segunda-feira, 8 de fevereiro de 2010

COLETÂNEA PARTICULAR

Sempre fui um apaixonado por novelas e suas trilhas. Temas que fazem a imaginação voar e associar de imediato os personagens as suas respectivas canções.

Como a vida real não dura apenas os 8 meses que uma trama costuma permanecer no ar, ao longo dos anos vamos criando nossas próprias trilhas, músicas que embalam nossos momentos especiais, tristes, alegres, solitários e marcantes.

Não raro elegemos nossas canções favoritas quando ela está diretamente ligada a uma novela e sua bela história de amor. Aí você escuta aquela música, lembra da novela tal, que era tema de um casal marailhoso e lembra que suspirava toda vez que ela tocava. Essa lembrança por sua vez te remete a seu momento de vida pessoal e algumas coisas que talvez estivessem esquecidas volte a sua mente como um jorro de boas recordações e uma grande e incrível viagem é feita em questão de minutos.

Esse é o poder que a música tem e se for um tema de novela então..., se torna ainda mais poderosa.

Como amo muito tudo isso e já fui um colecionador voraz de trilhas sonoras, peguei emprestada a ideia de um amigo blogueiro, o Vítor do Eu prefiro melão, e resolvi, assim como ele, também fazer uma lista com meus 20 temas de novelas nacionais preferidos e inesquecíveis. Não esqueçam essa é uma lista particular, são as melhores na minha opinião.

Aleatóriamente e sem seguir uma ordem de preferência, são elas:



1) OCEANO (Djavan): Tema de Lucas e Duda em TOP MODEL de 1989, não houve quem não se apaixonasse pela música doce e triste de um completamente desconhecido Djavan, pelo menos para mim, que na época tinha apenas inocentes 8 aninhos. Mas com a sensibilidade já aguçada conseguia entender o quão forte era o amor de Duda e Lucas sempre que Oceano entrava em cena embalando o romance complicado dos protagonistas vividos por Malu Mader e Taumaturgo Ferreira, que também formavam um lindo casal na vida real.



2) DONA (Roupa Nova): Tema da personagem mais memorável de Regina Duarte. Em ROQUE SANTEIRO de 1985, a viúva Porcina com a canção entoada pelo grupo musical mais novelístico de todos os tempos, tornou-se sinônimo de poder, força, atitude e determinação. Dona é uma canção pulsante, com sangue, cheia de energia, mas ao memsotempo cantada com toda a doçura peculiar do Roupa Nova. Sem sombra de dúvidas Dona é um hino, ainda hoje, 25 anos depois, de todas as mulheres porretas, donas de seu próprio nariz. E se for empinado, melhor ainda.


3) ENTRE A SERPENTE E A ESTRELA (Zé Ramalho): Com uma letra fulminante, Zé Ramalho entrou de vez para o rol dos artistas com grandes temas de novela em seu repertório ao embalar a relação de amor e ódio entre Pilar Batista e Murilo Pontes, em PEDRA SOBRE PEDRA de 1992, com essa música estraçalha-coração. Renata Sorrah e Lima Duarte serão lembrados sempre, não só pela atuação primorosa na trama de Aguinaldo Silva, mas também por ficarem eternamente divididos entre a serpente e a estrela.



4) VIESTE (Ivan Lins): Essa é um xodó. Uma das músicas mais lindas de Ivan Lins, Vieste é romântica, melancólica e emocionante, caindo como uma luva para o apaixonado Lucas de Leonardo Vieira em SONHO MEU de 1993. Lucas fez de tudo para ficar com sua amada Cláudia e quando ficou separado dela sofreu como um condenado, chorando pelos cantos, lamentando e suspirando, sempre ao som de Vieste. O que fazia qurer pegá-lo no colo e embalá-lo até pegar no sono como um bebê. Oito anos depois em 2001 a música foi magnificamente regravada pelos não menos magníficos Lenine e Nana Caymmi, tornando-se tema de uma outra trama: ESTRELA-GUIA. Dessa vez vez a canção embalava o casalzinho Tony e Crystal, uma dupla menos empolgante que a primeira, mas ainda assim a música me arrepiava. De toda forma continuo preferindo Vieste em sua primeira versão, com Ivan Lins, Lucas, Cláudia e companhia.



5) A MIRAGEM (Marcus Vianna): Romântica ao extremo o tema de Lucas e Jade em O CLONE de 2001 foi feito sob encomenda para o casal inter-racial mais apaixonante das telenovelas. Marcus Vianna, que até então só fazia trilhas instrumentais, colocou uma linda letra em uma fascinante música. Criando um tema clássico para um novelão, Marcus viu sua canção tocar sem parar nas rádios de todo os país merecidamente. A Miragem tornou-se o hino de um amor mais forte que o tempo.



6) MENTIRAS (Adriana Calcanhoto): Depois de ouvir Adriana Calcanhoto embalando as cenas da dissimulada Mariana em RENASCER de 1993 ao som de Mentiras, um véu de novas possibilidades musicais se descortinou diante de mim. Aquela letra ousada e diferente como tema de uma personagem tão ambígua,era avassaladora. "Nada ficou no lugar/Eu quero quebrar essas xícaras/Eu vou enganar o diabo" soava até transgressor. Realmente uma grande e perfeita fusão entre música e personagem.








7) PALPITE (Vanessa Rangel): Música chiclete que fez todo mundo desejar ardentemente viver um romance cheio de aventura e tesão nas alturas, como o de Milena e Nando em POR AMOR de 1997. Ela a mocinha rica e rebelde, ele o piloto de helicóptero que trabalhava pras empressas da família dela. Em comum apenas a paixão pela liberdade e um amor capaz de enfrentar céus e terras. Nando e Milena foi o casal sensação daquele ano de 97, alçando Carolina Ferraz e Eduardo Moscovis ao patamar de grandes estrelas globais. Palpite foi o símbolo de um romance leve, profundo e irresistível, alçando a atualmente sumida Vanessa Rangel, ao patamar de nova estrela da mpb. Se o romance de Nando e Milena foi um doce e delicioso bolo a ser saboreado aos suspiros de satisfação, Palpite foi a cereja que tornou tudo perfeito.








