Gosto de falar e escrever sobre pessoas. Esse texto é uma pequena homenagem a três pessoas muito queridas. Falarei um pouco sobre cada uma delas. Sobre como nunca imaginei que amizades virtuais pudessem ser duradouras e significativas.
Nunca acreditei nesse tipo de amizade, achava que o virtual era apenas uma ponte para que num curto espaço de tempo se conhecesse cara a cara a outra pessoa. Mas neste caso específico, os anos foram passando e embora nenhuma possibilidade de um encontro ao vivo e a cores surgisse, os contatos foram se estendendo e fortalecendo-se.
Tudo começou com a febre dos "blogs". Eu tinha e ainda mantenho esse "Borboletas na Janela". O praticamente finado "orkut" tinha comunidades onde blogueiros se reuniam para ler e comentar postagens em blogs de pessoas desconhecidas que mantinham contato apenas por ali. Pra que a brincadeira funcionasse bem, você devia ler e comentar, mesmo os textos que você não curtia nem se identificava, pra ficar uma coisa imparcial. Eu mesmo fazia um esforço descomunal pra ler blogs com temas que não me apetecem de maneira nenhuma, como futebol e política, até por uma questão de respeito. Só que no meio dessa profusão de blogs que surgia, sempre tinha aqueles que me encantavam, dava um prazer imenso ler, tinha um sabor todo especial, era uma alegria!
Entre eles estavam "Histórias do Arteiro" (hoje "Loucos por Cinema"), "Diz que Fui por Aí" e "De Volta ao Meu Eu" respectivamente do André, do Marcelo e da Sabrina.
O André escrevia exclusivamente sobre filmes. Pra mim, um apaixonado por cinema, um prato cheio. Mas o que tornava especial suas postagens, era a forma simples e amorosa como ele colocava suas impressões sobre os filmes, o que me fez ter uma identificação imediata com sua maneira de sentir as histórias. Lembro que a primeira postagem que li, me chamou a atenção pelas belas imagens das fabulosas atrizes Cate Blanchett e Kate Winslet, esta segunda uma de minhas atrizes preferidas. O texto falava sobre os concorrentes ao "Oscar" daquele ano de 2009. Cate estava em cartaz com "O Curioso Caso de Benjamin Button" e Kate com "O leitor" e "Foi Apenas Um Sonho". Dali em diante não parei mais de seguir o talentoso e criativo André Arteiro, que mora em São João de Meriti no estado do Rio. Já gravou vários vídeos satíricos das estrelas pop internacionais como Lady Gaga, Kesha, entre outras. É enfermeiro (me corrija se estiver errado André). Participou do Vídeo Game da Angélica com o tema Vale Tudo, sua novela favorita, mas infelizmente não ganhou. É muito bem casado. Fã incondicional e fervoroso de Patrícia Marx. Amigo carinhoso, sincero, doce e acima de tudo um guerreiro que apesar das agruras da vida e armadilhas do destino, nunca perde a alegria e nem tira o sorriso meigo do rosto.
Já o Marcelo Antunes é uma "figura". O blog dele me chamou atenção por ser principalmente bem escrito, sempre com uma pitada de humor. Ora ele discorria sobre comportamento como no texto "Martíni com Cereja", ora sobre cinema em "Amigo, estou aqui...", ora atacando de contista com textos recheados de erotismo, como no caso de "Quatro e Vinte" e "Encontro Marcado" para citar apenas dois, por que o cara tem um vasto repertório quando se trata de histórias de sacanagem. Marcelo é assim, bem eclético, inteligente e "palhaço". Mora no Rio de Janeiro. É professor. Adora cinema também. É viciado no facebook. Está a procura de sua cara-metade (não está Marcelo?) e anda bem vagabundo ultimamente pra escrever, faz mais de 3 meses que não atualiza seu blog. Isso sim, é sacanagem.
Enfim Sabrina. Ah, minha doce Sabrina! Ela é romântica, sensível, mãe, esposa e mulher dedicada a tudo aquilo que ama. Quando descobri seus textos num blog romanticamente soturno, me pareceu que passava por uma fase conturbada em sua vida amorosa e ali derramava toda sua dor e anseios (é isso mesmo Sabrina?). Gostei daquela moça corajosa, que expunha seus sentimentos sem medo de parecer ridícula, piegas e insegura. Eu também era um pouco como ela e ao lê-la era como se estivesse lendo um diário íntimo. Deixei de seguir seu blog depois de um tempo por estar em outra vibe, e hoje nem sei se ela ainda o mantém, mas a amizade permaneceu através das redes sociais. Hoje percebo-a em suas fotos e postagens, mais leve, segura e feliz. Parece que a gaúcha Sabrina Silveira Anhaya, minha conterrânea que vive em Passo Fundo, está realizada e plena, e isso me deixa feliz. Sua simplicidade a torna iluminada.
E isso tudo eu sei e sinto, mesmo não os conhecendo pessoalmente, porque acredito sinceramente na máxima de que "os seus se reconhecem". Toda aquela empolgação dos "blogs" já ficou lá no passado, num relativamente distante 2009, onde tínhamos gana de escrever, expondo nossas opiniões, ideias e sentimentos, mas esse desejo de continuar sendo o melhor que pudermos, e continuar mantendo contato pra que um dia possamos nos abraçar, rir e comemorar toda essa tecnologia, que nos uniu de certa forma, permanece.
