Fazia pouco mais de um mês que Rodolfo tinha sido transferido da multinacional que trabalhava em São Paulo, para gerenciar uma filial recém inaugurada numa pequena cidade litorânea a alguns quilômetros de distância da capital.
Rodolfo estava numa fase tranquila e estável, exceto pela pequena crise dos trinta que se abateu sobre ele tão logo acabara de completar trinta e cinco anos. Isso ocorrera poucas semanas antes da transferência de emprego, de cidade, de vida. De repente sua vida deu um giro de 360 graus, mudou tudo e Rodolfo encarou as coisas de peito aberto, como uma nova oportunidade de recomeçar. Embora nunca tivesse se imaginado vivendo longe da paulicéia desvairada Rodolfo pensou que seria bom. Apesar da distância dos amigos e da vida social intensa que deixaria pra trás, também estaria deixando algumas tristezas e desilusões, como um longo relacionamento que havia acabado da maneira mais desastrosa possível e do qual ele ainda não havia se recuperado completamente, e para uma plena recuperação nada melhor que uma mudança radical. Novos ares, novas pessoas, a vida bem pertinho do mar, uma rotina novinha em folha. Rodolfo achou toda aquela história de promoção e transferência providencial.
Assim que se intalou no novo endereço, Rodolfo trocou as superlotadas academias de São Paulo por saudáveis caminhadas na areia da praia, onde de vez em quando podia parar para comtemplar o mar, as gaivotas, sentir a brisa no rosto e entre uma alongada e outra refletir sobre a brusca mudança em sua vida, em como tinha se tornado pacata e o quanto era agradável, apesar de em alguns momentos sentir um pouco de tédio, afinal desde que se entendia por gente ele era um homem urbano e cosmopolita até o último fio de cabelo, e se adaptar a pasmaceira de uma cidade com pouco mais de 50.000 habitantes não era assim tão fácil, mas estava indo bem.
Foi então que numa dessas caminhadas Rodolfo percebeu alguém numa bicicleta que parecia segui-lo à distância enquanto fazia seus exercícios na areia. Da primeira vez ignorou, na segunda ficou intrigado, na terceira encarou o homem tão furiosamente que este resolveu se aproximar e desfazer qualquer mal entendido. Rodolfo ficou receoso, não sabia o que pensar enquanto o rapaz caminhava em sua direção arrastando a bicicleta velha e enferrujada. Podia ser um delinquente, um psicopata ou quem sabe alguém interessado nele, de todas as opções a última era a que lhe causava mais arrepios. Preferia ser assaltado em plena luz do dia a beira-mar do que se envolver com alguém naquele momento de sua vida, mas fosse o que fosse o mistério estava pra acabar naquele instante.
O rapaz que aparentava ser bem jovem vestia um abrigo surrado, tênis velhos e boné de campanha eleitoral, apesar da aparência desleixada tinha um rosto bonito, Rodolfo reparou bem nisso, assim como nos profundos olhos verdes do rapaz, que meio tímido apresentou-se, disse que se chamava Yuri e que tinha reparado que Rodolfo era novo na cidade e queria conhecê-lo melhor, mas ficou sem jeito de chegar de cara e passou a observá-lo durante suas caminhandas. Notando que o rapaz era inofensivo e um tanto quanto ingênuo Rodolfo não quis ser rude, mas foi direto. Pediu que o garoto não o seguisse mais porque se sentia desconfortável e que não estava interessado em conhecer pessoas naquele momento. Decidiu correr o mais depressa que pôde de Yuri, deixando-o ali parado com ar perplexo e decepcionado.
