terça-feira, 9 de março de 2010

UM AMOR PURO

"Um amor puro não sabe a força que tem..."
(Djavan)





Dominic e Gregory se conheceram no início da adolescência. Dominic tinha 11 e Gregory 11 e meio, como fazia questão de ressaltar. Foi no verão de 1992, Dominic não imaginava, mas aquele verão mudaria todo o resto de sua vida, sua visão de mundo, um sopro de esperança como uma lufada de vento fresco num dia tórrido de calor.

Domi, como era carinhosamente chamado pelos pais, era diferente dos outros garotos. Um pouco mais sensível, um pouco mais delicado, um pouco menos masculino. Educadinho demais, como diziam alguns adultos, bichinha demais, como diziam alguns filhos desses mesmos adultos. Realmente, Domi era cheio das feminices, gostava de bonecas e ficar na companhia de meninas. Na escola era achincalhado, principalmente e em sua grande maioria pelos garotos. Crianças são verdadeiramente muito cruéis e quando o alvo dessa crueldade era Dominic, o repertório de ofensas e humilhações era extenso.

A escola foi por muito tempo na vida de Domi um tormento, por muitas vezes os pais tinham que comparecer a instituição para interceder por ele, conversar com alguns alunos perseguidores, solicitar a professores e diretores que protegessem mais seu filho de tantos ataques. Apesar de tantos desafios Dominic erguia a cabeça e seguia em frente, tentando ignorar os que lhe afligiam dor gratuita e maldosa. Ele era um menino alegre e só queria ser feliz do jeitinho que era. Tinha vontade às vezes de ficar com os meninos, conhecer melhor o universo deles, que era diferente do seu, mas eles não deixavam nem que se aproximasse, sua viadagem poderia ser contagiosa.

Domi sofria, chorava e sonhava em silêncio com o dia em que todos o aceitariam, e todos o amariam e descobririam a pessoa maravilhosa que ele era. Ele só queria ser amado. Sabia que era amado pelos pais, mas queria mais. Queria ser amado pelos professores, pelos colegas, pelos vizinhos, se sentir querido ao invés de rejeitado e afrontado todo o tempo.

Quando ia com os pais na casa de amigos com filhos da mesma idade que a sua, sabia que se não tivesse uma menina na casa, ficaria num canto sozinho vendo os meninos brincarem ou então ao lado da mãe o tempo todo. Mas pra não ouvir o detestável comentário: "...mas esse menino não larga da barra da saia da mãe", preferia sair de perto dela e ficar sozinho num canto mesmo. Os meninos eram um mistério pra ele, um mistério intrigante e fascinante que ele tinha muita vontade de desvendar, e o faria se não se sentisse tão intimidado com suas agressividades.

Mas eis que surge o dia em que Dominic conhece Gregory. De férias, na praia com a família, montando seu castelo de areia, Dominic sente uma sombra tampando o sol sobre suas costas, quando vira a cabeça pra ver quem é, enxerga um bonito garoto de sunga azul com desenhos de ondas e cabelos negros. O garoto é Gregory que com uma voz um pouco mais grave que a de Dominic pergunta se pode ajudá-lo a construir o castelo. Domi fica surpreso com a aproximação do garoto e aceita a companhia. Logo os pais de Gregory aparecem apresentando-se aos pais de Dominic e ali tem início uma nova amizade. Os pais de Gregory contam que moram na capital e estão de férias na praia, que Greg é filho único, mas bastante desinibido e extrovertido, puxa assunto e faz amizades com várias crianças por onde passa. Os pais de Dominic convidam os de Gregory para um jantar e concretizam a amizade entre eles e seus filhos.

Os dias se passam e com eles aumenta o encantamento de Dominic por Gregory. Greg é bonito, atencioso, divertido, inteligente, gosta de sua companhia e não o rejeita. Dominic sempre sonhou, mas nunca acreditou que conheceria um garoto assim um dia. Gregory era a personificação de tudo o que Dominic havia desejado em silêncio durante todos os seus dias, meses e anos de tormento. Sentia-se forte e protegido ao lado dele e Gregory agia mesmo como um irmão mais velho, sempre pronto a proteger e defender o irmão caçula.

Naquele verão Domi e Greg viveram dias maravilhosos. Dominic fez coisas que nunca havia feito antes e Gregory repetiu coisas que já havia feito, mas com um sabor especial, pois Domi era muito especial pra ele, seu jeito diferente e delicado o instigava a mostrar pra ele um mundo que Domi desconhecia e isso lhe era fascinante e delicioso. Juntos eles pescaram, andaram à cavalo, tomaram banho de lama, dormiram na mesma cama, comeram sonho de creme... Até que chegou o dia da despedida.