Um dia eu sei que nos veremos olhos nos olhos e esse abraço será inevitável. Obrigado amigos!
domingo, 28 de outubro de 2012
sábado, 13 de outubro de 2012
DA SÉRIE: OS FILMES DA MINHA VIDA - UM BEIJO ROUBADO (9)
Era 22 de maio de 2008, quinta-feira. Lembro nitidamente desse dia. Minha folga da cafeteria. Foi um dia especial por estar com colegas de trabalho pela manhã numa reunião da empresa, onde me diverti, apesar da ocasião não muito propícia. Reuniões de trabalho não costumam ser divertidas, ainda mais no dia da sua folga, mas essa foi. Depois, um almoço farto na companhia de colegas adoráveis. Quando anoiteceu, visitei uma amiga em seu apartamento no Bomfim. Batemos um papo gostoso sobre livros, viagens e gatos. Pra terminar a noite encontrei Murilo, Sérgio e Eduardo na Cidade Baixa e nos acabamos numa lanchonete em meio a muitas risadas e histórias engraçadas. Voltei pra casa passando mal de tanto que comi. Porém no meio da tarde, entre a reunião de trabalho e o encontro com amigos, o momento mais inesquecível do dia, a sessão do filme "Um Beijo Roubado" no cinema GNC do Shopping Moinhos de Vento. Aquele momento, os 94 minutos que fiquei completamente absorto naquela sala de cinema, foram de total ternura.
Era Norah Jones, a cantora de voz doce que eu tanto gosto que fazia sua estréia no cinema, já como protagonista. Uma mocinha romântica daquelas bem típicas, junto com nada mais nada menos, que meu muso Jude Law. O filme, um romance rasgado, bem água com açúcar, cheio de lágrimas, suspiros, desencontros e um arrebatador beijo roubado que resumi bem toda a história, era simplesmente irresistível, a minha cara.
"Um Beijo Roubado" reuniu todos os elementos que me encanta em um filme, um elenco apaixonante a começar pelos protagonistas já citados, tinha ainda a exuberante Rachel Weisz e a fofíssima Natalie Portman loira e de cabelos curtos, arrasando na pele de uma viciada em jogo. Uma trilha impecável e a fotografia estonteante.
Num texto que falava sobre o filme, a escritora Martha Medeiros o definiu como uma "poesia filmada". Concordo plenamente, acho que essa definição resumi bem o espírito desse romance que tem como título original "My Blueberry Nights" (Minhas noites de mirtilo), que é um título mais que perfeito. Porém, ele também poderia se chamar "Jornada de um coração partido" já que conta a história de Elizabeth, uma mulher que após ser traída e abandonada pelo namorado começa a frequentar todos os dias o pequeno e charmoso café de Jeremy, local que costumava ir sempre com ele na esperança de reencontrá-lo. Lá, Elizabeth passa várias noites chorando suas mágoas para um paciente Jeremy, que a ajuda a afogá-las com deliciosas tortas de mirtilo, o reconforto da doçura. Só que diante da delicadeza frágil da machucada Lizzie é impossível para Jeremy não se apaixonar, mas para não parecer um aproveitador insensível ele age com muita cautela, mostrando seus sentimentos com toda a sutileza.
Algumas noites na companhia de Jeremy, regadas a muitas lágrimas e torta de mirtilo se passam, e Elizabeth, ainda machucada, decide viajar pelo estado pra tentar esquecer o homem que a abandonou. Com o coração partido, ela embarca numa jornada que lhe dará uma nova visão da vida, encontrando pessoas e vivenciando situações que a fazem amadurecer e entender que a dor é parte inevitável desse caminho que percorremos enquanto vivos. Aprendida a lição e refeita da dor, Elizabeth volta inteira e pronta para viver um novo amor ao lado de Jeremy.
Era Norah Jones, a cantora de voz doce que eu tanto gosto que fazia sua estréia no cinema, já como protagonista. Uma mocinha romântica daquelas bem típicas, junto com nada mais nada menos, que meu muso Jude Law. O filme, um romance rasgado, bem água com açúcar, cheio de lágrimas, suspiros, desencontros e um arrebatador beijo roubado que resumi bem toda a história, era simplesmente irresistível, a minha cara.
"Um Beijo Roubado" reuniu todos os elementos que me encanta em um filme, um elenco apaixonante a começar pelos protagonistas já citados, tinha ainda a exuberante Rachel Weisz e a fofíssima Natalie Portman loira e de cabelos curtos, arrasando na pele de uma viciada em jogo. Uma trilha impecável e a fotografia estonteante.
Num texto que falava sobre o filme, a escritora Martha Medeiros o definiu como uma "poesia filmada". Concordo plenamente, acho que essa definição resumi bem o espírito desse romance que tem como título original "My Blueberry Nights" (Minhas noites de mirtilo), que é um título mais que perfeito. Porém, ele também poderia se chamar "Jornada de um coração partido" já que conta a história de Elizabeth, uma mulher que após ser traída e abandonada pelo namorado começa a frequentar todos os dias o pequeno e charmoso café de Jeremy, local que costumava ir sempre com ele na esperança de reencontrá-lo. Lá, Elizabeth passa várias noites chorando suas mágoas para um paciente Jeremy, que a ajuda a afogá-las com deliciosas tortas de mirtilo, o reconforto da doçura. Só que diante da delicadeza frágil da machucada Lizzie é impossível para Jeremy não se apaixonar, mas para não parecer um aproveitador insensível ele age com muita cautela, mostrando seus sentimentos com toda a sutileza.