8) AMOR E SEXO (Rita Lee): Nunca antes houve uma letra que descrevesse tão bem as diferenças entre amor e sexo. Como tema de Darlene em CELEBRIDADE de 2003, a composição sacana, inteligente e poética de Arnaldo Jabor, na interpretação cativante e inconfundível de Rita Lee, seduziu o público que torceu muito para que depois de tantas idas e vindas a manicure inconsequente louca pela fama terminasse nos braços de seu bombeirão Vladimir. Mais um marco em trilhas de novelas.










9) A MULHER EM MIM (Roberta Miranda): A linda e apaixonada versão que Roberta Miranda fez de Woman in me, de Shanya Twain, para O AMOR ESTÁ NO AR de 1997, foi tema da pérfida Úrsula, personagem de Nicete Bruno e em minha humilde opinião uma de suas atuações mais marcantes. A mulher em mim traduzia com perfeição a angústia de uma mulher amarga e solitária, eternamente apaixonada por um homem que a despreza justamente por sua arrogância e atitudes inescrupulosas. Os embates entre Úrsula e Candê, a simplória e suburbana esposa de Guima, amor de juventude da vilã, eram deliciosos. E sempre depois de esbravejar, brigar e humilhar Guima e toda sua família, ao se ver sozinha, Úrsula expunha toda sua fragilidade ao som de: A mulher em mim/ Vai então pedir/ Fala de amor/ Ah, me faz ser feliz. E eu me derretia todo com a voz lâguida e melancólica da ultra romântica Roberta Miranda.


10) BELÍSSIMA (Vanessa Barum): Dentre todos os temas escolhidos para esta lista, a canção composta e cantada por uma quase desconhecida Vanessa Barum é realmente uma escolha muito pessoal e particular. A poderosa Belíssima, música de letra forte e contundente caiu como luva para a personagem de Bruna Lombardi em O FIM DO MUNDO de 1996. A mini-novela de apenas 35 capítulos foi concebida para ser uma minissérie e ao contrário do que se divulgou na época, não foi uma super novela. Ainda assim a frágil Gardênia, com seu dilacerante tema, me marcou como ferro em brasa. Belíssima é a típica música realmente só lembrada por ter sido tema de novela, após o término da trama e daquele ano, nunca mais ouviu-se a música nas rádios, nem se soube de sua intérprete, que pelo jeito desistiu de cantar. Mas como esquecer frases como: "Nunca é tarde/ Nunca é cedo/ Quando a angústia te corrói", "A cada passo/ você perde o centro/ E sente saudade", "Se você sucumbe ao medo/ Que vem atormentar teus sonhos/ Ainda resta o fogo humano contra a hipocrisia", "Se alegre como os inocentes/ Não se torne um decadente" e "A paixão só tem coragem/ Se a vontade for valente". Um grande marco em minha vida.



11) CIRANDA DA ROSA VERMELHA (Elba Ramalho): Uma Elba Ramalho cheia de graça e ternura, entoou por muitos capítulos, lá pelos lados de Greenville em A INDOMADA de 1997, a delicada canção que embalou o doce casal Emannuel e Grampola. O deficiente mental e a prostituta que não queria ser, protagonizaram um dos romances mais meigos já visto na tv, sempre ao som de Ciranda da rosa vermelha, que tocou à exaustão, tornando impossível não associar de imediato a música à novela e seus respectivos personagens.



12) UMA NOVA MULHER (Simone): Uma mulher submissa e maltratada pelo marido, que viveu a vida toda no interior de uma cidade tacanha, ganha de presente uma longa viagem para uma grande cidade. Contra a feroz vontade do marido ela vai, com a promessa de quando voltar pagará muito caro. Meses depois a pobre Tonha volta, dando lugar a uma repaginada, linda e poderosa nova mulher. Um tema perfeito, para uma personagem inesquecível, na incrível TIETA de 1989. Na inspirada interpretação de Simone, Uma nova mulher inspirava liberdade e uma vontade louca de dar a volta por cima. Música linda, empolgante e emocionante.









13) PURO ÊXTASE (Barão Vermelho): Vontade de dançar até o amanhecer com o tema da vilã Bruna de ERA UMA VEZ..., novela das 6 mediana que empolgava toda vez que surgia Bruna e sua indefectível musiquinha cantada pelo Barão Vermelho. Eu adorava! Funcionou muito bem pra personagem de Andréa Beltrão em 1998. O que não aconteceu quando requentaram a música para a trilha de CAMINHO DAS ÍNDIAS de 2009 como tema de Duda, simplesmente porque até hoje a música tem a cara de Bruna e ninguém tasca.


14) GARGANTA (Ana Carolina): Para uma personagem forte uma música idem. Garganta, da revelação Ana Carolina de 1999, invadiu a novela ANDANDO NAS NUVENS, as rádios e a vida de milhões de fãs com muito glamour e atitude, servindo de tema para a complicada Júlia Montana de Debora Bloch. Dez anos de carreira depois e após dezenas de temas em novelas, Garganta foi tão poderosa que continua sendo dentre todos o tema mais marcante da imbatível Ana Carolina.





15) COISAS QUE EU SEI (Danni Carlos): Após um início timido como atriz e alguns cd's de cover's gravados, Danni Carlos conquistou milhões de fãs e a mídia com sua doce e personal Coisas que eu sei. Ao ser tema de Júlia em DUAS CARAS de 2007 a canção tornou-se hit, entrando para o rol dos temas inesquecíveis de novelas.







16) CATEDRAL (Zélia Duncan): Mais uma jovem cantora que estréia nas paradas de sucesso com uma deslumbrante música em novela. À época, Zélia Duncan ainda era uma ilustre desconhecida, até surgir com sua voz andrógina em 1995 cantado o tema de Irene e Diego em A PRÓXIMA VÍTIMA. No início achava que era um homem cantando, mas ao ver a tímida Zélia se apresentar no programa da Hebe, entendi que era mais uma "sapa" maravilhosa surgindo no cenário novelístico e MPBístico. E Zélia, assim como Ana Carolina, mesmo após muitas músicas inseridas em novelas, tornou sua Catedral um ícone da teledramaturgia.