Com o passar dos dias Rodolfo não conseguia tirar Yuri da cabeça, o rapaz havia parado de observá-lo durante seus exercícios na praia desde o dia em que tentou aquela frustrada aproximação e Rodolfo percebeu que sentia falta dos furtivos e distantes olhares do simplório rapaz. Até que num final de tarde qualquer, enquanto voltava caminhando pra casa após mais um dia de trabalho, Rodolfo foi surpreendido por Yuri aproximando-se sorrateiramente com sua inseparável bicicleta. O garoto o cumprimentou timidamente perguntando-lhe se ainda se lembrava dele. Rodolfo quase não conseguiu disfarçar um discreto sorriso, estava contente em vê-lo de novo, e desta vez foi mais receptivo ao rapaz. Conversaram um pouco até que decidiram tomar alguma coisa. Sentaram num bar e entre uma cerveja e outra conversaram amenidades. Enquanto Yuri falava com seu jeito rude e simples, Rodolfo percebia ali um diamante bruto pronto pra ser lapidado. Ficaram longas horas na mesa do bar e conforme a conversa avançava Yuri contava com muita naturalidade e nenhum aparente ressentimento a vida difícil que vivia ao lado mãe relapsa que nunca se preocupou muito com seus estudos e seu bem-estar. Apesar da maneira rústica e desleixada com que falava, como se aquilo não o afetasse, Rodolfo não conseguia deixar de se enternecer com a história triste daquele garoto de dezenove anos, de belo rosto que poderia ter grandes oportunidades se bem direcionado.
As horas passaram voando e ao ver que o bar começava a fechar as portas Rodolfo tomou a iniciativa de pagar a conta e se retirar. Na saída Yuri ofereceu-se para ir com Rodolfo até seu apartamento, mas este recusou prontamente a possibilidade. Prometeu a seu mais novo amigo que em outra oportunidade o convidaria para ouvir umas músicas e tomar um vinho em seu apartamento, mas não seria naquele dia. Yuri insistiu mais um pouco, mas Rodolfo foi firme em sua postura. Sabia muito bem o que o garoto queria e naquele momento isto ainda estava fora de cogitação. Nos últimos meses, Rodolfo não tinha nenhum interesse por sexo sua libido andava bem em baixa desde pouco antes do fim de seu último relacionamento, o que o fazia pensar que este seria um dos motivos da separação que lhe deixou marcas profundas de dor e tristeza.
Despediram-se então com um suave aperto de mão e foram para lados opostos. Sozinho no quarto à meia-luz, refestelado em sua enorme king-size Rodolfo pensava em Yuri e todas as possibilidades que ele poderia trazer a sua vida. Sentiu um desejo incontrolável de ajudá-lo, de transformá-lo, só não poderia se apaixonar de jeito nenhum,era o que repetia em seus pensamentos.
terça-feira, 14 de dezembro de 2010
terça-feira, 30 de novembro de 2010
CORES VERDADEIRAS
Música é essencial pra vida, pra minha pelo menos, e quando a música é boa de verdade o tempo passa, surgem novas versões e interpretações, mas a emoção que nos provoca permanece intacta. Esse é o caso de True Colors, canção dos anos 80 composta e gravada pela minha amada e ícone pop Cyndi Lauper.
Escutei True Colors pela primeira vez na voz de Phil Collins, já na sua segunda versão, no final dos anos 90 e me apaixonei por aquela interpretação masculina e sedutora. Mas quando descobri, pouco tempo depois a legítima dona das tais cores verdadeiras fui irremediavelmente arrebatado por toda a força e delicadeza da diva absoluta de uma época.
Agora, mais de 20 anos depois de sua versão original, True Colors volta com alguns toques de modernidade mas tão emocionante quanto antes. Uma inacreditável e surpreendente Alessandra Maestrini assume os vocais e consegue mais uma vez tocar no ponto exato da emoção, provando que quando as cores são verdadeiras os sentimentos são imortais.
Link do vídeo com Alessandra Maestrini:http://www.youtube.com/watch?v=8w1eszbtg5g
sábado, 2 de outubro de 2010
SOUFLÊ DE QUEIJO
por Luís Fernando Veríssimo
Jorge conta a Marta que convidou seu novo chefe para jantar.
- Eu falei do meu souflê de queijo e ele se interessou.
- Você falou no seu souflê de queijo assim, sem mais nem menos?