Algumas noites na companhia de Jeremy, regadas a muitas lágrimas e torta de mirtilo se passam, e Elizabeth, ainda machucada, decide viajar pelo estado pra tentar esquecer o homem que a abandonou. Com o coração partido, ela embarca numa jornada que lhe dará uma nova visão da vida, encontrando pessoas e vivenciando situações que a fazem amadurecer e entender que a dor é parte inevitável desse caminho que percorremos enquanto vivos. Aprendida a lição e refeita da dor, Elizabeth volta inteira e pronta para viver um novo amor ao lado de Jeremy.
domingo, 30 de setembro de 2012
OS QUASE-GAYS DE JOÃO EMANUEL CARNEIRO
João Emanuel Carneiro já pode ser considerado um dos melhores novelistas de sua geração. Com quatro novelas de grande sucesso no currículo, o autor arrebata os telespectadores a cada nova estória. São tramas dramáticas, recheadas de suspense e muito bem costuradas, que hipnotizam o público a cada capítulo sem cair na enrolação, a famosa "barriga" que quase toda a novela possui.
Além das tramas principais que são sempre envolventes, os demais núcleos sempre possuem narrativas charmosas e divertidas, com personagens bem delineados que seguram bem a estória tornando-a deliciosa como um todo. Eu, definitivamente, adoro João Emanuel e suas novelas, desde DA COR DO PECADO em 2004 até a atual AVENIDA BRASIL de 2012.
Como nem tudo é perfeito, algo me incomoda profundamente nas novelas de João Emanuel Carneiro. Era algo que até então eu não tinha parado pra pensar, mas fazendo um retrospecto de suas 4 tramas exibidas pela Rede Globo: DA COR DO PECADO, COBRAS E LAGARTOS, A FAVORITA e AVENIDA BRASIL, percebi que todas tem um personagem quase-gay, ou seja, aquele sujeito que tem tudo pra ser, demonstra tendências, ilude o telespectador, mas no final das contas é heterossexual ou quase isso.
Em DA COR DO PECADO (2004) temos Abelardo, rapaz sensível e delicado, criado numa família de lutadores, com quatro irmãos machões, que tem aversão pelas artes marciais e sonha em ser maquiador. Em interpretação luminosa de Caio Blat, pra mim o melhor personagem de sua carreira e o meu preferido quase-gay de todos, Abelardo foge como o diabo da cruz de Tina (Karina Bacchi), maria-tatame que já ficou com todos os seus irmãos. Pra completar, em determinado momento da trama Abelardo encontra um companheiro, Íris, um rapaz que tem as mesmas afinidades e juntos os dois competem em um concurso que vai eleger um maquiador para Madonna. Embora a sexualidade de Abelardo fosse questionada a todo momento pelos familiares por causa de suas tendências artísticas, nunca foi mencionado pelo próprio uma preferência pelo mesmo sexo, deixando sempre no ar uma dúvida, mas tudo nele era tão gay que os telespectadores tinham certeza. Só que no fim das contas Abelardo revela-se hetero, ficando com Tina e assumindo a paternidade de seus filhos juntamente com os irmãos Dionísio (Pedro Necshlling) e Thor (Cauã Reymond).
Na novela seguinte, COBRAS E LAGARTOS (2006), o autor nos apresenta Tomás (Leonardo Miggiorin), logo de cara rotulado como metrossexual. Se para o público ficava evidente logo de início que Tomás não era gay, para os personagens da trama não. Justamente por ser extremamente vaidoso, usando sempre cremes pra pele, fazendo tratamentos para o cabelo e abusando de roupas justas, coloridas e exóticas, Tomás era vítima de piadinhas e insinuações, até começar um namoro com a estilista Sandrinha (Maria Maya), com quem formou uma hilária dobradinha. Embora ficasse explícita a preferência sexual de Tomás, minha pergunta é: por que essa fixação de João Emanuel pela dubiedade sexual em seus personagens? Mas não termina por aí...
Em 2008, JEC nos brinda com sua primeira novela no horário nobre, a inovadora e sensacional A FAVORITA. Tudo perfeito, até o personagem Orlandinho de Iran Malfitano, esse sim gay de verdade, loucamente apaixonado por Halley (Cauã Reymond), casar-se com Maria do Céu (Deborah Secco) e após relutar de todas as formas, render-se a uma paixão heterosexual pela então esposa de fachada. Vergonha das vergonhas transformar um personagem gay em hetero sabe-se lá por que cargas d'água. Como se na vida real fosse assim: hoje sou gay, amanhã sou hetero. Sentimento de revolta por ter amado tanto uma novela que me fez de idiota com um personagem quase-gay.