17) CUIDE BEM DO SEU AMOR (Os Paralamas do Sucesso):Diana e Alexandre tiveram seu romance embalado por esta bela canção dos Paralamas em SABOR DA PAIXÃO de 2002. A novela era fraca, mas a música maravilhosa, valia a pena assistir alguns capítulos só para escutá-la.










18) SE EU NÃO TE AMASSE TANTO ASSIM (Ivete Sangalo): Composta por Herbert Vianna e interpretada com maestria por Ivete Sangalo, Se eu não te amasse tanto assim entrou na trilha da tresloucada UGA UGA de 2000, como tema do amor pra lá de complicado de Baldocchi e Maria João. Apesar da novela ser uma comédia rasgada, o tema romântico de Ivete fez grande sucesso e emocionou o país.





19) PRÓPRIAS MENTIRAS (Deborah Blando): Em LAÇOS DE FAMÍLIA de 2000, Deborah Blando cantava o tema de Deborah Secco. Duas fantásticas Deborah's, uma interpretando a canção, outra o personagem. Blando voltava aos temas de novela após significativa ausência, arrasando com uma letra que descrevia à perfeição a personagem de Secco, esta em seu melhor papel na pele da atrevida e hiperativa Íris. Ao som de Próprias mentiras Íris protagonizou cenas inesquecíveis ao dançar semi-nua sozinha na frente do espelho. Uma música sofisticada com a qual me identifico muito. "Cuide do seu nariz, você fala demais."




20) VOCÊ ME VIRA A CABEÇA (Alcione): A rainha marrom, Alcione, cantava todo seu romântismo em DA COR DO PECADO de 2004. Abalando corações, o tema de Preta, arrasava com qualquer um por onde tocasse. Até essa canção, não era fã de Alcione, mas após derramar seu coração com uma letra pura-fossa como a de Você me vira a cabeça, a Marrom me ganhou de vez. Impossível ficar imune à uma canção tão visceral. Fechando esta lista com chave de ouro.


Em breve voltarei com a lista das internacionais.

terça-feira, 2 de fevereiro de 2010

PEQUENO MONSTRO - PARTE 4

Continuação da crônica de Caio Fernando Abreu:





O quarto virava um forno depois do almoço. O sol batia no telhado de zinco, ficava tudo fervendo. Pensei que se eu ficasse ali, todo aquele maldito qui-suco ia começar a ferver na minha barriga, até sair uma espuma vermelha pela boca, e cair no chão babujando e me batendo pelas paredes. Podia ser que pelo menos assim alguém no mundo prestasse atenção em mim. Peguei o livro de Tarzan, passei pela cozinha, onde eles coninuavam berrando, fui deitar na rede, embaixo dos ema-momos, onde batia uma fresca. Mas mesmo ali, na sombra boa, não conseguia parar de pensar que a minha vida era um inferno. E que se um dia eu saísse mesmo caminhando reto por cima do mar, mesmo que não pisasse sobre a bosta das águas, que nem Jesus Cristo, ia ser ótimo pra todo mundo se eu afundasse de uma vez e ninguém me encontrasse nunca mais, afogado para sempre no fundo do mar que nem o Titanic. Tentei ler, mas aquela lenga-lenga dos sacerdotes nas cavernas de Opar estava me enchendo um pouco o saco.

Uma cara morena de cabelo preto, me espiava por cima da rede. Uma cara morena muio próxima, um cheiro forte de suor e de mar. Quase gritei, porque logo que abri os olhos e dei com aquela cara e aquele cheiro não lembrei que tinha deitado ali na rede, depois do almoço. Acho que estava sonhando com Jad-Bal-Ja, o leão de ouro, e foi nisso que pensei quando vi aquela cara morena me espiando por cima da rede. Mas toda morena, meio de cigano, não era cara de leão. Era a cara do primo Alex, de sobrancelhas pretas bem cerradas grudadas em cima do nariz. Ele sorriu pra mim, mas a cara estava perto demais, não consegui sorrir de volta nem nada, por educação que fosse. Desviei os olhos para o livro de Tarzan no meu colo, depois franzi as sobrancelhas pra ver se ele se tocava. Mas parece que não se tocou. Empurrou a rede, se afastou um pouco e ficou me olhando enquanto eu balançava feito um idiota, com ele me olhando de braços cruzados e pernas abertas.