- Não. Não lembro qual era o assunto. Nós estávamos numa reunião e, de repente se falou em souflês.
- Que estranho, não é uma firma de corretagem? Vocês falam muito em souflês nas reuniões?
- Não interessa. O fato é que ele vem jantar aqui. Aceitou na hora.
- Quando?
- Amanhã.
Na noite seguinte:
- Você vai usar esse vestido?
- Por quê?
- Usa aquele teu preto, o decotado.
- Ó, Jorge! Quié isso?
- Você fica muito bem naquele vestido, e eu quero que ele veja como a minha mulher é bonita.
- Você quer que ele veja os meus peitos, é isso?
- Não, Marta. É pra, sei lá. Combinar com o jantar. Com as velas, com o souflê...
- Este vestido está bom.
- Marta. Por favor.
- Não sei que diferença vão fazer os meus peitos.
Jorge, depois de um suspiro de impaciência:
- Marta, acho que você não se deu conta da importância desse jantar. Pra mim. Pra nós. Ele é o novo chefe. Está num período de avaliação da equipe. Tem gente que vai pra rua. Ele é quem decide. Está entendendo? Eu posso ir pra rua.
- Se ele não gostar do seu souflê?
- Não, Marta! Mas ele aceitar vir provar meu souflê é um sinal de que quer me conhecer melhor. Podemos ficar amigos. Esse jantar pode decidir a nossa vida, Marta. Preciso que você faça a sua parte.
- Mostrando os peitos...
- E não só isso.
- Não só isso, Jorge?!
- Marta, chegou a hora de saber o que você está disposta a fazer por mim. Pela minha carreira. Pelo nosso futuro. Por nós.
- Como assim?
- Você sabe que eu tenho que ficar na cozinha quando o souflê estiver ficando quase pronto. Os últimos minutos são cruciais para um souflê de queijo não passar do ponto. E você vai ficar sozinha com ele na sala. Marta...
- Jorge, você é que está passando do ponto.
- Marta, isso não é hora de pensar em fidelidade, em moral, em mais nada. É hora de pensar no meu emprego e na nossa renda. É hora de você pensar nas prestações do seu cartão de crédito, Marta!
- Mas...
- Vá botar o vestido decotado!
Chega o novo chefe para jantar.
- Marta, este é o Ciro. Ciro, esta é a Marta, minha mulher.
É evidente a surpresa na cara de Ciro
- Sua mulher?
- É.
- Eu não sabia que você era casado.
- Sou, sou. E bem casado.
- Prazer - diz Ciro, estendendo uma mão lânguida para Marta apertar. A decepção substituiu a surpresa no seu rosto.
Mais tarde, na cozinha, onde entrou para buscar o gelo, Marta comenta com Jorge, que acaba de colocar o souflê no forno:
- Acho que ele está a fim é de você, Jorge.
- Nem brincando, Marta.
- Chegou a hora de saber o que você está disposto a fazer pela sua carreira. Pelo nosso futuro. Por nós, Jorge.
Jorge conta a Marta que convidou seu novo chefe para jantar.
- Eu falei do meu souflê de queijo e ele se interessou.
- Você falou no seu souflê de queijo assim, sem mais nem menos?
- Não. Não lembro qual era o assunto. Nós estávamos numa reunião e, de repente se falou em souflês.
- Que estranho, não é uma firma de corretagem? Vocês falam muito em souflês nas reuniões?
- Não interessa. O fato é que ele vem jantar aqui. Aceitou na hora.
- Quando?
- Amanhã.
Na noite seguinte:
- Você vai usar esse vestido?
- Por quê?
- Usa aquele teu preto, o decotado.
- Ó, Jorge! Quié isso?
- Você fica muito bem naquele vestido, e eu quero que ele veja como a minha mulher é bonita.
- Você quer que ele veja os meus peitos, é isso?
- Não, Marta. É pra, sei lá. Combinar com o jantar. Com as velas, com o souflê...
- Este vestido está bom.
- Marta. Por favor.
- Não sei que diferença vão fazer os meus peitos.