Por fim chegamos ao grande sucesso do momento, a cinematográfica AVENIDA BRASIL (2012), onde temos Roni (Daniel Rocha), Roniquito pros mais íntimos. Jogador
de futebol, Roni não assume sua sexualidade, porém percebe-se envolvido por
Leandro (Thiago Martins) e tem ojeriza a Suellen (Ísis Vaverde), maria-chuteira que já passou pela cama de todos os boleiros do bairro. O problema é que Leandro é louco por Suellen e por ironia do destino Roni acaba se casando com ela e indo pra cama também. Neste momento da novela, os dois já estão separados e Suellen investe em Leandro, que começa a ganhar dinheiro com o futebol. Roni curte uma dor de cotovelo, mas até agora nada de se assumir. Resta esperar mais algumas semanas pra saber o desfecho desse triângulo e descobrir se teremos afinal mais um quase-gay em mais uma trama de João Emanuel Carneiro. Porque tendo em vista que o autor me parece ele mesmo ser gay na vida real, essa fixação por retroceder a homossexualidade de seus personagens demonstra uma não-aceitação inconsciente de sua própria sexualidade.
Aguardemos as cenas dos próximos capítulos...
Além das tramas principais que são sempre envolventes, os demais núcleos sempre possuem narrativas charmosas e divertidas, com personagens bem delineados que seguram bem a estória tornando-a deliciosa como um todo. Eu, definitivamente, adoro João Emanuel e suas novelas, desde DA COR DO PECADO em 2004 até a atual AVENIDA BRASIL de 2012.
Como nem tudo é perfeito, algo me incomoda profundamente nas novelas de João Emanuel Carneiro. Era algo que até então eu não tinha parado pra pensar, mas fazendo um retrospecto de suas 4 tramas exibidas pela Rede Globo: DA COR DO PECADO, COBRAS E LAGARTOS, A FAVORITA e AVENIDA BRASIL, percebi que todas tem um personagem quase-gay, ou seja, aquele sujeito que tem tudo pra ser, demonstra tendências, ilude o telespectador, mas no final das contas é heterossexual ou quase isso.
Em DA COR DO PECADO (2004) temos Abelardo, rapaz sensível e delicado, criado numa família de lutadores, com quatro irmãos machões, que tem aversão pelas artes marciais e sonha em ser maquiador. Em interpretação luminosa de Caio Blat, pra mim o melhor personagem de sua carreira e o meu preferido quase-gay de todos, Abelardo foge como o diabo da cruz de Tina (Karina Bacchi), maria-tatame que já ficou com todos os seus irmãos. Pra completar, em determinado momento da trama Abelardo encontra um companheiro, Íris, um rapaz que tem as mesmas afinidades e juntos os dois competem em um concurso que vai eleger um maquiador para Madonna. Embora a sexualidade de Abelardo fosse questionada a todo momento pelos familiares por causa de suas tendências artísticas, nunca foi mencionado pelo próprio uma preferência pelo mesmo sexo, deixando sempre no ar uma dúvida, mas tudo nele era tão gay que os telespectadores tinham certeza. Só que no fim das contas Abelardo revela-se hetero, ficando com Tina e assumindo a paternidade de seus filhos juntamente com os irmãos Dionísio (Pedro Necshlling) e Thor (Cauã Reymond).
Na novela seguinte, COBRAS E LAGARTOS (2006), o autor nos apresenta Tomás (Leonardo Miggiorin), logo de cara rotulado como metrossexual. Se para o público ficava evidente logo de início que Tomás não era gay, para os personagens da trama não. Justamente por ser extremamente vaidoso, usando sempre cremes pra pele, fazendo tratamentos para o cabelo e abusando de roupas justas, coloridas e exóticas, Tomás era vítima de piadinhas e insinuações, até começar um namoro com a estilista Sandrinha (Maria Maya), com quem formou uma hilária dobradinha. Embora ficasse explícita a preferência sexual de Tomás, minha pergunta é: por que essa fixação de João Emanuel pela dubiedade sexual em seus personagens? Mas não termina por aí...Em 2008, JEC nos brinda com sua primeira novela no horário nobre, a inovadora e sensacional A FAVORITA. Tudo perfeito, até o personagem Orlandinho de Iran Malfitano, esse sim gay de verdade, loucamente apaixonado por Halley (Cauã Reymond), casar-se com Maria do Céu (Deborah Secco) e após relutar de todas as formas, render-se a uma paixão heterosexual pela então esposa de fachada. Vergonha das vergonhas transformar um personagem gay em hetero sabe-se lá por que cargas d'água. Como se na vida real fosse assim: hoje sou gay, amanhã sou hetero. Sentimento de revolta por ter amado tanto uma novela que me fez de idiota com um personagem quase-gay.
Por fim chegamos ao grande sucesso do momento, a cinematográfica AVENIDA BRASIL (2012), onde temos Roni (Daniel Rocha), Roniquito pros mais íntimos. Jogador
de futebol, Roni não assume sua sexualidade, porém percebe-se envolvido por
Leandro (Thiago Martins) e tem ojeriza a Suellen (Ísis Vaverde), maria-chuteira que já passou pela cama de todos os boleiros do bairro. O problema é que Leandro é louco por Suellen e por ironia do destino Roni acaba se casando com ela e indo pra cama também. Neste momento da novela, os dois já estão separados e Suellen investe em Leandro, que começa a ganhar dinheiro com o futebol. Roni curte uma dor de cotovelo, mas até agora nada de se assumir. Resta esperar mais algumas semanas pra saber o desfecho desse triângulo e descobrir se teremos afinal mais um quase-gay em mais uma trama de João Emanuel Carneiro. Porque tendo em vista que o autor me parece ele mesmo ser gay na vida real, essa fixação por retroceder a homossexualidade de seus personagens demonstra uma não-aceitação inconsciente de sua própria sexualidade.