- A tia disse que tem um chuveiro aqui fora - ele falou com uma voz meio rouca, mais grossa que a do pai, e muito educada - Pra mim tirar a areia antes de entrar em casa. Onde que é?
- Ali, ó - eu apontei o fundo da casa. Ele me olhou mais um pouco, os braços cruzados. Eu só podia ver a cara dele com os cabelos duros de sal e areia e uns pedaços de corpo que subiam e desciam, com o balanço da rede, as pernas abertas. Pelo menos não usa calção-saia, pensei, aqueles calções de náilon todos largões que estava na cara que uma pessoa que usava um calção desses nunca tinha ido à praia na vida, calção de baiquara. Mas o dele era preto, bem decente até.
- Tu não gosta de ir à praia? - ele perguntou - A tia...
- Não - eu falei. E já sabia, a mãe tinha dio que eu não gostava de ir à praia, que não falava com ninguém, que dormia até a hora do almoço, que ficava trancado no quarto, que dava pontapés na porta e tudo. Ela decerto já tinha contado pra ele: que eu era um monstro. Depois achei que ele não tinha culpa, coitado, ela é que ficava falando sem parar, e tentei ser mais educado. - Só gosto de tardezinha, na hora do pôr-do-sol.
- Ah! - ele disse. E achei bacana ele não dizer mais nada, que deva acordar mais cedo, aproveitar o sol e todas aquelas besteiras. Eu não conseguia olhar direito pra ele, aí estendi uma perna, finquei os dedos do pé na grama e fiz a rede parar de balançar. Então olhei. Ele tornou a rir, uns dentes nuito brancos, ou só pareciam muito brancos porque ele estava super moreno. Não tinha ficado nem um pouco vermelho do sol. Passou a mão pelo peito, pela barriga, pelas pernas, a areia caiu no chão. A voz da mãe gritou lá de dentro pra ele ir almoçar. Eu abri o livro, fiz que ia começar a ler, aí ele riu de novo e foi caminhando devagar pro chuveiro. Parecia um leão, mesmo moreno,pensei, andando daquele jeito, meio de lado. Eu comecei a ler. Seus musculosos dedos de aço formaram-se no centro de uma das barras. De costas para mim, embaixo do chuveiro, as costas dele eram retas, largas, com um pequeno triângulo de pêlos crespos e pretos mais largos onde subiam para a cintura, mais estreitos quando desciam em direção a bunda. Ele abriu o chuveiro, soltou um grito quando a água gelada começou a cair. Com a mão esquerda segurou na outra e apoiando um dos jelhos de encontro à porta, vagarosamente dobrou o cotovelo direito. Cada braço dele era assim quase da grossura da minha coxa. A água começou a levar embora a areia da praia, e agora eu podia ver melhor o corpo dele, escondido embaixo da camada de areia. Eu não conseguia parar de olhar. Ondulando como aço plástico, os músculos de seu antebraço e os bíceps cresceram até que gradualmente a barra arqueou na sua direção. Ele virou de frente, com as duas mãos afastou o calção e avançou um pouco o corpo para a água bater na barriga e descer por dentro do calção. Enfiou as mãos por dentro do calção, depois olhou pra mim, entre as gotas do chuveiro e virou a cabeça, cuspindo água. O homem-macaco sorriu, enquanto agarrava de novo na barra de ferro. Quando ele fechou o chuveiro, sacudindo os cabelos molhados, quando as gotas do cabelo dele respingaram na minha cara e a mãe tornou a chamar lá de dentro, de repente e sem querer eu fechei com força o livro, pulei pra fora da rede e saí correndo em direção à porta da casa.

Pelo resto daquele dia, não consegui fazer mais nada. Até parece que nos outros dias eu fazia alguma coisa mais, além de me atrolhar pelos cantos, morto de calor, dormir ou caminhar vadio pela praia. Pois nem isso consegui. Me deu assim um disparo no coração, feito susto que não era bem susto, porque não tinha medo de nada. Ou tinha, medo de uma coisa sem cara nem nome, porque não vinha de fora, mas de dentro de mim. Uns frios, mesmo parado debaixo de um sol de rachar, olhando minha sombra achatada igual a de um marciano monstro verde, e uns calorões, mesmo atrás da casa, onde até lesma tinha, de tão úmido. Eu só sabia que por nada desse mundo queria ficar perto do primo Alex.

Escondido, vi quando ele entrou no quarto e encostou a persiana da janela, porque decerto ia tirar uma sesta. Todos tiravam sesta no mundo, menos eu, pequeno monstro. Fiquei acompanhando com a ponta do dedo um rastro prateado de lesma, naquele lugar frio atrás da casa até passar um tempo. E, quando saí no sol outra vez, vi que o tempo tinha passado, porque a minha sombra já não estava tão achatada nem tão monstra. Então cheguei bem devagarinho perto da janela do quarto e, sem barulho nenhum, empurrei a persiana. De leve, como se fosse um vento. Ele estava nu, de costas para a janela. Um pouco mais abaixo daquele triângulo de pêlos crespos e pretos na cintura, o calção tinha deixado uma marca branca, que parecia mais branca ainda, agora que o vermelho do sol começava a acender. Ele estava deitado em cima do braço esquerdo. O braço direito dele que eu só podia ver até a metade, estava dobrado na cintura, desaparecia na frente do corpo. E se mexia. Todo parado, o primo Alex, só mexia o braço direito que eu não via inteiro, porque ele estava de costas para mim. Cada vez mais depressa eu tranquei a respiração, o queixo apoiado na janela, e cada vez mais depressa, até que ele primeiro gemeu baixinho, depois mais alto, suspirou, o corpo inteiro tremendo, virou de bruços na cama e afundou a cara no travesseiro. O braço direito caiu ao lado da cama. Da ponta dos dedos dele, que quase tocavam o chão, escorria uma gosma meio branca, meio prateada, que foi deixando no piso um rastro igual ao das lesmas no fundo da casa.