Jorge, depois de um suspiro de impaciência:
- Marta, acho que você não se deu conta da importância desse jantar. Pra mim. Pra nós. Ele é o novo chefe. Está num período de avaliação da equipe. Tem gente que vai pra rua. Ele é quem decide. Está entendendo? Eu posso ir pra rua.
- Se ele não gostar do seu souflê?
- Não, Marta! Mas ele aceitar vir provar meu souflê é um sinal de que quer me conhecer melhor. Podemos ficar amigos. Esse jantar pode decidir a nossa vida, Marta. Preciso que você faça a sua parte.
- Mostrando os peitos...
- E não só isso.
- Não só isso, Jorge?!
- Marta, chegou a hora de saber o que você está disposta a fazer por mim. Pela minha carreira. Pelo nosso futuro. Por nós.
- Como assim?
- Você sabe que eu tenho que ficar na cozinha quando o souflê estiver ficando quase pronto. Os últimos minutos são cruciais para um souflê de queijo não passar do ponto. E você vai ficar sozinha com ele na sala. Marta...
- Jorge, você é que está passando do ponto.
- Marta, isso não é hora de pensar em fidelidade, em moral, em mais nada. É hora de pensar no meu emprego e na nossa renda. É hora de você pensar nas prestações do seu cartão de crédito, Marta!
- Mas...
- Vá botar o vestido decotado!
Chega o novo chefe para jantar.
- Marta, este é o Ciro. Ciro, esta é a Marta, minha mulher.
É evidente a surpresa na cara de Ciro
- Sua mulher?
- É.
- Eu não sabia que você era casado.
- Sou, sou. E bem casado.
- Prazer - diz Ciro, estendendo uma mão lânguida para Marta apertar. A decepção substituiu a surpresa no seu rosto.
Mais tarde, na cozinha, onde entrou para buscar o gelo, Marta comenta com Jorge, que acaba de colocar o souflê no forno:
- Acho que ele está a fim é de você, Jorge.
- Nem brincando, Marta.
- Chegou a hora de saber o que você está disposto a fazer pela sua carreira. Pelo nosso futuro. Por nós, Jorge.
quarta-feira, 11 de agosto de 2010
NÃO É UMA HISTÓRIA DE AMOR?

O filme 500 DIAS COM ELA começa com o seguinte aviso: "Esta não é uma história de amor." Afirmação da qual discordo completamente.
O filme narra a relação nada convencional entre Tom e Summer. Os dois são jovens, bonitos e cheios de vida. Tom se apaixona perdidamente por Summer, Summer não se apaixona. Eles se envolvem, fazem amor, passam momentos especiais juntos. Mas o que para Tom é um romance arrebatador, para Summer não passa de uma agradável amizade colorida. E assim o filme apresenta-se como uma não história de amor, justamente pelo fato da mocinha não corresponder ao amor do rapaz, que sofre feito um condenado por não ter seu sentimento correspondido.
Eis aí uma grande contradição, pois o filme é sim uma história de amor. Uma triste e aflitiva história de amor não correspondido, uma via de mão única, como são todos os amores não correspondidos.
É a história do amor de Tom, um amor forte, puro, sincero, doloroso, marcante e não recíproco, como tantos amores que sentimos pela vida à fora.
É injusto dizer a alguém que amou profundamente outra pessoa, que ela não viveu uma história de amor porque a outra pessoa não a amava. Histórias de amor não são necessáriamente aquelas vividas por duas pessoas que se amam com a mesma intensidade. Histórias de amor não podem ser rotuladas.
Tudo isso é pra dizer que já faz um tempo que assisti esse filme e o equívocado aviso inicial me deixou contrariado, pois tenho uma extensa lista de amores platônicos e vivi todos eles com toda a intensidade que cada um merecia. Amores que me fizeram chorar, sonhar, suspirar, que me inspiraram, que fizeram meu coração pulsar mais acelerado, que me fizeram tremer, me deixaram com borboletas no estômago e me tornaram mais humano.
