domingo, 20 de setembro de 2009
DANCE BEM, DANCE MAL, DANCE SEM PARAR...
Bem que dizem que as melhores coisas acontecem quando a gente não planeja. Acho super chato ficar blogando os acontecimentos do fim de semana, mas hoje tô com uma vontade louca de contar como foi meu sábado inesperadamente divertido.
Meus sábados tem sido geralmente mornos, nublados e sem graça. Ontem foi diferente. Liguei pro amigo Murilo e combinei de passar em sua casa no finalzinho da tarde pra tomarmos um café e colocar o papo em dia, como ele está sempre cheio de novidades, teríamos papo por longas horas, mas o plano era só esse: café, bate-papo, ficaríamos até altas horas vendo tv e depois pegaríamos no sono em qualquer canto da casa. Se fizesse um belo dia hoje, iríamos caminhar em algum parque da cidade ou visitar uma exposição de quadros. Não foi bem assim que aconteceu.
Cheguei em casa de Murilo entre 16:30h e 17:00h, demos um "pulinho" no mercado, preparamos um café e entre um cigarro e outro ele começou a me contar empolgadamente sobre um novo amigo que estava louco pra me apresentar. Depois de uma xícará de café bem forte, algumas fatias de pão trançado recheado de presunto e queijo e um belo pedaço de torta de chocolate abarrotado de recheio e cobertura, começamos a ler poesia, ouvir mensagens do tipo "filtro solar", relembrar os tempos de escola, amores antigos e quando o papo estava começando a querer ficar "deprê" o tal "novo amigo" de Murilo liga avisando que está a caminho.
Tiago, o "novo amigo", já chegou decretando que estava faminto e queria sair pra jantar e que depois do jantar iríamos dançar em uma boate, e não iria aceitar desculpas porque já tinha colocado o nome de nós três na lista e ia ser super legal. Eu e Murilo até que somos fervidos, mas ontem não estávamos muito afim de festa. Enfim, como eu e Murilo ainda somos meio que dois forasteiros aqui em São Paulo, Tiago nos convenceu com a proposta de nos apresentar os lugares mais legais da cidade. Topamos.
A noite começou com um jantar delicioso regado a muita massa, Tiago que é uma simpatia e tem muito bom gosto, nos levou num lugar gostoso e descontraído ali na Haddock Lobo. Depois de um papo super agradável e devidamente alimentados, demos uma esticadinho na SoGo. Por mim se ficasse só no jantar já estaria ótimo, mas Tiago queria mais e ainda bem que ele insistiu, porque a balada foi ótima!!!
Música da melhor, ambiente pequeno, mas sofisticado, pessoas interessantes, companhias adoráveis.
Eu dancei muito, dancei como não dançava há tempos, me acabei na pista até as 05:00 da manhã. Foi demais, quando tocou a última música, fui a loucura, "Viva La Vida" me levou ao frenesí total. Saí de lá com a alma lavada e um sorriso escancarado.
Se fiquei com alguém? Não. Não fiquei com ninguém, apenas dancei, dancei e dancei e isso foi maravilhoso, foi bom demais, não precisei de mais nada!!!
Se eu tivesse que dar um conselho agora pra todos aqueles que estão mal, tristes, chateados ou depressivos por algum motivo, seria esse: DANCE. Sempre que sentir que alguma coisa não tá legal: DANCE. Brigou com alguém querido, perdeu o emprego, tá com problemas financeiros, sentimentais, se acha feio, sem graça, mal amado, carente: DANCE. Você vai esquecer de tudo e se sentir inteiro, mesmo que por poucas horas e faz um bem danado pra alma, pro espírito e pro físico é lógico.
Pode ter certeza, dançando você se ilumina, fica até mais bonito. Tirando uma dorzinha aqui, outra ali pelo corpo no dia seguinte, você só tem a ganhar.
Viu como meu sábado foi sensacional? Quantas porções de coisas eu consegui sentir e passar pra vocês?
Então era isso gente. Fui...
Ah, só mais um lembrete: DANCE BEM, DANCE MAL, DANCE SEM PARAR, DANCE ATÉ SEM SABER DANÇAR.
sexta-feira, 18 de setembro de 2009
ESOTERICES
Decidi escrever de uma vez sobre esse assunto - que já havia me ocorrido em outras ocasiões - depois de assistir, essa semana, uma entrevista no Programa do Jô com um certo Daniel Atalla.