Aguardemos as cenas dos próximos capítulos...
quarta-feira, 12 de setembro de 2012
UM LUGAR CHAMADO XINGÓ
Se a felicidade são apenas momentos de alegria, nesse lugar inóspito e histórico, situado entre o interior de Sergipe e Alagoas, eu fui intensamente feliz por três breves dias. Foram dias de sonho.
Xingó. Esse lugar, embora quase deserto e tão distante, me proporcionou momentos inesquecíveis. Tão inesquecíveis que até hoje, mais de 15 anos depois, as lembranças continuam vívidas e frescas na minha nostálgica memória.
Foi um tempo de ternura. Éramos jovens, cheios de vida, vigor, esperança e ilusões. Cheios de amor. Ríamos de qualquer coisa, fazíamos piada de tudo, nada nos escapava. Tudo era motivo pra festa. A felicidade sempre estampada em nossos rostos lisos e cheios de viço.
Foi ali em Xingó que os laços se fortaleceram e a intimidade se intensificou. Com Diana, Suzana, Edvan, Alexandre, Pablo, Cléber, Deives, Daniela e Samuel meu mundo era completo. Cada um a seu modo era muito especial. Edvan era o palhaço da turma, as vezes com apenas uma expressão arrancava gargalhadas de tirar o fôlego. Diana e Suzana eram as irmãs que sempre tinham uma palavra amiga quando alguém precisava. Sensatas, carinhosas, equilibradas, eram as conselheiras do grupo. Era no colo delas que todo mundo ia chorar as mágoas quando algum problema afligia. Alexandre era o culto, com ele dividi deliciosos momentos de música e poesia. Pablo era o desencanado. Cléber, o tenso. Deives, o responsável. Daniela era nossa dançarina, hiperativa e dona de um sorriso sempre escancarado e Samuel, uma utopia romântica. O primeiro amor platônico, impossível e não correspondido.
Juntos em Xingó, nunca fomos tão felizes ao som de Legião Urbana em "Somos tão jovens": todos os dias quando acordo, não tenho mais o tempo que passou...
sábado, 1 de setembro de 2012
O PRÍNCIPE DAS MARÉS?
Era feriado, um feriado qualquer. A noite estava agradável, convidativa. Saiu em direção a praia, queria caminhar a beira-mar. Precisava pensar na vida. Andava aflito, reflexivo, cheio de preocupações. Estava bem vestido, perfumado. Sempre que fazia seus passeios noturnos, tinha o desejo ilusório de encontrar alguém pelo caminho, alguém especial. Para apenas uma noite ou algo permanente, a ilusão sempre presente.
Percorreu o calçadão. Contemplou os jardins. Viu pessoas bebendo, rindo, abraçando e se beijando nos quiosques. Crianças andando de bicicleta. Gente passeando com seus cães. Adolescentes se agarrando. Sentou-se num banco em frente ao reduto onde rapazes se exercitavam. Observava os belos corpos movimentando-se. Uns saíam, outros chegavam, mas um permanecia.
Naquela noite solitária, estava especialmente melancólico. Os rapazes lindos e musculosos, chamavam sua atenção, mas não a prendia. A cabeça estava longe, um tanto quanto atormentada. A lua estava cheia, branca e brilhante, olhava pra ela e com o coração apertado, pedia que lhe trouxesse algo bom. Admirava o reflexo de sua luz no mar e se sentia bem.
Quando tornou a olhar os rapazes, percebeu que todos já tinham partido, exceto um. Aquele que estava lá, desde que sentou-se no banco, e não saiu, não parou em nenhum momento de exercitar-se. Não conseguia acreditar, mas tinha a impressão de que o rapaz o olhava e sorria pra ele. Era muito bonito e tudo parecia surreal, achou que estava delirando. Via-se extremamente comum, quase sem graça, incapaz de atrair alguém tão atraente.
Teve certeza de que era o alvo do belo rapaz quando este se aproximou e puxou assunto. Seu nome era Carlos. Ficou nervoso com a aproximação, sem jeito. O corpo, o charme e o sex appeal de Carlos o perturbava. Achava que pessoas como ele gostavam só de pessoas que fossem seu próprio reflexo.
Inseguro, falou pouco, mediu as palavras, respondia só o que Carlos lhe perguntava. Então veio o convite para que corressem na areia, sem rumo. Diante do rapaz de bermuda e sem camisa, alegou que não estava vestido apropriadamente pra correr com calça jeans e camisa. Mudou a proposta então, para uma simples caminhada. Ele topou na hora, um deus grego como aquele convidando-o pra caminharem juntos à beira-mar, era mais do que ele havia pedido pra lua.
Então caminharam e conversaram, falaram sobre exercícios físicos, que era o assunto preferido de Carlos e falaram sobre o desejo de se beijarem e passarem aquela noite juntos, mas de repente Carlos cansou de caminhar e resolveu correr. Insistiu mais uma vez com ele que corresse junto, a seu lado, que ia lhe fazer bem, mas ele não quis, estava com preguiça de correr. Prometendo que correria alguns metros e voltaria para reencontrá-lo, Carlos se foi.