Não me relacionei fisicamente com muitas pessoas, mas posso afirmar sem hesitação que não amei todos os que beijei e não beijei todos os que amei. Diferente de Tom que ainda se perdeu em gozos nos braços de sua amada, nenhum de meus avassaladores amores foi consumado, e por isso, talvez, tenha sofrido menos que ele, ou será o contrário?
Não importa. O importante em toda essa história, é que nós, os que amamos sem ser amados, que não tivemos nossos amores correspondidos, que afundamos a cara no travesseiro em prantos ouvindo MPB e sofremos o diabo, não podemos ter nossas histórias de amor menosprezadas.
No final das contas, ao menos a contraditória sentença no início do filme rendeu um post que não haveria se a frase fosse mais coerente, como: "Esta é uma história de amor não correspondido." Mas talvez o filme perdesse boa parte de seu charme. Enfim, divagações, mas se você ainda não viu o filme já sabe, talvez deteste a linda mocinha, pode achá-la uma boa bisca ou uma grandissíssima filha-da-puta, mas com certeza vai se identificar horrores porque amor não correspondido não há quem não tenha sentido.
terça-feira, 20 de julho de 2010
MEU BEM QUERER É SEGREDO, É SAGRADO...
Não, eu não vou contar pra ninguém. Não quero compartilhar isso com quem quer que seja. Serei completamente egoísta. Quero que seja algo só nosso. Nosso mais precioso segredo, escondido como se fosse um pequeno delito, resguardado como um valioso brilhante.
O tempo custou a nos dar essa chance. Seguimos nos amando distantes, afastados do cheiro, do toque, da troca. Sem olhos nos olhos, sem respiração ofegante, suspiros e coração descompassado. Tudo o que tínhamos era o desejo inabalável e a projeção de um amor perfeito. Até o paralisante momento desse reencontro que nos deixou com a boca seca, os olhos inundados, as mãos úmidas e o corpo inteiro arrepiado de ternura.
Inútil verbalizar. Impossível traduzir essas sensações tão minhas, tão tuas, tão nossas.
Definitivamente não, ninguém tem que saber. Não vou mudar de status no orkut, nem colocar carinha feliz no MSN com legenda do tipo "amando", "completamente apaixonado" ou "namorando", muito menos twittar sobre isso.
Nosso amor não merece ser manchado pela inveja de olhos cobiçosos e mentes maldosas. Precisa ser preservado como um delicado camafeu. O que a gente tem agora é sagrado e é só nosso. Nossos planos, nossos momentos, nosso êxtase, nossa intimidade, nosso felicidade, nosso amor. E DE MAIS NINGUÉM.
O tempo custou a nos dar essa chance. Seguimos nos amando distantes, afastados do cheiro, do toque, da troca. Sem olhos nos olhos, sem respiração ofegante, suspiros e coração descompassado. Tudo o que tínhamos era o desejo inabalável e a projeção de um amor perfeito. Até o paralisante momento desse reencontro que nos deixou com a boca seca, os olhos inundados, as mãos úmidas e o corpo inteiro arrepiado de ternura.
Inútil verbalizar. Impossível traduzir essas sensações tão minhas, tão tuas, tão nossas.
Definitivamente não, ninguém tem que saber. Não vou mudar de status no orkut, nem colocar carinha feliz no MSN com legenda do tipo "amando", "completamente apaixonado" ou "namorando", muito menos twittar sobre isso.
Nosso amor não merece ser manchado pela inveja de olhos cobiçosos e mentes maldosas. Precisa ser preservado como um delicado camafeu. O que a gente tem agora é sagrado e é só nosso. Nossos planos, nossos momentos, nosso êxtase, nossa intimidade, nosso felicidade, nosso amor. E DE MAIS NINGUÉM.