O sujeito, jovem, bem apessoado e vestido de maneira despojada com jeans, tênis e camiseta, longe de parecer um Zé do Caixão, foi apresentado como "bruxo profissional". Assim que Jô o anunciou, meu primeiro impulso foi desligar a tv e tentar dormir, mas como o sono tinha resolvido dar uma voltinha, acabei sucumbindo a entrevista com o tal bruxo.
Daniel é apresentador de um programa de rádio onde aborda assuntos como Terapia holística, Numerologia, Tarot Conceituado no meio esotérico... e tornou-se referência nacional, pelos seus dons naturais e criações holísticas, com mais de vinte mil atendimentos por todo o mundo. Com uma capacidade psíquica e intuitiva nata, começou a jogar tarot aos nove anos de idade e estudar a filosofia do I Ching. Mais tarde, se aperfeiçoou com as Runas e o Baralho Cigano. Em seguida conheceu a Bruxaria e se tornou praticante da Antiga Arte até atingir o Grau Máximo de Sacerdote e Mago de Magia Natural. Estudou vários tipos de magia, dentre elas, a cigana, celta e africana.
Apesar de todo esse extenso currículo, o assunto que permeou toda a entrevista foi a fisiognomonia. Não meus amigos, fisiognomonia não é o estudo dos gnomos mas sim a leitura dos traços da face. Daniel Atalla também é um estudioso de fisiognomonia, ele consegue ler determinadas características da personalidade de alguém apenas pelos traços da face. Não é fantástico?
Olha que interessante: quem tem covinha no queixo é dominador; covinha nas bochechas é carência; orelhas de abano significa insegurança; nariz grande, pessoa autoritária e assim por diante...
Tudo isso é só pra reafirmar minha posição sobre este assunto por vezes tão polêmico. Nunca acreditei, não acredito e continuarei não acreditando em bruxas, feiticeiras, ciganas, bolas de cristal, tarot, leitura de mãos, superstições, astrologia, previsões, destino e etc.
Mesmo sem acreditar, confesso que a título de curiosidade e até pra confirmar minha teoria de que todos não passam de charlatões, já passei por algumas experiências esotéricas. Além de curtir dar uma espiadinha de vez em quando na página de astrologia do jornal, pois as vezes algumas coisas coincidem e gosto de imaginar como seria bom se tudo que está escrito ali pra acontecer, acontecesse realmente, houve dois episódios interessantes na minha vida que gostaria de relatar aqui.
A primeira vez, estava eu, acompanhado de uma velha e inesquecível amiga, Vívian (onde está você agora?), rodeado de uma gente descolada, moderna e super prafrentex na mesa de um inferninho bem badalado, tentando me situar, pela primeira vez num lugar como aquele.
Vívian super enturmada querendo me apresentar todo mundo e de repente surge Lucas. Uma figura meio gótica, bastante imponente, alto, forte, todo vestido de preto, me é apresentado como bruxo. Dou uma risadinha amarela e ele pede que eu estenda minha mão para que possa lê-la. Fiquei tenso. Em meio a tentos olhares em cima de mim, a fumaça do ambiente, o tom avermelhado das luzes, um estranho belo e intimidador pedindo para ler minha mão, algo em que nunca acreditei. Tremi na base, mas acabei cedendo.
Lucas examinou a palma de minha mão por alguns segundos, respirou fundo e olhando profundamente nos meus olhos sentenciou:
-Você é muito misterioso.
Dei outro sorriso amarelo, mas tinha gostado de ouvir aquilo, ser misterioso dá um ar de sedução a qualquer pessoa.
Prosseguindo ele disse:
-Você não quer que eu continue, quer?
Como ele sabia? Eu realmente não queria que ele continuasse. Tinha medo de que falasse algo verdadeiro e minhas convicções caíssem todas por terra. Mas respondi:
-Você que sabe.
Ele fechou minha mão com delicadeza e com uma docilidade encantadora falou:
-Você ainda não está preparado para ouvir.
O que será que ele tinha a dizer?
Lucas foi tão perfeito no papel que criou para si, que me convenceu aquela noite, e por muito tempo eu fantasiei que ele era realmente um charmoso bruxo que tinha aparecido em minha vida pra revelar algo de especial, como num conto de Shakespeare.
Anos mais tarde, movido mais uma vez pela curiosidade e incentivado por outra amiga, Milena, fomos jantar em um restaurante Árabe, com o único objetivo de ao final da refeição tomar um cafezinho para ter nossa sorte lida na borra do mesmo, por uma mulher devidamente paramentada para esta função.
