vivaz e sonha em ser uma grande nadadora. Juntas, as três formam uma deliciosa família de mulheres com personalidades completamente diferentes, provando que famílias de verdade se amam incondicionalmente.
MINHA MÃE É UMA SEREIA é realmente um encanto, e o elenco é um deleite à parte. Cher está simplesmente deslumbrante, vibrante e mágica. Winona no auge de sua doçura adolescente, divertida e fascinante. E a mascote Christina, adorável e cativante. Um filme pra toda família. Uma pérola preciosa. Uma história pura, que ficou gravada no meu coração.
terça-feira, 22 de maio de 2012
DA SÉRIE: OS FILMES DA MINHA VIDA - FILADELFIA (7)
Em 1993 eu era um pré-adolescente prestes a completar 12 anos. Adorava ir ao cinema com meu pai. Até essa idade tinha assistido todos os filmes d'Os Trapalhões, da Xuxa, os clássicos Disney como O Rei Leão, Alladin, A Bela e a Fera. Até que chegou a hora de meu primeiro filme adulto, e eu comecei com nada mais nada menos que um grande sucesso do cinema, o terno, profundo e dramático FILADELFIA de Jonathan Demme. Eu não podia imaginar,mas depois dessa sessão de cinema eu jamais seria o mesmo. FILADELFIA significou tanto pra mim, em muitos sentidos. Foi o primeiro filme com abordagem gay da minha vida. Foi a primeira vez que vi interpretações de verdade. Foi a primeira vez que me emocionei com seres humanos e não com bichos ou desenhos animados (tudo bem, eu também chorei em Lua de Cristal e Super Xuxa contra o Baixo Astral, mas esses não contam). Foi em FILADELFIA que eu entendi o significado de muita coisa, mas o que eu não consigo esquecer é da emoção do meu pai ao assisti-lo. A emoção dele, pra mim teve muito significado. Significava que o meu pai não era tão preconceituoso quanto eu podia imaginar e que um dia, talvez, ele me aceitasse sem muitas dificuldades. Meu pai era um homem sensível, foi o que me pareceu na época, e foi tão bonito perceber isso.
FILADELFIA foi um marco não só pela história emocionante e arrebatadora de amor, preconceito e justiça, mas por inúmeros detalhes que tornaram ela grandiosa e merecedora de todos os prêmios que recebeu na época. A trilha sonora foi um show à parte, com Bruce Spreengsteen encabeçando o elenco, que contou ainda com nomes como os de Neil Young dando o golpe de misericórdia com sua melanólica e massacrante "Philadelphia", e a depressiva, porém maravilhosa ópera "La mamma morta". As atuações de Tom Hanks como o advogado Andrew, vítima de discriminação pela aids, que encara com a mais absoluta classe e dignidade sua desesperadora e humilhante situação até o fim e Denzel Washington, que com seu quase homofóbico Joe Miller, representou grande parcela da população que ignora a realidade dos gays e embora não faça nada pra prejudicá-los também não os querem muito perto, mostraram ser astros de primeira grandeza.
Não posso me esquecer também do meu lindo amante latino, o eterno amor da minha vida, Antonio Banderas, bonito a não mais poder, ainda meio cru, dando os primeiros passos em Hollywood, interpretando Miguel, o namorado de Andrew (devo confessar que mesmo com aids, eu tinha uma inveja dele!!! Com o Banderas do lado eu morreria feliz).
O filme ainda teve o mérito de falar de aids numa época em que a doença era sinônimo de morte certa e ninguém tinha muita informação correta sobre ela. Além de um belo filme, foi extremamente esclarecedor, um retrato tocante de tolerância.
Cenas que ficaram congeladas na minha memória: Andrew e Miguel dançando juntinhos num baile, fardados com um uniforme branco - cena linda que me fez desejar ardentemente viver um momento igual, sonho com ele até hoje. Andrew escutando "La mamma morta", e no calor da emoção ele canta e chora copiosamente ao som da ópera de Maria Callas, um desabafo em meio ao turbilhão de sentimentos pelo qual passa. Uma das cenas do tribunal em que Andrew se exalta e cai convulsionado no chão já bastante debilitado, arrepiante. E por fim a derradeira sequência, a do velório, ao som de Philadelphia com Neil Young, impossível segurar as lágrimas, uma das cenas mais tristes e lindas do cinema pra mim. No final o mar, e Andrew criança, dando tchauzinho pra câmera. Fim!
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