quarta-feira, 14 de julho de 2010
DA SÉRIE: OS FILMES DA MINHA VIDA - UM DIA MUITO ESPECIAL (6)
Numa tarde de um dia qualquer do ano de 1997, enquanto zapeava pelos canais da net, deparei-me com um filme italiano de 1977. Comecei a assisti-lo despretenciosamente e fui pouco a pouco sendo envolvido por uma delicada história de amor e amizade.Em UM DIA MUITO ESPECIAL o ano é 1938, Sophia Loren e Marcello Mastroianni munidos de uma química sempre perfeita dão vida aos solitários Antonietta e Gabrielle. Ela, uma mulher casada, mãe de 4 filhos, que todo dia faz tudo sempre igual, acorda antes de todos prepara o café-da-manhã, serve a família e se despede com um beijo nos filhos que vão pra escola e um seco tchau do marido fascista que a negligencia. Em mais um dia aparentemente igual a todos os outros o passarinho de Antonietta, sua única companhia em dias tão vazios, foge da gaiola por descuido e é ao ir atrás dele que conhece seu vizinho Gabrielle, pois o pássaro pousa em sua janela. Ele, um radialista desempregado por ser homossexual e depressivo, vive sozinho em um pequeno e aconchegante apartamento.
Daí em diante acompanhamos o que seria um dia muito especial na vida de ambos. É primavera e Roma celebra a visita de Adolph Hittler e Benito Mussolini, mas Gabrielle e Antonietta dois excluídos pela sociedade não estão muito preocupados com isso. O homem culto, charmoso e inteligente conduz a dona-de-casa simples, acostumada com a rotina inssossa de um casamento mecânico a um mundo novo e fascinante. Sem sair dos domínios de seu prédio, Gabrielle proporciona a Antonietta uma viagem inesquecível através de suas histórias, livros e discos.

Os dois vivenciam uma intensa relação humana, onde compartilham dramas e esperanças, a tal ponto da ingênua Antonietta acreditar-se apaixonada por seu encantador vizinho, mas descobrindo a homossexualidade de Gabrielle, entende que o sentimento que se estabelece entre eles é algo muito mais profundo que uma simples paixão.
Entre risos, lágrimas, reflexões e uma contra-dança Antonietta e Gabrielle descobrem a grandeza de um amor puro. E com essa história simples, porém carregado de subjetividade, desespero e doçura, aquela tarde de um dia qualquer do ano de 1997 tornou-se inesquecível e muito especial.
terça-feira, 6 de julho de 2010
CHEESECAKE DE FRUTAS VERMELHAS

A água quente do chuveiro escorria lentamente sobre o corpo lânguido dela embaçando os vidros e o espelho do banheiro. Envolveu-se num felpudo roupão branco de algodão. Enquanto escolhia a roupa que ia vestir, ouviu o canto do canário na varanda, esboçou um sorriso triste. Observou o clima do tempo pela janela do quarto, uma chuva muito fina, quase imperceptível, mas persistente, assim como a melancolia que habitava sua alma, caía lá fora. O céu estava cinza, mas de um cinza bonito, que dava o tom exato ao outono com suas folhas secas caídas ao chão.
Vestiu a capa creme de tecido sintético, botas de couro marrom de cano e saltos longos e sentou-se defronte ao espelho da penteadeira ocupada por cremes, perfumes e toda a natureza de produtos femininos. Prendeu os longos e lisos cabelos negros num coque displiscente deixando alguns fios soltos nas laterais do rosto. Aplicou uma maquiagem leve, sentiu-se bonita. Calçou as delicadas luvas brancas de seda, pegou o guarda-chuva cor-de-rosa e saiu exalando no ar o cheiro suavemente adocicado do perfume de frutas cítricas.
Era a primeira hora de uma tarde nublada de quarta-feira, fazia um frio ameno e aquela chuvinha continuava. A mulher meticulosamente vestida e produzida para uma ocasião especial desceu do táxi amarelo, adentrou o teatro, sentou-se sozinha em uma fileira de cadeiras vazias e durante as duas horas que se seguiram deixou que suas discretíssimas lágrimas lavassem sua alma amargurada enquanto assistia a ópera Madame Butterfly. Após o término do espetáculo retocou a maquiagem, atravessou a rua e entrou no shopping que ficava em frente ao teatro. Caminhou durante longos minutos comtemplando vitrines e pessoas, observava a tudo e todos cuidadosamente como se quisesse desvendar um grande segredo.