Num canto do restaurante, vestida de odalisca a mulher bebericava um drink azul esperando a hora de começar seu trabalho. Tinha em sua mesa uma bola de cristal, incenso e um ramo de arruda. Eu, que já havia acabado minha refeição, observava tudo atentamente, cada detalhe. A mulher tinha cara de charlatã, não passava nenhuma credibilidade, mesmo assim eu estava ancioso pela minha vez. Já havia tomado meu café, colocado o pires de cabeça pra baixo como tem que ser, mas ainda tinham 10 pessoas na minha frente.
Por fim, quando chegou minha vez, ela fez todas as perguntas de praxe, esperando que eu desse a ela informações para que pudesse começar a falar sobre mim, como eles costumam fazer sempre. Como eu já conhecia esse truque, tentei falar o menos possível. Ainda assim ela conseguiu me deixar um pouco impessionado, descrevendo alguns traços muito particulares de minha personalidade. Começou dizendo o seguinte:
- Você é muito ligado a arte não é?
Bingo, acertou em cheio! Será que deu pra ver só pela minha cara? Eu não tinha dito nada que pudesse dar a ela essa impressão.
- Ainda continua com a ideia de ir pro Rio de Janeiro?
É, dessa vez não deu, bola fora total. Eu nunca quis ir pro Rio de Janeiro, mas ela tentou adivinhar pela lógica, se eu queria estudar e trabalhar com algo ligado as artes o mais provável é que eu tivesse vontade de ir pro Rio. Depois dessa pensei que ela iria só falar besteira, mas ela deu a volta por cima e conseguiu me deixar meio atônito.
Ao término da sessão saí daquele restaurante com dois pensamentos:
1) Aquela mulher tinha feito a lição de casa direitinho.
2) Seria tão bom se fosse verdade. Se algumas pessoas realmente tivessem esse dom.
Infelizmente, tudo não passa de uma grande e falsa ilusão. Como o ser humano é feito de sonhos, sempre vai haver aqueles que continuarão sonhando com esta ilusão e os que vão continuar iludindo estes sonhadores.
domingo, 23 de agosto de 2009
PERFUMES DE MIM
Esse cheiro de céu, é assim, meio que inexplicável, como o sorvete com gosto de rosa que tomei a alguns anos atrás e até hoje não saiu da minha memória.
Os lugares que nos levam, as lembranças que nos trazem, as sensações muitas vezes mágicas e indescritíveis que os aromas e sabores da vida nos provocam, tem um quê de fantástico, surreal e encantado.
Como explicar um cheiro de céu ou um sorvete com sabor de rosas?
Por outro lado, aromas simples e corriqueiros também podem nos proporcionar sensações fabulosas.
Terra molhada; capim; maresia; o cheiro do bolo que se espalha pela casa toda; alecrim; hortelã; essência de baunilha; cheirinho de bebê; roupa limpa; o café recém passado; um bom vinho tinto; o churrasco do vizinho - que é sempre mais cheiroso que o nosso -; protetor solar; hálito fresco...
Tem ainda aqueles cheirinhos que um dia fez parte da vida da gente, mas ficou no passado guardados numa caixinha de lembranças doce e emocional.
Aquela fralda que você não largava por nada quando era criança. Um cheirinho único, de inoscência.
Aquele perfume inesquecível, perdido em algum canto da memória que quando menos se espera vem a tona e reconstitui os mais perfeitos momentos.
Eu que já viajei muito, morei em diversos lugares diferentes e deixei em cada um uma lembrança, uma saudade, vira e mexe volto no tempo e me perco em devaneios ao me deixar levar pelas recordações lúdicas do passado que alguns aromas me proporcionam. Como da vez em que estava escolhendo um perfume numa loja em shopping da gélida Curitiba e entre uma borrifada e outra um cheiro tropical de relva e frutas me levou imediatamente de volta a tórrida Aracaju, em uma noite quente de luar num barzinho a beira mar, reunido com amigos especiais entre um drink colorido e outro celebrando a amizade. Emoção e nostalgia dilacerantes me envolveram instantaneamente e me levaram pra bem longe daquele shopping por longos minutos e a saudade que até hoje me acompanha foi então suavizada.