Ainda era muito cedo, mas fui caminhar na praia. Saí correndo pela areia em direção ao farol, e quando vi que não tinha mais ninguém por perto, comecei a gritar: Sumatra, Tantor, Zanzibar, Bukula ou Nikima, parecia louco de hospício. Não conseguia parar, só parei quando coração disparou demais e minha cara ficou lavada de suor, bem na frente do farol. Então olhei em volta, vi que não tinha ninguém, e fiz uma coisa que nunca tinha feito antes. Tirei a bermuda e a camisa, larguei na areia e fui entrando na água completamnete pelado. Abri as duas pernas, os dois braços, me joguei no meio da espuma. Dei de bunda na areia do fundo do mar, mas não doeu. Aí me virei de bruços e comecei a esfregar meu pau completamente duro na areia molhada molinha. Ficava cada vez mais duro, parecia que tinha uma coisa que queria sair de dentro dele, um fio prateado brilhante. Mas não saía, a areia ardia, o sal queimava. Aí eu peguei e abri a minha bunda com as duas mãos bem no lugar onde as ondas arrebentavam, e fiquei assim, deixando as ondas arrebentarem e a espuma morna do fim da tarde entrar pela minha bunda aberta. Foi me dando uma tontura, eu sem querer pensei no braço direito do primo Alex, cada vez mais depressa, parecia assim que ia explodir alguma coisa. Não explodiu nada, eu cravei as unhas no braço falei quinze vezes pequeno-monstro-niguém-te-quer e não sabia mais o que fazer da vida, daquele medo ou coisa que queria porque queria sair de dentro de mim sem encontrar o jeito. Meu coração batia batia quando cheguei em casa, a mãe já estava botando a mesa da janta. Vai lavar as mãos, o pai falou sem me olhar, ele nunca me olhava. Deixei a água correr sem me olhar no espelho. Quando voltei, o primo Alex já estava sentado, riscando o xadrez da toalha com a ponta serrilhada da faca. Eu não olhei pra ele, mas mesmo sem olhar dava pra ver que ele tinha vestido uma camisa branca de banlon bem alvinha e tinha penteado o cabelo. Eu não queria olhar pra ele, mas aí a mãe foi colocar o ovo e o bife no meu prato e o pai falou: tira as aspas do prato guri, também que coisa, parece um bugre. Eu fiquei vermelho de vergonha, dele falar assim, daquele jeito comigo, na frente do primo Alex, e sem querer ergui a cabeça, levantei os olhos. Ele apertou aquelas sobrancelhas pretas, grudadas em cima do nariz e piscou pra mim, como se a gente tivesse um segredo. Fiquei ali feito besta olhando de vez em quando pra ele. Ele sempre olhava de novo pra mim por cima da jarra de qui-suco que na janta era de laranja, não de groselha. Vez em quando piscava, vez em quando ria, sem ninguém ver, como se tivesse uma coisa que só acontecia entre ele e eu. Uma coisa que era um pouco essa vontade minha de ficar olhando sem parar pra ele. Podia ser essa vontade misturada com aquele medo, aquele braço se mexendo cada vez mais depressa, aquele fio prateado de gosma brilhnate estendido no chão. Parecido com a calda da compota de pêssego que outra vez eu virei na toalha quando a mãe parou um pouco de falar e, antes que o pai me chamasse de porco, perguntou assim:


CONTINUA...

quarta-feira, 27 de janeiro de 2010

PEQUENO MONSTRO - PARTE 3




COMEMORANDO 2 ANOS DO BORBOLETAS NA JANELA. OBRIGADO À TODOS QUE ENRIQUECEM ESSE BLOG COM SEUS COMENTÁRIOS E VISITAS!!!!!!!!!
Terceira parte da crônica de Caio Fernando Abreu:
De manhã, fiquei na cama até quase meio-dia. Escutei uns barulhos de gente acordando, mas não me mexi nem olhei, virado pra parede. Aí vieram outros barulhos, descarga de privada, torneira aberta, colher batendo em xícara na cozinha, a voz da mãe dizendo que eu era assim mesmo, dormia até o cu fazer bico, e uma voz mais grossa, que não era a do pai, falando outra coisa que não consegui ouvir. Depois uns barulhos de porta batendo, e silêncio. Eu sabia que eles tinham ido todos pra praia, e pensei em me levantar pra mexer um pouco nas tralhas do primo Alex, ninguém ia ver. Mas comecei a cair naquela coisa que eu chamava de entre-sono, porque não era bem um sonho. Meu pau ficava tão duro que chegava a doer, toda manhã, então eu apertava ele contra o lençol, parecia que tinha uma coisa dentro que ia explodir, mas não explodia, tudo começava a ficar quente dentro e fora de mim, enquanto eu pensava numas coisas meio nojentas - um peito da negra Dina que eu vi uma vez na beira do tanque, uns gemidos de gente e rangidos de cama no quarto do pai e da mãe. Eu não sabia quase nada dessas coisas, mas era justo nelas que ficava pensando sempre no entre-sono, o pau apertado sobre o colchão, até tudo ficar mais sono do que entre. Daí eu caía fundo no sono sem me lembrar de mais nada. Só saí da cama quando a mãe bateu na porta e falou que estava quase na mesa. Olhei pra cama do primo Alex, toda desarrumada, e pensei que o idiota devia estar na sala, sentado como se a casa fosse dele, tomando cerveja com o pai. Enfiei a bermuda, lavei a cara no banheiro e remanchei o mais que pude, pra não ver a cara de niniguém nem ninguém ver a minha. Mas quando saí e fui entrando pela casa, só tinha a mãe remexendo na cozinha e o pai sentado no degrau da varanda, lendo o Correio do Povo. Olhei em volta, não tinha nenhum sinal do primo Alex além da campeira xadrez desde a noite passada ali naquela guarda de cadeira. Não perguntei nada, fiquei sentado na ponta da mesa, riscando a toalha com a ponta da faca. Até que a mãe disse: - O Alex se encantou com a praia. O pobre nunca tinha visto o mar. Precisava ver, parecia uma criança. Ficou lá, não teve jeito de querer voltar. Bem feito, pensei, vai ficar vermelho feito um camarão. E de noite vai ter que passar talco nas costas e pasta de dente no nariz e ficar se rebolcando na cama sem conseguir dormir, porque quando a gente tá assim queimado até lençol dói na pele. Vai gemer e encher o saco a noite inteira e amanhã ou depois vai começar a descascar feito cobra trocando de pele até queimar tudo de novo e a pele ficar grossa que nem couro e ele começar a se sentir o máximo, de mocassim, calça branca e camisa banlon vermelha, todo queimado e idiota, idiota, idiota. Fui pensando nessas coisas enquanto a mãe servia a comida e o pai nem olhava direito pra mim, só lia o jornal, sacudia a cabeça e dizia barbaridade-mas-que-barbaridade, e eu nem conseguia comer direito nem sentir muito ódio. Que era mais um exercício de ruindade minha pensar aquelas coisas, precisava treinar todo dia pra não perder o jeito de ser pequeno monstro. Tomei quase um litro de qui-suco de groselha, puro açúcar, me deu um asco na boca do estômago, empurrei o prato sem fome. Disse que não estava me sentindo muito bem, e o pai falou: também pudera, o lorde, dormindo feito um condenado, vai acabar tuberculoso. A mãe falou: deixa o guri, também que implicância. Ele falou que era por isso que eu estava assim baseado, que ela parecia uma escrava minha. Ela disse que tinha alugado aquela casa na praia pra ver se descanava um pouco, não pra ele infernizar ainda mais a vida dela, que já era um martírio. E os dois estavam começando a gritar cada vez mais alto e eu aproveitei e fugi pro quarto sem ninguém ver.
CONTINUA...

domingo, 24 de janeiro de 2010

DE MAYSA E OSCAR WILDE

Acabo de ler MAYSA - SÓ NUMA MULTIDÃO DE AMORES, antes havia lido O RETRATO DE DORIAN GRAY de Oscar Wilde. Diferentemente da biografia da cantora Maysa, DORIAN GRAY é um romance de ficção, mas não há como negar que o autor colocou ali grande parte de sua personalidade em muitos diálogos. O que me leva a conclusão de que tanto Oscar quanto Maysa tem muito em comum: línguas afiadas, almas desassossegadas e paixões atormentadas.