Entrou numa chocolateria, fechou os olhos, inspirou profundamente deixando que o aroma sublime da loja invadisse todos os seus sentidos. Doces eram sua perdição e após sair do transe olfativo no qual se deixou envolver pelo aroma dos diversos chocolates não se refreou em gastar uma pequena fortuna numa belíssima caixa de bombons suíços recheado com lícor de variados sabores.
Passeou pela imensa livraria. Adorava livros, comprou um grande e grosso de receitas, lindamente ilustrado e caro. Levou também um cd de boleros clássicos. Saindo do shopping com algumas sacolas, caminhou em direção ao parque, atravessou-o com o guarda-chuva aberto em uma das mãos e as sacolas em outra. Parou no meio do parque, olhou atentamente as árvores, a chuva fina que caía do céu cinza e afastou um pouco o guarda-chuva para que os miúdos pingos tocassem seu rosto. Seguindo seu destino, passou na locadora e alugou Bonequinha de Luxo, tinha veneração por aquele filme, por Audrey Hepburn e por Moon River.
Quase fim de tarde. Antes de voltar pra casa ainda passou no pet shop pra comprar o alpiste do canário e no mercado, onde comprou os ingrediente para uma receita do livro novo que tinha acabado de adquirir.
Já em casa, colocou o DVD pra rodar e deixou-se fascinar mais uma vez pelo charme eterno da bonequinha de luxo. Ao fim do filme decidiu que era hora de saborear a deliciosa receita do livro, um maravilhoso cheesecake de frutas vermelhas. Tudo o que fazia era com muito capricho e esmero. Preparou primeiro a massa, lavou as frutas, amoras, morangos e framboesas, picou-as e enquanto executava a receita ouvia o Bolero de Ravel. Com o cheesecake quase pronto, colocou água no fogo para o chá que o acompanharia e serviu alpiste para o canário.
O cheesecake de frutas vermelhas sobre a mesa era uma verdadeira obra de arte. Serviu-se de uma fumegante xícara de chá de hortelã e um generoso pedaço da torta. Tomou um gole do chá que aqueceu até a alma, com o cair da noite o frio havia aumentado e antes de saborear o primeiro pedaço da cheesecake, hesitou e pensou em tudo o que tinha feito, visto e sentido naquele dia. O banho quente e demorado que embaçou os vidros do banheiro; o canto do canário; a ópera; as pessoas no shopping; as vitrines lindamente montadas que enchiam os olhos; os aromas da chocolateria; o sabor do bombom suíço; os ares de requinte e sofisticação da imensa livraria; a beleza do parque numa tarde de outono; os pingos de chuva pousando mansamente em seu rosto; a escolha minuciosa das frutas no supermercado; o filme; o Bolero de Ravel, que ainda tocava e o preparo da cheesecake. Tudo naquele dia parecia um ritual sagrado e de certa forma era, havia algo de mágico em cada detalhe. Tudo havia sido meticulosamente preparado pra que fosse um dia perfeito e como tudo que é perfeito não se repete duas vezes mastigou lentamente um pedaço de sua obra de arte, saboreando cada pequena explosão de sabor no céu de sua boca. Enquanto deliciava-se com a torta o sorriso melancólico reapareceu em seus lábios, mas agora era também um sorriso de vitória. Tinha conseguido finalmente transformar seu último dia de vida num dia especial. Depois de uma vida inteira mergulhada em tristeza e amargura conseguiu enxergar a beleza das coisas, mesmo que por apenas algumas horas.
Começou a sentir dores insuportáveis, tombou a xícara de chá com a mão, espatifando-a em pedacinhos no chão, contorceu-se ao lado dos cacos de porcelana enquanto o veneno de rato que tinha comprado na pet shop junto com o alpiste e misturado a massa da cheesecake de frutas vermelhas, fazia efeito.
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