Outros cheiros nos proporcionam recordações de momentos que sequer vivemos, suscita-nos apenas o desejo de ter vivido aquilo. No meu caso sempre que entro em uma casa com cheirinho de bolo - coisa que aliás adoro - imagino-me entrando em uma casinha de madeira cor de rosa, com cortinas de babados nas janelas. Tenho um ramalhete de flores do campo nas mãos e uma senhora gordinha de vestido branco rodado, que é a cara da dona Benta, está sentada em uma cadeira de balanço fazendo crochê, com suas cãs presas em um imponente coque milimétricamente emoldurado em sua cabeça. Essa senhora é supostamente minha avó. Uma avó de contos infantis que nunca tive, mas sempre desejei.
Em O cheiro de Deus, livro de Roberto Drummond, a personagem protagonista vó Inácia Micaela, é uma senhora cega que vive sozinha, afastada de todos e certo dia sente a presença de Deus através de seu cheiro. Que cheiro é esse e como se dá esse encontro, sinceramente não sei pois ainda não li o livro, mas me pergunto como seria o cheiro de Deus descrito na história e teria realmente Ele algum cheiro se surgisse entre nós?
Teria o Todo Poderoso perfume de flores ou aquele inexplicável cheiro de céu?
Ainda há os odores desagradáveis para muitos mas que estranhamente para alguns como eu são deliciosos. Gasolina e cola de sapateiro são dois cheiros que fazem parte de uma excêntrica preferência olfativa minha, logicamente que em doses homeopáticas senão quem estaria lhes escrevendo seria um alucinado viciado em cola e seus derivados o que definitivamente não é meu caso, mas quando vou a um sapateiro ou posto de gasolina abastecer respiro mais fundo por alguns segundos e me deixo inebriar por esses peculiares aromas.
Metafóricos ou reais, amadeirados, doces, frutados, esquisitos... É indiscutível as poderosas sensações que os aromas provocam em nossos sentidos.
Os lugares que nos levam, as lembranças que nos trazem, as sensações muitas vezes mágicas e indescritíveis que os aromas e sabores da vida nos provocam, tem um quê de fantástico, surreal e encantado.
Como explicar um cheiro de céu ou um sorvete com sabor de rosas?
Por outro lado, aromas simples e corriqueiros também podem nos proporcionar sensações fabulosas.
Terra molhada; capim; maresia; o cheiro do bolo que se espalha pela casa toda; alecrim; hortelã; essência de baunilha; cheirinho de bebê; roupa limpa; o café recém passado; um bom vinho tinto; o churrasco do vizinho - que é sempre mais cheiroso que o nosso -; protetor solar; hálito fresco...
Tem ainda aqueles cheirinhos que um dia fez parte da vida da gente, mas ficou no passado guardados numa caixinha de lembranças doce e emocional.
Aquela fralda que você não largava por nada quando era criança. Um cheirinho único, de inoscência.
Aquele perfume inesquecível, perdido em algum canto da memória que quando menos se espera vem a tona e reconstitui os mais perfeitos momentos.
Eu que já viajei muito, morei em diversos lugares diferentes e deixei em cada um uma lembrança, uma saudade, vira e mexe volto no tempo e me perco em devaneios ao me deixar levar pelas recordações lúdicas do passado que alguns aromas me proporcionam. Como da vez em que estava escolhendo um perfume numa loja em shopping da gélida Curitiba e entre uma borrifada e outra um cheiro tropical de relva e frutas me levou imediatamente de volta a tórrida Aracaju, em uma noite quente de luar num barzinho a beira mar, reunido com amigos especiais entre um drink colorido e outro celebrando a amizade. Emoção e nostalgia dilacerantes me envolveram instantaneamente e me levaram pra bem longe daquele shopping por longos minutos e a saudade que até hoje me acompanha foi então suavizada.
Outros cheiros nos proporcionam recordações de momentos que sequer vivemos, suscita-nos apenas o desejo de ter vivido aquilo. No meu caso sempre que entro em uma casa com cheirinho de bolo - coisa que aliás adoro - imagino-me entrando em uma casinha de madeira cor de rosa, com cortinas de babados nas janelas. Tenho um ramalhete de flores do campo nas mãos e uma senhora gordinha de vestido branco rodado, que é a cara da dona Benta, está sentada em uma cadeira de balanço fazendo crochê, com suas cãs presas em um imponente coque milimétricamente emoldurado em sua cabeça. Essa senhora é supostamente minha avó. Uma avó de contos infantis que nunca tive, mas sempre desejei.