Os dois se abraçaram forte e Dominic chorou. Gregory engoliu o choro e prometeu ao amigo que as férias de inverno ele passaria em sua casa e até lá se falariam por telefone e por carta. Ao ver o amigo entrar no carro e bater a porta, um rio de lágrimas deságuou pelo rosto de Dominic. Na estrada, dentro do carro, em silêncio uma lágrima verteu dos olhos de Gregory, não quis chorar na frente de Dominic, pois queria sempre parecer forte diante dele e demonstrar segurança de que os dois se reencontrariam em breve.

Naquele mesmo ano Dominic e sua família mudaram para outro estado. Domi perdeu contato com Greg e os dois nunca mais se viram. O tempo passou e das lembranças mais ternas de Dominic, ele nunca esqueceu o verão de 1992. Depois daquele verão e com a mudança, tornou-se mais forte, seguro, senhor de si. Cresceu e apareceu, formou-se em artes, saiu de casa, trabalhou muito, apaixonou-se por muitos homens, traiu, foi traído, abandonou, foi abandonado, sofreu, caiu e levantou. Até que um belo dia, no causticante verão de 2010, uma solicitação de amigo no orkut o pega deliciosamente de surpresa, como uma lufada de ar fresco inesperado. Um tal de Gregory, bastante diferente de 18 anos atrás, mas ainda inesquecível.

Solicitação aceita, trataram imediatamente de marcar um encontro e redescobrirem-se. Gregory estaria de passagem por alguns dias à trabalho na cidade de Dominic e este fez questão hospedá-lo em seu apartamento. Depois da euforia e emoção do primeiro reencontro os amigos de infância trataram de colocar todos os 18 anos de distanciamento em dia. Gregory contou que estava péssimo passando por um processo de divórcio e que já tinha uma filha com a ex-mulher, uma garotinha de 7 anos. Dominic falou de seu trabalho, seus romances, que estava só, curtindo uma dor de cotovelo. Os dois beberam cerveja, comeram pizza, assistiram filme, jogaram baralho, relembraram àquele verão e o quanto um foi importante na vida do outro. Depois, já bêbados de sono, Dominic cedeu sua cama de casal para Gregory e foi dormir no sofá da sala, sob protestos de Greg que dizia que os dois poderiam dormir juntos na cama como nos velhos tempos. Mas Domi sabia que era melhor não, Greg estava mais lindo do que nunca e só ele sabia os sentimentos que tinha nutrido todos esses anos pelo amigo querido. Já que Gregory se reconhecia como heterossexual, não estragaria um amor tão puro com um deslize sexual regado à algumas doses à mais de álcool.

Cada um recolheu-se então à sua cama e sofá. Gregory caiu num sono pesado e Dominic teve dificuldades pra dormir, o grande amor de sua vida estava à poucos metros de distância e ele não podia fazer nada pra consumar esse amor, quando conseguiu dormir teve uma noite repleta de sonhos.

Na manhã do dia seguinte, Dominic acordou cedo, queria dar uma passada na padaria e preparar um belíssimo café. Ligou o rádio e foi até o quarto, Gregory ainda dormia profundamente, Domi mal acreditava em seus olhos, parecia uma miragem, aquele garoto de 11 anos e meio havia se tornado um homem deslumbrante e o destino que quis que voltassem a ficar de novo tão próximos. Chegou perto da cama, ajoelhou-se no colchão, aproximou-se ao rosto de Greg, sentiu sua respiração profunda, a quentura de sua pele pressionada sobre o travesseiro branco de cetim e quase recostou seus lábios no dele roubando assim um beijo, mas recuou. Deu-lhe um suave beijo na face de barba cerrada e se afastou, decidiu que não confundiria as coisas, amaria Gregory como sempre amou, o melhor amigo de toda uma vida.

Ao se aproximar da porta para ir até a padaria, ouviu no rádio um trecho da canção de Djavan:

" O que há dentro do meu coração
Eu tenho guardado pra te dar
E todas as horas que o tempo
Tem pra me conceder
São tuas até morrer

E a tua história, eu não sei
Mas me diga só o que for bom
Um amor tão puro
Que ainda nem sabe a força que tem
É teu e de mais ninguém"

3 comentários:

Macaco Pipi disse...

ahh
boa combinaçao

Celma Araújo disse...

sem comentários

Carmem disse...

Interessante.
No fundo, não passa de vida real: quem eu amo, não me ama, não é?