Sentia-se presenteado pelos céus ao ver aquele homem atlético, forte e cheio de músculos correndo pela praia, deixando a promessa de que logo voltaria pra lhe proporcionar uma noite cheia de prazer e delícias. Mas, ao ver Carlos desaparecer na escuridão, sem nenhum sinal de volta, seu semblante começou a desvanecer. Andou mais depressa pra ver se o enxergava ao longe, mas não viu mais nada, parecia ter desaparecido como fumaça, como se a escuridão o tivesse tragado.
Ficou parado, incrédulo, olhando pra todos os lados. Algum sinal daquele homem fabuloso tinha que aparecer. Inconformado pensou, como pôde ser tão burro em acreditar que um homem daqueles ia querer algo com ele ou tão tolo de não tê-lo seguido, corrido ao seu lado como ele queria? De qualquer modo estava acabado, aquele breve sonho havia chegado ao fim. O resto eram só conjecturas. Seja o que tivesse sido aquilo, Carlos seria pra sempre o seu "príncipe das marés".
domingo, 26 de agosto de 2012
A VIDA COMO ELA É POR "QUEER AS FOLK"
Foi em uma cena específica na metade do primeiro episódio de Queer As Folk, que me vi irremediavelmente apaixonado pela série. Na cena, os amigos de infância Bryan e Michael conversam no terraço do hospital onde Lindsay, a amiga lésbica de ambos, acaba de dar a luz a Gus, filho de Bryan, concebido por inseminação artificial.
Bryan, diante da vista iluminada de toda Pittsburg acende um cigarro e questiona Michael por não tê-lo impedido de ir adiante com a história de ter um filho. Michael rebate, afirmando que tentaram sim impedi-lo, porém os apelos de Lindsay foram mais convincentes, fazendo-o ceder. Ouve-se os primeiros acordes de "Proud", música desconhecida pra mim até então, na voz de Heather Small, cantora que também não conhecia, mas que me deixa arrepiado por inteiro. Na sequencia, Bryan sempre sarcástico dramatiza a situação e sobe na mureta do terraço, ameaçando se jogar se Michael não puxá-lo. Nervoso, Michael pede que ele desça e pare com a brincadeira. Bryan puxa-o pela mão e o convida pra voar, como os super-heróis das histórias em quadrinhos das quais ele é fã, abraça-o por trás com força e diz que é o super-homem que vai levá-lo pra sobrevoar o mundo e Michael pergunta em tom divertido por que ele tem sempre que ser a Lois Lane. Em seguida vira-se de frente para o amigo, beija-o e parabeniza por ser pai.
Após essa cena, que me fisgou de vez, seguiram-se 83 episódios que tomaram conta das minhas madrugadas insones por três inesquecíveis meses. Todos aqueles personagens tão humanos e marcantes fizeram parte da minha vida e continuarão por muito tempo em minhas ternas lembranças. Bryan, Justin, Michael, Ben, Emmett, Ted, Melanie, Lindsay, Debbie e companhia tornaram-se como amigos íntimos. Como não se envolver com personagens tão carismáticos e histórias tão tocantes? Como não chorar, como não sofrer, não sorrir, não se revoltar, não torcer, não vibrar, não parar pra pensar, não sentir, como não se identificar?
Eu me identifiquei, senti, vivi todas a sensações que essa série pode proporcionar. Me vi um pouco em cada personagem, alguns num grau maior que em outros, mas nunca distante por completo de algum deles. De algum drama ou emoção nunca fiquei completamente imune, por mais banal que pudesse parecer.
As vezes me via tão doce e equilibrado quanto Michael, carregando sua eterna paixão platônica por Bryan, o amigo garanhão. Me derretia por seu olhar de ternura. Mas também me identificava com alguns traços da personalidade de Ted e Emmett. A insegurança do primeiro, sempre em busca de um relacionamento, porém tolhido por sua baixa auto-estima. E a atitude do segundo, sempre vivaz, criativo, impondo sua personalidade meiga e delicada com firmeza e veemência, nem aí pra opinião alheia.
Apesar de bem distante da personalidade de Bryan, me emocionava perceber a lealdade com que tratava os amigos, sempre procurando ajudar de alguma forma, mesmo tentando transparecer nenhuma preocupação com ninguém. No fim era sempre ele o solucionador dos maiores problemas, tornando-o o grande herói da história e redimindo-o de muitas falhas. Promíscuo, hedonista, insensível, cafajeste.
Justin, um pequeno notável, lindo, talentoso, apaixonado e cheio de coragem. Muitas vezes desnecessariamente agressivo, principalmente com a mãe, a compreensiva Jennifer. Os momentos de que mais gostava é quando ele demonstrava não viver só pra Bryan e distribuía atenção e gestos de carinho aos amigos, o que o tornava diferente do homem que amava e por isso um oposto interessante para o senhor Kinney, o complemento perfeito.
E que dizer das mulheres? Quem não queria ter uma Debbie Novotny por perto, como mãe, amiga, vizinha, tia ou simplesmente a atendente da lanchonete? Com seu jeito estriônico e extravagante, por muitas vezes enlouquecedor, mas sempre amável, alegre, otimista, transparente e acolhedora, lutando pelos direitos daqueles a quem ama e até pelos que não conhece? Eu queria.
Quem não queria ter uma mãe doce, afetuosa e compreensiva? Que mesmo assustada e sem entender direito a sexualidade e atitudes do filho adolescente, que começa a se descobrir homossexual, se tornando arredio e agressivo, tenta manter a serenidade e apoiar o filho em seu novo e tortuoso caminho. Quem não queria uma mãe como Jennifer? Eu queria.