Em O cheiro de Deus, livro de Roberto Drummond, a personagem protagonista vó Inácia Micaela, é uma senhora cega que vive sozinha, afastada de todos e certo dia sente a presença de Deus através de seu cheiro. Que cheiro é esse e como se dá esse encontro, sinceramente não sei pois ainda não li o livro, mas me pergunto como seria o cheiro de Deus descrito na história e teria realmente Ele algum cheiro se surgisse entre nós?
Teria o Todo Poderoso perfume de flores ou aquele inexplicável cheiro de céu?
Ainda há os odores desagradáveis para muitos mas que estranhamente para alguns como eu são deliciosos. Gasolina e cola de sapateiro são dois cheiros que fazem parte de uma excêntrica preferência olfativa minha, logicamente que em doses homeopáticas senão quem estaria lhes escrevendo seria um alucinado viciado em cola e seus derivados o que definitivamente não é meu caso, mas quando vou a um sapateiro ou posto de gasolina abastecer respiro mais fundo por alguns segundos e me deixo inebriar por esses peculiares aromas.
Metafóricos ou reais, amadeirados, doces, frutados, esquisitos... É indiscutível as poderosas sensações que os aromas provocam em nossos sentidos.
quarta-feira, 19 de agosto de 2009
FÁBULA
Era um homem, um homem comum, que um comum destino parecia controlar inteiramente. Um animal doméstico bem treinado.
Um dia sentiu um incômodo nos dois ombros, distenção muscular, má posição no trabalho... Foi piorando e resolveu olhar-se no espelho, de lado, inteiro e nu, depois do banho: não havia dúvida, duas saliências oblíquas apareciam em sua pele abaixo dos ombros. Teve medo mas decediu não comentar com ninguém, e como não transava frequentemente com a mulher, conseguiu esconder tudo quase um mês.
Fez como via fazer sua mulher: pegou de cima da pia um espelho redondo no qual ela ajeitava o cabelo e passou a analisar todo dia aquele fenômeno que em vez de o assustar agora o intrigava. Curioso mas sem sofrer - pois não doía -, foi observando aquilo crescer.
E pensava:
Nem adianta ir ao médico, porque se for um tumor (ou dois) tão grande, não tem mais remédio, é melhor morrer inteiro do que cortado.
Certa vez, quando se masturbava no banheiro, na hora do prazer sentiu que elas enfim se lançavam de suas costas e viu-se enfeitado com elas, desdobradas como as asas de um cisne que apenas tivesse dormido e, acordando, se espojasse sobre as águas.
Ficou ali, nu diante do espelho, estarrecido.
Agora ele não era apenas um homem comum com contas a pagar, emprego a cumprir, família a sustentar, filhos a levar para o parque, horários a cumprir: era um homem com um encantamento.
Eram umas asas muito práticas aquelas, porque desde que usasse camisa um pouco larga acomodavam-se maravilhosamente embaixo das roupas. Em certas noites, quando todos dormiam, ele saía para o terraço, tirava a roupa e varava os ares.
Sua mulher notou alguma coisa diferente no corpo de seu marido. Estava ficando curvado, tantas horas na mesa de trabalho. Nada mais que isso. Embora a mãe lhe tivesse dito que "com homem é sempre melhor confiar desconfiando", daquele seu homem pacato ela jamais imaginaria nada muito singular.
- Você vai acabar corcunda desse jeito, aprume-se - ela dizia no seu tom de desaprovação conjugal.
As coisas se complicaram quando, já habituado a sua nova condição, o homem anjo olhou em torno e, sendo ainda apenas um homem com asas, sentiu-se muito só, e começou a pensar nisso. E olhou em torno e se apaixonou.
Na primeira noite com sua amante, esqueceu o problema, tirou a roupa toda, e quando ela começava a apalpar-lhe as costas o par de asas se abriu, arqueou-se abrindo as pontas bem no alto por cima dele, na hora do supremo prazer.
Mas essa mulher/amante não se assustou, não se afastou. Apertou-se mais a ele, e dizia: vem comigo, vem comigo, vem comigo...
E abriu suas asas também.
Moral da história: os iguais se reconhecem mesmo inconscientemente.
Um dia sentiu um incômodo nos dois ombros, distenção muscular, má posição no trabalho... Foi piorando e resolveu olhar-se no espelho, de lado, inteiro e nu, depois do banho: não havia dúvida, duas saliências oblíquas apareciam em sua pele abaixo dos ombros. Teve medo mas decediu não comentar com ninguém, e como não transava frequentemente com a mulher, conseguiu esconder tudo quase um mês.
