terça-feira, 8 de dezembro de 2009

A INTERFERÊNCIA DO TEMPO

Por Martha Medeiros

Há quem diga que o tempo não existe, que somos nós que o inventamos e tentamos controlá-los com nossos relógios e calendários. Nem ousarei discutir essa questão filosófica, existencial e cabeluda. Se o tmepo não existe, eu existo. Se o tempo não passa, eu passo. E não é só o espelho que me dá a certeza disso.

O tempo interfere no meu olhar. Lembro do colégio em que estudei por mais de uma década, meu primeiro contato com o mundo fora da minha casa. O pátio não era grande - era colossal. Uma espécie de superfície lunar sem horizontes à vista, assim eu o percebia aos sete anos de idade. As escadas levavam ao céu, eu poderia jurar que elas atravessavam os telhados. Os corredores eram passarelas infinitas, as janelas pareciam enormes portões de vidro, eu me sentia na terra dos gigantes. Volto, depois de muitos anos, para visitá-lo e descubro que ele continua sendo um colégio grande, mas nem o pátio, nem os corredores, nem as escadas, nada tem o tamanho que parecia ter antes. O tempo ajustou minhas retinas e deu proporção as minhas ilusões.

A interferência do tempo atinge minhas emoções também. Houve uma época em que eu temia certo tipo de gente, aqueles que estavam sempre a postos para apontar minhas fraquezas. Hoje revejo essas pessoas, e a sensação que me causam não é nem um pouco desafiadora. E mesmo os que amei já não me provocam perturbação alguma, apenas um carinho sereno. Me pergunto como é que se explica que sentimentos tão fortes como o medo, o amor ou a raiva se desintegrem. Alguém era grande no meu passado, fica pequeno no meu presente. O tempo, de novo, dando a devida proporção aos meus afetos e desafetos.

Talvez seja essa a prova da sua existência: o tempo altera o tamanho das coisas. Uma rua da infância, que exigia muitas pedaladas para ser percorrida, hoje é atravessada em poucos passos. Uma árvore, que para ser explorada exigia uma certa logística - ou ao menos um "calço" de quem estivesse por perto e com as mãos livres -, hoje teria seus galhos alcançados num pulo. A gente vai crescendo e vê tudo do tamanho que é, sem a condescendência da fantasia.

E ainda nem mencionei as coisas que realmente foram reduzidas: apartamentos que parecem caixotes, carros compactos, conversas telegráficas, livros de bolso, pequenas salas de cinema, casamentos curtos. Todo aquele espaço da infância, em que cabia com folga nossa imaginação e inocência, precisa hoje se adaptar ao micro, ao mínimo, a uma vida funcional.

Eu cresci. Por dentro e por fora (e, reconheço, pros lados). Sou gente grande, como se diz por aí. E o mundo à minha volta, à nossa volta, virou uma aldeia, somos todos vizinhos, todos vivendo apertados, financeira e emocionalmente falando. Saudade de uma alegria descomunal, de uma esperança gigantesca, de uma confiança do tamanho do futuro - quando o futuro também era infinito à nossa frente.

7 comentários:

Seu Zé disse...

O tempo existe e é cruel, se não tomar cuidado ele te leva com tudo, viva a vida, realize seus sonhos, curta bastante o que quiser, mas se lembre que o tempo está aí.

BLOGdoRUBINHO
www.blogdorubinho.com.br
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Ivan Junior disse...

Ótima observação, durante a leitura parei pra pensar e percebi como tudo faz sentido pra mim também, e como tenho certeza que daqui a dez anos vou me sentir maior do que me sinto agora, você se sente maior do que antes quando ve coisas maiores do que via antes, o tempo proporciona não somente uma exploação histórica do passado mas também uma espécie de arquivo X, donde retira-se referencias assustadoramente valiosas.

www.ivanjjunior.blogspot.com

Neuro-Musical disse...

Nossa! Esse texto foi perfeito. Sim, o tempo existe e o ser humano é a prova viva disto não? Envelhecemos e isso basta! O tempo passa todos os dias e hoje em dia está passando cada vez mais rápido! Devemos dar valor ao nosso precioso tempo...!

http://cerebro-musical.blogspot.com

Nova Quahog disse...

ele cura tudo!!

V disse...

Rapaz, vc falando do modo como não precisar de "logística" pra subir numa árvore elimina a fantasia me fez lembrar de várias coisas que eu já li sobre isso... A necessidade do homem fantasiar com algo intangível, sempre. Por isso tantos gigantes nos contos de fadas. Por isso tanto encanto pelo mar que se abre pro infinito!

Abraço Esdras!

Tatiane disse...

O tempo é nosso maior aliado,pena que com ele vem as rugas :S

Suzy disse...

O tempo é um vento avaçalador ...PARBÉNS PELO TEXTO