Ambos morreram jovens, Oscar Fingal O'Flahertie Wilde aos 44 anos em 1900 e Maysa Figueira Monjardim aos 40 em 1977. Sem dúvida nenhuma viveram intensamente e deixaram nos anais da história opiniões, pensamentos, frases de efeito que nos ajudou muito a entender um pouco de suas fascinantes personalidades e até mesmo encontrarmos um grande grau de identificação.

Com vocês, um pouco de Maysa e Oscar Wilde. Não identifique-se se for capaz.

Oscar Wilde em O RETRATO DE DORIAN GRAY:

"Só existe uma coisa no mundo pior do que falarem de nós, e é não falarem de nós."

"Quanto a acreditar, posso crer em qualquer coisa, contanto que seja absolutamente incrível."

"O riso não é mau início para uma amizade e é indubitavelmente o melhor fim."

"Não quero desnudar minha alma a olhares curiosos e vazios."

"O objetivo da vida é o desenvolvimento da própria personalidade. Realizar perfeitamente nossa natureza."

"Viva a vida magnífica que palpita no íntimo de seu ser! Não permita que se perca coisa alguma. Esteja sempre à cata de novas sensações. Nada tema."

"Sim, pois a mocidade dura tão pouco... tão pouco... As modestas flores dos montes murcham, mas tornam a vicejar. O laburno estará, no próximo ano, tão amarelo quanto agora. Dentro de um mês haverá flores purpúreas na crematite e, ano após ano, a noite verde de suas folhas exibirá essas estrelas purpúreas. Mas nunca recuperamos a mocidade."

"Os homens casam-se por cansaço; as mulheres por curiosidade. Ambos se decepcionam."

"Quando nos sentimos felizes sempre somos bons, mas quando somos bons nem sempre somos felizes."

"Adoro os escândalos sobre as outras pessoas, mas os escândalos a meu respeito não me interessam. Não têm o encanto da novidade."

"O pecado é algo que marca a fisionomia de um homem. Não pode ocultar-se."

"Cada êxito que obtemos nos traz um inimigo."

Maysa em sua biografia SÓ NUMA MULTIDÃO DE AMORES:

"Há gritos incríveis dentro de mim que me povoam da mais imensa solidão."

"Ás vezes sou masoquista. Considero masoquismo aturar sem queixas uma porção de pessoas. Detesto gente burra e vivo me encontrando com elas."

"Dor física jamais me fez medo. Tenho medo apenas do que não depende de mim: amar e não ser amada, por exemplo."

"Primeiramente, bebo porque quero. Depois porque trabalho para pagar o que bebo. Finalmente, porque tenho senso de autocrítica. Muitas vezes reconheço-me insuportável e eu só suporto os insuportáveis bebendo."

"Tenho pavor da solidão. Quando estou só tenho certeza de que sou maior do que eu mesma e isto me apavora. Ninguém deve conhecer a sua própria dimensão."

"Em todas as vezes que tentei suicídio quis morrer sinceramente. Mas em nenhuma eu queria morrer imediatamente. Por isso morria pouco. Só uma coisa me faria morrer até o fim: o amor."

" Não dê nome a nada, as coisas são, puramente são."

quarta-feira, 20 de janeiro de 2010

SELO


Recebi este selo da Nina, uma nova amiga sensível e delicada do blog De volta ao meu eu. Obrigado Nina meu blog está sempre de coração aberto pra todos que desejarem receber minhas borboletas em suas janelas.

PEQUENO MONSTRO - PARTE 2

A segunda parte da crônica de Caio Fernando Abreu. Quem não leu o início pode acompanhar na postagem anterior


Bem devagarinho, fui me distraindo com essas coisas pelo caminho. Daí me atrasei tanto,que quando cheguei em casa, estava armado um começo de alvoroço. O pai já estava de chinelo e pijama, mechamou de desgranido e disse que ia me proibir de ir à praia a essa hora de louco e eu respondi que se me proibisse de ir nessa hora eu ia ficar no quarto trancado e não ia ir em hora nenhuma nunca mais, e a mãe falou baixo, mas eu escutei: é a idade, não liga, não implica com o guri, criatura. E me deu uma janta meio fria com milho duro e eu cheguei a abrir a boca pra falar que não era cavalo quando ela disse que o primo Alex já tinha chegado e estava dormindo, podre da viagem. Nem precisava dizer nada, sentado na ponta da mesa, eu já tinha visto aquela campeira xadrez pendurada numa guarda de cadeira. Mesmo que não pudesse ver nada, farejava um cheiro no ar. Nem bom nem mau, cheiro de gente estranha recém chegada de viagem. Polvadeira, bodum, sei lá. Quase não consegui comer, de tanto ódio. O pai foi dormir azedo, falando que no quartel eu ia ver. A mãe ficou mexendo no rádio, mas só dava descarga no meio de umas rádios castelhanas êle-êrre-uno-êle-êrre-dôs. Nada de Elvis, que eu gostava e ela fingia que não, só Gardel, que ela gostava e eu tinha certeza que não. Falei que ia dormir também, a mãe botou a mão no meu ombro e muito séria pediu pra mim prometer que ia ser educado com o primo Alex, coitado, que o pai dele tinha morrido e a tia Dulcinha passava muito trabalho e coisa e tal. Até prometi, não custava nada. Mas fiquei torcendo os dedos, rezando pra ela não repetir que ele era um bom rapaz, tão esforçado o pobre, se não meu ódio voltava. Ela acabou falando, bem na hora que Gardel cantava: sabia que nel mundo no cabía cada la humilde alegría de mi pobre corazón, e eu fui dormir com muito ódio. Dela, do pai, do primo Alex, da tia Dulcinha, dos bagaceiras da praia, do Gardel, de tudo.