Fez como via fazer sua mulher: pegou de cima da pia um espelho redondo no qual ela ajeitava o cabelo e passou a analisar todo dia aquele fenômeno que em vez de o assustar agora o intrigava. Curioso mas sem sofrer - pois não doía -, foi observando aquilo crescer.
E pensava:
Nem adianta ir ao médico, porque se for um tumor (ou dois) tão grande, não tem mais remédio, é melhor morrer inteiro do que cortado.
Certa vez, quando se masturbava no banheiro, na hora do prazer sentiu que elas enfim se lançavam de suas costas e viu-se enfeitado com elas, desdobradas como as asas de um cisne que apenas tivesse dormido e, acordando, se espojasse sobre as águas.
Ficou ali, nu diante do espelho, estarrecido.
Agora ele não era apenas um homem comum com contas a pagar, emprego a cumprir, família a sustentar, filhos a levar para o parque, horários a cumprir: era um homem com um encantamento.
Eram umas asas muito práticas aquelas, porque desde que usasse camisa um pouco larga acomodavam-se maravilhosamente embaixo das roupas. Em certas noites, quando todos dormiam, ele saía para o terraço, tirava a roupa e varava os ares.
Sua mulher notou alguma coisa diferente no corpo de seu marido. Estava ficando curvado, tantas horas na mesa de trabalho. Nada mais que isso. Embora a mãe lhe tivesse dito que "com homem é sempre melhor confiar desconfiando", daquele seu homem pacato ela jamais imaginaria nada muito singular.
- Você vai acabar corcunda desse jeito, aprume-se - ela dizia no seu tom de desaprovação conjugal.
As coisas se complicaram quando, já habituado a sua nova condição, o homem anjo olhou em torno e, sendo ainda apenas um homem com asas, sentiu-se muito só, e começou a pensar nisso. E olhou em torno e se apaixonou.
Na primeira noite com sua amante, esqueceu o problema, tirou a roupa toda, e quando ela começava a apalpar-lhe as costas o par de asas se abriu, arqueou-se abrindo as pontas bem no alto por cima dele, na hora do supremo prazer.
Mas essa mulher/amante não se assustou, não se afastou. Apertou-se mais a ele, e dizia: vem comigo, vem comigo, vem comigo...
E abriu suas asas também.
Moral da história: os iguais se reconhecem mesmo inconscientemente.
domingo, 16 de agosto de 2009
28 PRIMAVERAS
Tenho 28 anos, rescém completados na última terça-feira, 11 e comemorados ontem, sábado 15.
A comemoração: balada tipicamente gls com direito a muitos shows performáticos de drags, música techno, casa lotada, alguns amigos, bebidas noite adentro, um suposto amor platônico e a incômoda sensação de que tudo continua igual.
Nada de especial. Não houve fogos de artifício, os sinos não tocaram e o tão desejado beijo não aconteceu.
Quase 30. É engraçado e tranquilizador como digo isso hoje sem o mesmo pavor que me acometia á 3 anos atrás, serenidade talvez ou conformação pura e simplesmente. Não sou mais o adolescente sonhador e romântico de 15 anos, que podia dar-se ao luxo de dizer que ainda tinha muito tempo pela frente. Ainda tenho tempo, apenas isso, o muito definitivamente ficou pra trás. E o que fazer com ele agora?
Estou me esvaziando de tudo que passou pra poder receber esse novo tempo com plenitude e sabedoria. Uma nova fase se descortina agora em minha frente, vou agarrá-la com tranquilidade, longe da ansiedade e do desespero que me acompanharam por tanto tempo. Seriam coisas da idade ou simplesmente reflexos de uma personalidade insegura? Não importa. O que importa é que me sinto menos ansioso, fruto de um amadurecimento gradativo, coroado depois da festa de ontem, acabo de constatar isso.
O que aconteceu na festa de tão especial para que chegasse a essa conclusão?
Tudo e nada.
Nada de especial como já disse. Nenhum fogo de artifício, nenhum sino, nenhum olhar apaixonado, nenhum beijo de amor. Fluidos corporais trocados as pressas com furor e desespero não fazem mais a minha cabeça - estou passando da idade - mas na verdade nunca fizeram, sempre procurei envolvimentos mais profundos em todos os sentidos da vida. Já olhei pra toda aquela gente cheia de pose e sem nenhum conteúdo com raiva, desprezo, revolta, tristeza, amargura... Ontem não, apenas as enxerguei como realmente são e constatei que são completamente o oposto de mim, de tudo que desejo e acredito, nem melhores, nem piores, apenas diferentes, muito diferentes e e isso é tudo, poder enxergar as diferenças que te desagrada nos outros sem aquele ranço de ressentimento, quando a grama do outro lhe parece mais verde e atraente que a sua. Acho que isso pode-se chamar de amadurecimento. Isso sem contar que o papo mais interessante que tive ontem foi com um senhor simpaticíssimo de uns 50 anos mais ou menos, que conheci no bar entre um show e outro.