Amigas como Lindsay e Mellanie, um casal sólido e seguro, mães de família, responsáveis, apaixonadas, politizadas, refinadas e generosas. Quem não queria amigas assim? Eu queria.
E como não citar a querida Daphne, uma fofa. Amadureceu com o amigo Justin. De garota feinha que perdeu a virgindade com o amigo gay e até se apaixonou por ele, tornou-se uma linda mulher, sempre presente e apoiando-o nos momentos mais importantes. Eu queria uma Daphne pra mim também.
Das cenas e situações mais marcantes é impossível citar todas, mas a dança de Bryan e Justin em sua festa de formatura foi demais, uma cena que sonhei protagonizar em toda minha vida e nunca houve, pelo menos até agora. As interpretações, a trilha sonora, a echarpe de seda branca, meu coração palpitando de emoção, foi tudo perfeito!
A festa de aniversário surpresa que Bryan dá a Michael, convidando uma colega de trabalho dele que acreditava que ele fosse hétero, apenas para desmascará-lo na frente dela, com o intuito de magoá-lo e fazê-lo se afastar de si, após pedido de Debbie para que o deixasse ser feliz com David, o então namorado. Uma atitude bem ao estilo Bryan de ser.
Dois momentos marcantes com Emmett e George, o namorado idoso do primeiro: um, quando Em leva seu "coroa" milionário a Babyllon e o apresenta aos demais amigos. Momento em que George mostra toda a sabedoria de um homem vivido e surpreende os rapazes, que já começavam a fazer comentários debochados, cativando-os. Dois, o ataque do coração de George, causando sua morte, após sexo com Emmett no banheiro de um avião.
Ben revelando a Michael que tem aids minutos antes da primeira transa, que não acontece.
Michael descobrindo ser alvo da paixão platônica de Ted, após remexer em suas coisas e encontrar fotos suas.
Bryan contando ao pai que é gay, e depois disso o velho vai visitá-lo e por acaso conhece o neto.
David e Michael refazendo a cena de "A dama e o vagabundo", em jantar na casa de Debbie, onde os dois vão sugando um fio de espaguete até unirem seus lábios em um beijo.
Todos os amigos unindo-se para juntar dinheiro com a intenção de ajudar Bryan, que vendeu quase tudo que tinha de valor pra pagar uma campanha publicitária que derrubasse o candidato a prefeito homofóbico que ele mesmo ajudou a se candidatar com grande margem de votos. Cena linda e emocionante, onde todos os amigos contribuíram para retribuir ao cara que sempre se sacrifica pelos outros sem deixá-los saber.
Justin escolhendo ficar com Ethan e abandonando Bryan.
Debbie esbofeteando Bryan no velório de Vic.
Bryan contando a Debbie que tem câncer.
Bryan superando as limitações físicas de sua doença e chegando do Canadá a Pittsburg sozinho de bicicleta, apenas com o apoio moral de Michael, sendo recebido por Ben, Debbie e Justin.
A casa de caridade homenageando Vic Grassi, rebatizando-a com seu nome, mais uma obra de Bryan.
Quando Bryan diz "eu te amo" para Justin.
Quando Bryan pede Justin em casamento e mostra a casa que ele comprou pros dois viverem no campo.
Ted confidenciando a Emmett em seu aniversário de 39 anos, que não desejará mais um namorado ou companheiro ao apagar as velas do bolo, porque enquanto ele procurar a pessoa nunca aparecerá e se a pessoa especial nunca aparecer ele ficará bem.
E finalmente a derradeira cena de Bryan dançando no "queijo' da babyllon, sozinho, sem justin, mais uma vez ao som da vibrante e perfeita "Proud".
Chorei e ainda choro, por todas as lições que aprendi com Queer As Folk. Choro porque reflito cada dia que acordo pra uma nova vida, em cada pensamento, cada palavra, cada emoção que essa série provoca na gente. Choro porque ainda estou digerindo esse mar de sentimentos. Choro porque fui arrebatado. Choro porque amei. Porque me entreguei. Choro porque amadureci, assim como Bryan, e amadurecer dói. Choro porque Queer As Folk é vida. A vida como ela é...
domingo, 12 de agosto de 2012
UM CERTO RAMON
Como era belo aquele Ramon! Lembro-me de sua pele branca como leite, as faces rosadas, um corte de cabelo "tigela" mas despenteado sempre. Os olhos de brisa, ou "olhos de ressaca" como diria Machado de Assis. Dentes alvos, sem falhas, perfeitos que armavam aquele tipo de sorriso que te derrete lentamente como manteiga fora da geladeira.
Tinha um ar desligado, como se estivesse sempre fora de órbita, precisando ser chamado a realidade, possivelmente efeito da grande quantidade de maconha que fumava. Não se concentrava nos estudos. Era da turma do fundão. Andava com uns garotos escrotos, mas tinha um bom coração, aparentava ser doce, porém era um tanto quanto transgressor. Um doce transgressor.
Dentre todos os garotos, Ramon era o único que não praticava o bully, isso me encantava ainda mais em sua intrigante personalidade. Tão diferente de Vinícius, seu melhor amigo, praticamente um ogro.