Tirei a areia dos pés no bidê, lavei a cara e fiquei parado na frente do espelho. Pequeno monstro, falei. Mais de uma vez, três, doze, vinte, eu repetia sempre, me olhando no espelho antes de dormir: pequeno, pequeno monstro, ninguém, ninguém te quer. Mijei, escovei os dentes, gargarejei. Me deu vontade de vomitar, sempre me dava. Mas não vomitei, nunca vomitava. Tive vontade de me encolher ali mesmo, embaixo da pia, feito cusco escorraçado, e dormir até a manhã seguinte, para que todos vissem como eu era desgraçado. Meu quarto agora não era mais só meu,não podia ficar lendo até tarde nem nada, luz acesa até altas. A droga do primo Alex estava lá, e eu tinha prometido ser bem educado com ele, coitado.

Aquele quarto que agora não era mais meu, mas meu e do tal do primo Alex, ficava na parte de trás da casa de tábuas, numa espécie de puxado, ao lado de um banheiro, que antes dele chegar também era só meu, mas agora era meu e dele, que nojo. Apaguei a luz, parei na porta do banheiro e fiquei remanchando um pouco por ali, parado no corredor escuro, antes de entrar. Eu tinha que estar preparado para enfrentar aquele tapume de óculos, que certamente - eu conhecia bem essa gente - tinha deixado seus óculos sebentos na minha mesinha de cabeceira, e aqueles vulcabrás nojentos com umas meias duras no garrão saindo pra fora e um fedor de chulé no ar, escarrapachado na cama, roncando e peidando feito um porco. Que ódio, que ódio eu sentia parado naquele biricuete escuro entre o banheiro e o quarto que não eram mais meus.

Abri a porta devagarinho. A janela-guilhotina estava levantada, a luz apagada. Não tinha nenhum fedor no ar. A luz da lua entrando pela janela era tão clara que eu fui me guiando pelo escuro até a minha cama, sem precisar estender a mão nem nada. Sntei, levei a mão até a mesinha de cabeceira e apalpei, não tinha nem óculos em cima dela, só meu livro Tarzan, O Invencível, da coleção Terramarear. Pelo menos isso, pensei: a trolha não usa óculos. Fiquei de cueca, camiseta, me deitei. Não tinha nenhum barulho de ronco, nenhum cheiro de peido no ar, só aquele perfume meio enjoativo do jasmineiro ali no pátio ao lado. Os meus olhos foram se acostumando mais no escuro, e eu comecei olhar para a cama onde o primo Alex estava deitado, do outro lado do quarto.

A luz da lua batia direto nele. Ele estava deitado por cima do lençol, completamente pelado. Meus olhos se acostumavam cada vez mais, e eu, podia ver o primo Alex virado sobre o lado direito, as duas mãos juntas fechadas no meio das pernas meio dobradas. Ele parecia muito grande, tinha que encolher um pouco as pernas, se não os pés batiam lá na guarda no fim da cama-patente.Ele tinha muitos pêlos no corpo, luz da lua batendo assim neles fazia brilhar as pontas do pêlos. Ele tinha cara virada de lado, afundada no travesseiro, eu não podia ver. Via aqueles pêlos brilhando - uns pêlos nos lugares certos, não errados, que nem os meus - descendo para baixo do pescoço, pelo peito, pela barriga, escondidos e mais cerrados naquele lugar onde ele enfiava as mãos, depois espalhados pelas pernas, até os pés. Os pés encolhidos do primo Alex eram muito brancos, o pai dele tinha morrido, ele tinha estudado o ano inteiro e passado no vestibular não sei de que, lembrei. E não fazia barulho nenhum quando dormia, coitado.

Fiquei deitado na minha cama, olhando para ele. Depois de um tempo comecei a ouvir a respiração dele e fui prestando atenção na minha própria respiração, até conseguir que ela ficasse igual à dele. Eu respirava, ele respirava. Eu cruzei as mãos no peito e encostei a cabeça na guarda da cama para poder olhar melhor. Ele tinha cruzado as mãos no meio das pernas decerto para dormir melhor, o pobre, podre da viagem. Fiquei olhando pra ele, respirando devagar, no mesmo ritmo. Bem devagar, para não acordá-lo. Não sei porque, mas de repente todo o meu ódio passou. Ali deitado, olhando pro primo Alex dormindo inteiramente pelado, embaixo daquela lua enorme, o cheiro enjoativo dos jasmins entrando pela janela aberta, me dava uma coisa assim que eu não entendia direito se era tontura, sono, nojo, ou quem sabe aquele ódio se transformando devagarzinho em outra coisa que eu ainda não sabia o que era.


CONTINUA...

segunda-feira, 18 de janeiro de 2010

PEQUENO MONSTRO - PARTE 1


Uma crônica de Caio Fernando Abreu escrita em 1975 dividida em cinco partes:



Naquele verão, quando a mãe avisou que o primo Alex vinha passar o fim de semana conosco na casa da praia alugada, eu não gostei nenhum pouco. Não por causa dele, que eu mal lembrava a cara direito, podia até ser qualquer outro primo, tio, avô. Mas, por minha causa mesmo, que tinha começado a crescer para todos os lados, de um jeito assim meio louco. Pernas e braços demais, pêlos nos lugares errados, uma voz que desafinava igual de pato, eu queria me esconder de todos. Só de tardezinha saía de casa, na hora que as empregadas domésticas - as dosas, o pai dizia - estavam voltando da praia. Então caminhava quilômetros na beira do mar, me rolava na areia, vez em quando chorava e repetia: pequeno monstro, pequeno monstro, ninguém te quer. Não suporatava ninguém por perto. Uma mãe insistindo o tempo inteiro pra tu ires à praia na mesma hora que todo mundo normal vai e um pai que te olha como se tu fosse a criatura mais nojenta do mundo e só pensa em te botar no quartel pra aprender o que é bom - isso já é dose suficiente para um verão. Como se não bastasse a minha desgraça, agora ia ter de dividir meu quarto com o tal de primo Alex. E não queria que ninguém ouvisse minha voz de pato grasnado, visse meus braços compridos demais, minhas pernas de avestruz, meus pêlos todos errados.