Pessoas mais velhas sempre me atraíram desde criança, aos 15 anos tinha amigos maravilhosos de 40, acho que isso contribuiu muito pro desenvolvimento do meu intelecto e me tornou assim um tanto quanto mais exigente em relação aos amores e as amizades.
Então termino essa postagem e começo essa nova fase citando um trecho do livro da Lya Luft que comecei a ler hoje, Perdas & Ganhos: "Pois viver deveria ser - até o último pensamento e o derradeiro olhar - transformar-se."
APENAS UMA FRASE
"A dor é inevitável o sofrimento é opcional."
sábado, 15 de agosto de 2009
segunda-feira, 10 de agosto de 2009
LIVRO
Acabo de ler Para sempre teu, Caio F., um delicioso e melancólico livro de cartas, conversas e memórias do escritor gaúcho, morto de aids em 1996, Caio Fernando Abreu. Escrito pela jornalista, grande amiga e companheira de Caio, Paula Dip, o livro é uma emocionante e envolvente viagem pela vida curta e intensa do escritor.
Ácido, irônico e extremamente dramático, Caio se aprofundava nas coisas e sentimentos mais simples da vida até sangrar, ele e o leitor de suas crônicas e contos tão corrosivos e reais. Caio deixava o nervo exposto e lutou com todas as forças até a última gota para sentir-se feliz e pleno antes de partir.
Pra mim, Caio foi como uma espécie de Cazuza -de quem era amigo- da literatura. Para quem não o conhece, acho que essa seria a melhor definição rápida sobre a vida e obra dele.
O livro com pouco mais de 500 páginas acaba e você nem sente, pelo menos eu não senti.
Recomendo o livro e as obras de Caio para quem gosta de contos e literatura de muitíssima qualidade e pra quem se interessa em conhecer um pouco mais a vida de artistas geniais e atormentados, que nos lavam a alma cantando, atuando ou escrevendo sobre tudo aquilo que não conseguimos verbalizar.
Só pra dar água na boca, reproduzo abaixo o trecho de uma carta escrita por Caio para a amiga Paula em uma temporada que ele viveu em Paris. Reparem se não é uma delícia:
Paris, 15 de abril de 1994.
"...Viver é bom demais, dear Deep. E veloz, meio gincana, ás vezes. Pegue tudo a que você tem direito, e nós temos direito a absolutamente tudo de bom. Porque há sangue em Ruanda, em Sarajevo, e outra vez na Palestina, há adolescentes mendigos lindíssimos pedindo esmolas pelos metrôs de Paris e estudantes em fúria pelas ruas - por tudo que há de mau no mundo, nós merecemos o máximo do bom. Sem culpa. On y va!
Ando mais bambi do que jamais, me dou pequenos presentinhos, faço tudo o que tenho vontade: me gratifico o tempo todo. E não existe outra cidade como Paris para você gratificar-se. Há alamedas inteiras de cerejeiras floridas, você passa por baixo e entra numa espécie de túnel pink - veadíssimo, voilá, ma troppo bello! -, há vitrines indianas, japonesas, javanesas, balinesas, para você se deter e ficar olhando a prata, as esmeraldas, as sedas. Descobri uma boutique só de sedas em Saint-Germain, outro dia passei uma hora inteira metido lá dentro, só tocando e sentindo, uma espécie de tesão na ponta dos dedos. Wow!
Que frenesí dos sentidos Paris me dá, Paula Dip.
Pedalices à parte, tout ça marche trés, trés bien. Os livros são um sucesso! Ganhei meia página a cores no L'Express, a Veja (com ética) daqui, uma foto em P&B com texto elogioso numa revista chic chamada Les Inrockuptibles, o programa de tv foi ótimo (eu estava numa simpatia devastadora), fui convidado para outro - Cercle de Minuit, um outro Jô daqui - no dia 25. Outro dia um menino me parou na rua do Louvre e me pediu um autógrafo. Eu, a Laika: "Mas porquoi moi?" Ele tinha visto o programa de tv, comprou Dulce V., adorou, deu para os amigos (o livro, mas talvez não só...). Eh bien, dei o autógrafo. Aí perguntei o nome dele. Ele respondeu "Damour". Eu: "Pardon?" Damour, não é que o garoto me deu um cartão, é pintor - chamava-se mesmo Damour? Há sinais pelas esquinas, dou autógrafos para o Amor na rua do Louvre e se alguém vier me falar mal da vida nestes dias que correm, eu juro que lhe parto a cara..."