Tantas coisas passavam pela minha cabeça quando pensava em Ramon. Não éramos amigos. Ele não falava comigo, mas alguma coisa em seu olhar dizia que eu podia me aproximar, dizer "olá", me desarmar. E por tantas vezes eu quis falar, cumprimentar, elogiar,mas não saí do lugar, ficava de longe só a observar.
Equivalente a seu charme e beleza feminino, havia Rafaela. Linda, ela provocava inveja nas garotas e arrebatadoras paixões nos garotos. Em mim uma admiração suprema. Em meus devaneios, Ramon e Rafaela eram a síntese da perfeição e formavam o casal mais sensacional de todo o colégio. Queria vê-los juntos, apaixonados, vivendo uma grande e poderosa história de amor. Mas ambos eram muito diferentes. Rafa era princesinha, vaidosa, filhinha de papai. Ramon era irresponsável, lunático, livre. E não, eles não se apaixonaram perdidamente como eu gostaria.
E naquele ano que conheci Ramon, 1997, foi lançado no Brasil ROMEU + JULIETA, a versão de Baz Luhrmann para o clássico de Shakespeare. Uma versão moderna que serviu de inspiração para uma peça da escola dirigida por mim, onde ao escolher Ramon e Rafaela para os papéis principais, teria meu tão sonhando romance avassalador entre os dois.
Todos os envolvidos estavam empolgados com seus respectivos papéis, mas ninguém estava mais nervoso e ansioso do que eu, que além de dirigir também atuaria como o personagem Mercúrio, o melhor amigo de Romeu, que morre tentando defendê-lo e após ser fatalmente ferido, Romeu o agarra em seus braços, soltando um violento grito de revolta e dor, e o carrega no colo numa longa sequencia. Minha expectativa para esse ensaio era tremenda. Imaginar-me nos braços de Ramon era um sonho encantado, que não se realizou.
Após muitas preparações, discussões, palpites e ilusões, o ator principal saiu de cena. Ramon deixou o colégio. Houve rumores de que se afastaria por longo tempo para tratamento numa clínica de usuários de drogas.
Assim, meio James Dean, Ramon sumiu por aí, deixando um rastro de mistério, sedução e transgressão. Deixando em mim uma sensação de alucinação e frustração. Afinal não teria sido tudo uma grande ilusão? Criação da cabeça de um jovem escritor cheio de imaginação? Terá existido mesmo um certo Ramon?
Tinha um ar desligado, como se estivesse sempre fora de órbita, precisando ser chamado a realidade, possivelmente efeito da grande quantidade de maconha que fumava. Não se concentrava nos estudos. Era da turma do fundão. Andava com uns garotos escrotos, mas tinha um bom coração, aparentava ser doce, porém era um tanto quanto transgressor. Um doce transgressor.
Dentre todos os garotos, Ramon era o único que não praticava o bully, isso me encantava ainda mais em sua intrigante personalidade. Tão diferente de Vinícius, seu melhor amigo, praticamente um ogro.
Tantas coisas passavam pela minha cabeça quando pensava em Ramon. Não éramos amigos. Ele não falava comigo, mas alguma coisa em seu olhar dizia que eu podia me aproximar, dizer "olá", me desarmar. E por tantas vezes eu quis falar, cumprimentar, elogiar,mas não saí do lugar, ficava de longe só a observar.
Equivalente a seu charme e beleza feminino, havia Rafaela. Linda, ela provocava inveja nas garotas e arrebatadoras paixões nos garotos. Em mim uma admiração suprema. Em meus devaneios, Ramon e Rafaela eram a síntese da perfeição e formavam o casal mais sensacional de todo o colégio. Queria vê-los juntos, apaixonados, vivendo uma grande e poderosa história de amor. Mas ambos eram muito diferentes. Rafa era princesinha, vaidosa, filhinha de papai. Ramon era irresponsável, lunático, livre. E não, eles não se apaixonaram perdidamente como eu gostaria.
E naquele ano que conheci Ramon, 1997, foi lançado no Brasil ROMEU + JULIETA, a versão de Baz Luhrmann para o clássico de Shakespeare. Uma versão moderna que serviu de inspiração para uma peça da escola dirigida por mim, onde ao escolher Ramon e Rafaela para os papéis principais, teria meu tão sonhando romance avassalador entre os dois.
Todos os envolvidos estavam empolgados com seus respectivos papéis, mas ninguém estava mais nervoso e ansioso do que eu, que além de dirigir também atuaria como o personagem Mercúrio, o melhor amigo de Romeu, que morre tentando defendê-lo e após ser fatalmente ferido, Romeu o agarra em seus braços, soltando um violento grito de revolta e dor, e o carrega no colo numa longa sequencia. Minha expectativa para esse ensaio era tremenda. Imaginar-me nos braços de Ramon era um sonho encantado, que não se realizou.
Após muitas preparações, discussões, palpites e ilusões, o ator principal saiu de cena. Ramon deixou o colégio. Houve rumores de que se afastaria por longo tempo para tratamento numa clínica de usuários de drogas.
Assim, meio James Dean, Ramon sumiu por aí, deixando um rastro de mistério, sedução e transgressão. Deixando em mim uma sensação de alucinação e frustração. Afinal não teria sido tudo uma grande ilusão? Criação da cabeça de um jovem escritor cheio de imaginação? Terá existido mesmo um certo Ramon?
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