Fiz cara feia, a mãe nem ligou. Falou que ele vinha e pronto, que tinha estudado muito o ano todo, passado no vestibular não sei de que e precisava descansar e tal e tudo e que ela devia aquela obrigação à tia Dulcinha coitada tão só e que além do mais o Alex era um bom rapaz, tão esforçado o pobre. Isso eu odiava mais que tudo, aqueles bons rapazes tão esforçados e de óculos, sempre saindo com sacolas de lona na hora do almoço para comprar cervejas e coca-colas e cigarros pra todo mundo, ajudando a lavar pratos e jogando aquelas chatíssimas canastras sobre o cobertor verde na ponta da mesa. Empurrei a compota de pêssego argentino, a calda virou na toalha, armei a tromba. Esse era meu jeito de dizer: não careço nem ver a cara dele para ter certeza que é um coió.



Quase dormindo, mais tarde, naquela mesma noite que a mãe avisou que primo Alex vinha, eu tentava lembrar a cara dele e não conseguia. Na verdae, não conseguia lembrar a cara de ninguém desde uns dois anos atrás, desde que eu tinha começado a ficar meio monstro e os parentes se cutucavam quando eu passava, davam risadinhas, falavama coisas baixinho, olhando disfarçado pra mim. Eu tinha horror deles, que achavam que sabiam tudo sobre mim. Sabiam nada, sabiam bosta do meu ódio enorme por um por um de cada um deles, aquelas barrigonas, aqueles peitos suados, os pés cheios de calos. Eu nunca ia ser igual a eles - pequeno monstro, seria sempre diferente de todos. Era assim mesmo que iria me comportar com o primo Alex, decidi: pequeno monstro, cada vez mais monstro, até ele não aguentar mais um minuto e dar o fora pra sempre. Fiquei olhando com força pro colchão sem lençol da cama ao lado onde ele ia dormir, até encher o colchão com todo o meu ódio, pra ele se entir mal e ir embora no mesmo dia.



No dia que era o dia que ele vinha - e eu sabia porque a mãe não falava outra coisa, arrumou lençóis limpos na cama ao lado, mandou eu empilhar os gibis, guardar no guarda-roupa a roupa da guarda da cadeira -, saí de casa um pouco mais cedo e fiquei caminhando séculos na praia. Eu gostava de ir até aquele farol no caminho de Cidreira, onde tinha umas dunas e era bom ficar deitado na areia, olhando o mar sem fim. Vez em quando passava um navio, eu perguntava pra onde vai? pra onde vai? bem besta mesmo, não pensava o lugra, só perguntava assim: pra onde vai, sem pensar o nome nem nada. Depois pensava também se eu saísse agora reto daqui e entrasse no mar e que nem Jesus fosse capaz de pisar sobre as águas e fosse andando sempre em frente sem parar - ia dar onde? Achava que na Africa, na Índia sei lá. Em algum lugar, ia dar. Longe dali, de Tramandaí. Aí começou a sair do mar uma lua cheia bem redonda, e eu primeiro fiquei tentando ver nela São Jorge e o dragão, depois lembrei que era besteira, coisa de criança, e pensei crateras, desertos, quase via, Mar da Serenidade. Ou era Fertilidade? Fui olhando as coisas, me atrolhando por ali, até que de repente tinha anoitecido total, e eu tinha que voltar pra merda daquela casa com aquele pai e aquela mãe. Ainda por cima, fui lembrando no caminho, cada vez mais puto, e por causa disso caminhava mais devagar ainda e ficava cada vez mais noite, agora com aquele tal de primo Alex lá, enfiado no meu quarto.



Passaram uns bagaceiras com um violão e uma garrafa de cinzano, abraçados, cantando uma música de parque. Desviei deles, fui enfiando os pés na água morna do mar, de cabeça baixa pra não mexerem comigo. Vez em quando olhava pra trás e só ouvia aquelas vozes bem de bagaceiras mesmo, cada vez mais longe, cantando: a noite tá escura/ a lua fez feriado/ estou sofrendo a tortura/ de não sentir-te ao meu lado. Bestas, pensei, porque a lua não tinha feito feriado coisa nenhuma, feriado era lua nova, não aquela luona enorme, redonda, amarela, bem ali em cima e da cabeça da gente. Quando eu já tinha caminhado um pouco em direção ao norte, e os bagaceiras tinham sumido, olhando por cima do olho direito pensei, quem sabe agora, saindo reto aqui eu dou justo ali, no sulzinho da África, cabo das Tormentas. Ou era o da Boa Esperança? Aí de repente despencou uma baita estrela cadente, quase do tamanho da lua, tão grande que cheguei a parar pra ouvir o tchuááááááááááááá da estrela caindo dentro do mar. Não aconteceu nada, então falei bem alto, imitando aquela vozinha de taquara rachada da dona Irineide, professora de geografia: bó-li-dos, isso que o populacho chama de estrelas cadentes na verdade são bó-li-dos. Me senti muito culto e tudo, mas meio sem graça, daí lembrei que podia fazer um pedido, ou três, não sei bem, a gente podia. Então peguei e fiz. Que já que o primo Alex tinha mesmo que estar lá naquela merda de casa - e era impossível pedir que não viesse, porque já tinha vindo - que pelo menos ele fosse legal e não me enchesse o saco.





CONTINUA...








Um selo carinhoso para o blog De volta ao meu eu... da querida Nina