A carta é longa, mas isso foi só pra dar um gostinho. Agora se depois de ler esse trecho você não tiver sentido pelo menos uma pontinha de vontade de conhecer Paris ou voltar, se já esteve lá, não leia o livro, você não vai sentir nada em nenhuma página.
Ácido, irônico e extremamente dramático, Caio se aprofundava nas coisas e sentimentos mais simples da vida até sangrar, ele e o leitor de suas crônicas e contos tão corrosivos e reais. Caio deixava o nervo exposto e lutou com todas as forças até a última gota para sentir-se feliz e pleno antes de partir.
Pra mim, Caio foi como uma espécie de Cazuza -de quem era amigo- da literatura. Para quem não o conhece, acho que essa seria a melhor definição rápida sobre a vida e obra dele.
O livro com pouco mais de 500 páginas acaba e você nem sente, pelo menos eu não senti.
Recomendo o livro e as obras de Caio para quem gosta de contos e literatura de muitíssima qualidade e pra quem se interessa em conhecer um pouco mais a vida de artistas geniais e atormentados, que nos lavam a alma cantando, atuando ou escrevendo sobre tudo aquilo que não conseguimos verbalizar.
Só pra dar água na boca, reproduzo abaixo o trecho de uma carta escrita por Caio para a amiga Paula em uma temporada que ele viveu em Paris. Reparem se não é uma delícia:
Paris, 15 de abril de 1994.
"...Viver é bom demais, dear Deep. E veloz, meio gincana, ás vezes. Pegue tudo a que você tem direito, e nós temos direito a absolutamente tudo de bom. Porque há sangue em Ruanda, em Sarajevo, e outra vez na Palestina, há adolescentes mendigos lindíssimos pedindo esmolas pelos metrôs de Paris e estudantes em fúria pelas ruas - por tudo que há de mau no mundo, nós merecemos o máximo do bom. Sem culpa. On y va!
Ando mais bambi do que jamais, me dou pequenos presentinhos, faço tudo o que tenho vontade: me gratifico o tempo todo. E não existe outra cidade como Paris para você gratificar-se. Há alamedas inteiras de cerejeiras floridas, você passa por baixo e entra numa espécie de túnel pink - veadíssimo, voilá, ma troppo bello! -, há vitrines indianas, japonesas, javanesas, balinesas, para você se deter e ficar olhando a prata, as esmeraldas, as sedas. Descobri uma boutique só de sedas em Saint-Germain, outro dia passei uma hora inteira metido lá dentro, só tocando e sentindo, uma espécie de tesão na ponta dos dedos. Wow!
Que frenesí dos sentidos Paris me dá, Paula Dip.
Pedalices à parte, tout ça marche trés, trés bien. Os livros são um sucesso! Ganhei meia página a cores no L'Express, a Veja (com ética) daqui, uma foto em P&B com texto elogioso numa revista chic chamada Les Inrockuptibles, o programa de tv foi ótimo (eu estava numa simpatia devastadora), fui convidado para outro - Cercle de Minuit, um outro Jô daqui - no dia 25. Outro dia um menino me parou na rua do Louvre e me pediu um autógrafo. Eu, a Laika: "Mas porquoi moi?" Ele tinha visto o programa de tv, comprou Dulce V., adorou, deu para os amigos (o livro, mas talvez não só...). Eh bien, dei o autógrafo. Aí perguntei o nome dele. Ele respondeu "Damour". Eu: "Pardon?" Damour, não é que o garoto me deu um cartão, é pintor - chamava-se mesmo Damour? Há sinais pelas esquinas, dou autógrafos para o Amor na rua do Louvre e se alguém vier me falar mal da vida nestes dias que correm, eu juro que lhe parto a cara..."
A carta é longa, mas isso foi só pra dar um gostinho. Agora se depois de ler esse trecho você não tiver sentido pelo menos uma pontinha de vontade de conhecer Paris ou voltar, se já esteve lá, não leia o livro, você não vai sentir nada em nenhuma página.
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